A história está desfilando bem à nossa frente, ou como diria o saudoso Joel Silveira [1], “a banda está passando” e como quem apenas observa o desfile, talvez, se eu tivesse ainda na condição de crente no “estado democrático de direito”, certamente estaria lamentando por ver um ex-presidente da República na iminência de cumprimento de uma pena restritiva da liberdade, após condenação em segunda instância, embora, também compreenda a importância e a necessidade da punição.

Como austrolibertário, não tenho maiores excitações para compartilhar, dado o que penso sobre a política e os políticos no âmbito do estado. Brincando com um amigo petista, disse que, em meio às diversas reações, uns chorando, prometendo até ir preso com Lula, outros comemorando, soltando fogos e prometendo festa no fim de semana, me sinto como alguém despretensiosamente vendo uma disputa de pênaltis de uma dramática final de campeonato entre dois times pelos quais não tenho qualquer apreço.

Penso que Lula poderá ser convertido no  “Padre Cícero” da política; excomungado pelo “sistema”, porém celebrado como uma divindade por um nicho de devotos radicais em rincões do país. Por falar nisso, vi algumas curiosas associações de Lula à Gandhi, Mandela, Luther King Jr., e até Jesus Cristo.

Apesar do cúmulo do ridículo, vale a pena lembrar que Mahatma Gandhi foi pacifista, adepto da “não-agressão” (Satyagraha) e, por conta dessa doutrina, não incitava seus seguidores ao ódio e a atos de violência, embora tivesse feito uso de desobediência civil na defesa de suas ideias, fato é que o líder espiritual indiano não resistia violentamente às agressões que sofria de seus opositores. Anos mais tarde, o pacifismo de Gandhi influenciou o pastor batista Luther King Jr. o “guerreiro pacífico” [2] –  e o líder político Nelson Mandela, de viés progressista, sendo Luther King Kr avesso ao comunismo, ambos atuaram na luta por direitos civis. Mandela foi o mais controverso dos que aqui mencionei; acusado de comunismo e terrorismo na juventude, após 27 anos de prisão, saiu dizendo que estava pronto para perdoar quem lhe privara da liberdade. De fato, buscou conciliação com opositores após chegar à presidência da África do Sul, em 1994.

Bem, a doutrina da “não-agressão” de Gandhi, repercutindo nas militâncias de Luther King Jr. e Nelson Mandela, tem tudo a ver com os discursos radicais da esquerda brasileira seja no PT, no MST ou em linhas auxiliares, incitando a violência, prometendo “tocar fogo na Globo” [3], não é mesmo?

Quanto a Jesus, tirando o sacrilégio de compara-Lo a Lula, Ele, o Cristo do Deus Vivo, além de ser (pela fé, está vivo!) o maior de todos os personagens promotores da paz, segundo  as Escrituras, humildemente se entregou, sem qualquer resistência e ainda repreendeu um dos apóstolos, São Pedro, quando o então discípulo desembainhou a espada para ferir, decepando a orelha de um guarda romano, exatamente quando se cumpria a ordem de prisão.

“Então Simão Pedro, que tinha uma espada, a desembainhou, e feriu o servo do sumo sacerdote, e lhe cortou a orelha direita. E o servo se chamava Malco. Jesus então disse a Pedro: Põe a tua espada na bainha; o cálice que o Pai me deu, não o beberei?” (Jo. 18:10-11).

Divergências ideológicas à parte, Gandhi, Luther King Jr. e Mandela foram líderes que se sacrificaram em torno dos valores que defendiam e imagino que, diante de uma ordem de prisão, jamais se esconderiam atrás de seus discípulos. Por fim, embora as evidências apontem o contrário, desejo que os seguidores de Lula, além do próprio, evitem derramamento de sangue, apregoem e pratiquem a não-violência, zelem pelo diálogo, inspirados  sobretudo, pelo maior de todos os líderes: o incomparável Cristo Jesus.

 


Notas:
  1. Segundo o também saudoso jornalista Geneton Moraes Neto, Joel Silveira foi “o maior repórter brasileiro”. Entre as frases de Silveira mais conhecidas, há uma que tenho como referência quando o assunto é jornalismo: “Jornalismo é ver a banda passar, não é fazer parte da banda.”; Ver O repórter que viu a banda passar;
  2. Recordando os tempos de seminário teológico, há uma obra essencial para se ter uma base do pensamento de Luther King Jr: O Redentor Negro – Preces e Mensagens. Trata-se de sermões e discursos do líder batista norte-americano;
  3. Ver Líder do MST ameaça “ocupar todos os prédios públicos” e “tocar fogo na Globo” após voto de Rosa Weber

 

 

 

 

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