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O que me menciono aqui como “ambiente acadêmico”, se aplica ao âmbito do ensino superior reconhecido pelo Ministério da Educação.

Peço escusas por algo de cunho pessoal.

Sempre que chego ao estacionamento da instituição, onde frequentemente deixo minha esposa discente, o faço com satisfação familiar, respeitando o propósito e a crença dela na busca de mais uma graduação, enquanto o mesmo ambiente não me remete ao que entendo ser uma autêntica academia. Na área de economia, tenho um diploma de uma instituição reconhecida pelo tal Ministério, garantindo que sou “formado” (non mi piace). Não creio que tal certificado reflita minha realidade. Entendo que para muitos a carreira no “ambiente acadêmico” significa satisfação pessoal que cabe meu respeito, mas não me impede de tecer as críticas que aqui discorro.

Em novembro do ano passado, falei sobre a famigerada “reforma trabalhista”, com um enfoque econômico austríaco a uma turma de ciências contábeis, por convite de um aluno que desde 1994 mantenho relacionamento profissional. Em nenhum momento parei para pensar que estava em um “ambiente acadêmico”. Pesavam-me no juízo tão-somente o tema, os ouvintes e a responsabilidade de abordar sobre algo considerado muito polêmico.

Vida intelectual só me faz sentido se estiver amalgamada no tablado comum da sociedade, e aqui “sociedade” penso no sentido dado por Mises [1] (embora há outros sentidos que considero igualmente relevantes), desde espontâneos microambientes de cooperação até ao que Hayek definiu como “ordem ampliada”; o problema é que, não raramente, o “ambiente acadêmico” se dissocia da realidade. Por quê? Não se vive o que se ensina nas bancas de estudo, em muitas situações, cujo interesse maior está em formar teóricos para o planejamento central, como se a “sociedade” fosse algo manipulável sem efeitos colaterais desastrosos. Ressalvando-se exceções, instituições de ensino superior no Brasil, sejam públicas ou privadas, não conseguem preparar adequadamente seus alunos para uma visão mais holística da vida e da sociedade, a aqui sempre reitero que me concentro em relação à economia, porque há um elemento controlador avesso à compreensão de como a sociedade se dinamiza diante da realidade chamada “mercado”, termo anátema à formação socialista em que se encontra o “ambiente acadêmico” o qual me refiro.

Não me interessa o “ambiente acadêmico” porque discentes são submetidos a um sistema de diretrizes em grades curriculares baseadas pelo que determina o tal Ministério, policiando docentes e diretores de instituições estatais e privadas.  Todo planejamento central se revela incapaz de dar conta de reais demandas da “sociedade” [2], assim entendo, postulando o que Hayek chama de “dispersão do conhecimento” [3], e tal estrutura acaba engessando o processo de construção do saber. Não é incomum observar que no “ambiente acadêmico” ficam em evidência arranjos ideológicos hostis, sempre policiescos a quaisquer pensamentos de linha liberal, conservadora ou libertária, o que compete a um produto coletivista, coercitivo, típico do aparato estatal, que interessa a propósitos do poder (público) político. Por consequência, jamais o “ambiente acadêmico”  estará livre o bastante para considerar a mais sublime minoria apontada pela filósofa-romancista Ayn Rand [4]: o individuo, agente fundamental no que os austríacos chamam de “cataláxia” [5] e tudo que se deriva em termos de “ordem espontânea”, em processos de inovações e empreendedorismo. Quanto mais firmada no planejamento central do estado, o “ambiente acadêmico” tende a promover a obsolescência das coisas que são ensinadas nas instituições sujeitas ao controle regulatório. Não me admira que grandes disruptores catalácticos, como Bill Gates e Steve Jobs, se desenvolveram à margem do formalismo universitário. e que grandes homens de negócio se formaram longe do “ambiente acadêmico” no Brasil e se não ocorrer uma mudança profunda, eliminando as interferências do estado, o “ambiente acadêmico” correrá sério risco de não ser mais levado a sério pelo setor produtivo.

O ambiente acadêmico não me interessa porque pertence a um mundo sem utilidade para o que enfrento em negócios que atuam para superar problemas reais, de mercado, e não em conjecturas bisonhas de professores sem experiência empreendedora e que ensinam coisas ultrapassadas, rapidamente colocadas em irrelevância por alunos a partir do momento em que o tão desejado diploma é obtido.

O “ambiente acadêmico” não me interessa porque a maioria dos discentes é tratada como “massa de manobra”; infelizmente, é vista como um passivo manipulado dentro de uma estrutura de docência que faz o jogo de trocas de favores em busca de títulos, honrarias e privilégios com entes estatais, desenvolvendo carreiras que não se pautam, necessariamente, pelo prazer da excelência de promover a busca incessante de saberes. Mais vale o diploma do que o “saber de fato” no “ambiente acadêmico”, o que não me surpreende por ser um produto de uma mentalidade corporativista e degenerada.

A maior gravidade a que me refiro se situa no que é entendido como “área de humanas”, onde muitos cursos não passam de núcleos de formação de agressivos militantes de esquerda, reprodutores de uma ordem que pretende destruir instituições sociais cujos valores não são compatíveis com as engenharias sociais que querem impor. E no lugar de um ambiente que deveria zelar pelo livre pensamento, respeito ao humano e coerência lógica de ideias, se estabelece um meio um tanto de “seita religiosa”, onde a “confissão de fé “está em se manter em evidência fazendo o que o sistema exige e não o que uma desimpedida busca de conhecimento desafia. Não é por acaso que as universidades estatais ficam mais evidentes no sentido de serem os maiores centros de formação de positivistas, intervencionistas, progressistas, marxistas, freyrianos, keynesianos, desenvolvimentistas, sufocando liberais, privilegiando fidalgos bancados pelos mais pobres, cuja carreira e “formação” é mais útil, não por coincidência, para ingressar em outras estruturas cancerígenas do estado: órgãos públicos e empresas estatais.

Passou o tempo em que tinha a ingênua crença que o tal “ambiente acadêmico” poderia conviver em paz com a diversidade de ideias. Entendo liberais que atuam em universidades estatais e privadas, mas a estrutura em que estão firmadas, sempre tenderá para o controle político através do estado. Então, na tal “diversidade” sempre serão impostas ideologias dentro do escopo favorável à natureza estatal. Nestes termos, liberalismo e austrolibertarianismo jamais serão levados a sério, e consciente dessa realidade, aprendi a ter prazer nos estudos onde relevo o distanciamento que tomei agindo como um informal empreendedor intelectual, o que também me inspira a crer que um dia posso me vincular a alguma instituição acadêmica verdadeiramente aberta a liberais, progressistas, positivistas, conservadores, austrolibertários, marxistas, e tantos outros “istas”, livre dos grilhões do Ministério da Educação.

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Notas:
1. Cooperação ou “ação concertada” entre indivíduos que se ajudam mutuamente visando seus próprios interesses. A sociedade é “divisão do trabalho e combinação de esforços”. Ação Humana. Ludwig von Mises, página 183. 3.1a. edição.
2. Novamente me refiro ao sentido dado por Mises em “Ação Humana”.
3. Ver “The Use of Knowledge in Society”, de F.A. Hayek. Há uma outra obra recentemente reeditada em português, onde se pode conferir as principais ideias de Hayek: Os erros fatais do socialismo.
4. Ver a obra “A Nascente”.
5. Teoria da economia de mercado, acerca das relações de trocas e de processos de formação de preços. Conceito foi amplamente trabalhado por Ludwig von Mises, Friedrich August von Hayek, entre outros pensadores da Escola Austríaca de Economia;

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