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A redução de trabalho humano repetitivo, substituído por processos mecânicos, máquinas, e em nosso tempo, por software capaz de aprender e decidir, buscando a maximização da eficiência produtiva, parece não ter fronteira, especialmente com o avanço da inteligência artificial, onde pode se cogitar a substituição do trabalho humano por completo [1].

No entanto, entendo que cabe uma ressalva. Em economia de mercado, produtos e serviços existem para atender aos interesses dos consumidores. Até mesmo nas inovações que “criam demanda”, termo que considero um tanto bisonho, pode induzir ao desprezo de   causas em processos disruptivos, pois os “criadores de demanda” são agentes que procuram conhecer com profundidade, as “dores” dos clientes para ofertar um novo conceito que, na verdade, reflete uma forma até então não conhecida de atender a uma necessidade. Uma sociedade onde a inteligência artificial tenha substituído 100% da força de trabalho humano na produção industrial e em serviços burocráticos,  me parece um exercício apriorístico sem sentido, partindo da Lei de Say, onde a produção precede o consumo, ou seja, consumidores determinam o que deve ser produzido, a automação, assim como a IA, são métodos aplicados sempre condicionalmente, conforme a existência de um mercado consumidor. Enquanto mercado consumidor (humano), se pressupõe uma derivação da  renda e, consequentemente, do trabalho. Fala-se em economia colaborativa, velhos modelos redistributivos de renda e concessões compartilhadas, mas imagino que esse problema envolva variáveis  de mercado em um nível de aplicação de tecnologias que, talvez, agentes humanos se tornem mais integrados à robótica de maneira que se desenvolvam  novos sentidos catalácticos para as funções de “consumo”, além de nova demandas de capital humano (novas profissões).

Antes de se sacramentar a ideia de que o desenvolvimento tecnológico, muitas vezes representado pelo avanço da automação e da inteligência artificial (IA), são meios perversos encontrados pelo “capitalismo malvadão” para aumentar o lucro de empresários enquanto provoca desemprego, convido a quem assim pensa binariamente a meditar sobre o que o avanço tecnológico resultou em termos práticos para a nossa espécie e creio que seja preciso lembrar uma obviedade: máquinas e sistemas automatizados proporcionaram ganhos de produtividade, sob custos menores, ao longo da história, e esse desenvolvimento possibilitou o aumento populacional em paralelo ao processo civilizatório. Não me refiro apenas às maravilhas tecnológicas em smartphones, laptops, aviões, drones e robôs que operam em linhas de produção. Penso especialmente em bilhões de pessoas que conseguem alimentos hoje considerados simples, básicos, industrializados e oferecidos a preços finais razoáveis na ponta do comércio, apesar de todas as dificuldades impostas por governos protecionistas contra processos de inovação, sabotando a livre concorrência.

O “pão nosso de cada dia” está disponível na padaria de nossa preferência porque a indústria alimentícia encontrou – ao longo de décadas de esforços em automação – formas de produzir insumos cada vez mais sofisticados que facilitam a produção para o produtor voltado ao consumidor na ponta da cadeia econômica. Leites e sucos em embalagens cartonadas, frutas  selecionadas por sistemas de sensores de visão de máquina, com calibrador por diâmetro, cor e áreas, entre diversos itens da cesta básica que são produzidos por processos cada vez mais sofisticados, céleres, automatizados, resultando em produtos mais baratos e assim acessíveis às pessoas de baixa renda.

Antes de condenar o avanço tecnológico, convido os críticos a se desfazerem de seus equipamentos que eliminam trabalho humano repetitivo, sobretudo os computadores e os programas que efetuam redundantes cálculos, corrigem erros de ortografia, e assim voltem ao tempo das máquinas de datilografia e de contas e textos apenas elaborados com a “ponta do lápis” e contas de tabuada (é sempre bom saber!) na massa cefálica. Livrem-se da internet também, essa danada redutora de custos que nos permite mobiliar nossa casa com relativa segurança e acesso a uma boa concorrência de lojas virtuais, sem precisarmos gastar sola de sapato no comércio presencial, pesquisando preços, sem consumo de combustíveis, sem incrementar gases poluentes no deslocamento de nossos carros, cujas peças são poupadas, sem precisarmos ir a suntuosos shoppings onde sempre gastamos algo mais, aliás, um antigo paradigma comercial que está com os dias contados.

Seria curioso ver, os que só enxergam desemprego, descartando suas lâmpadas LED que poupam energia e iluminam de forma muito mais eficiente, com preços acessíveis, disponíveis em qualquer prateleira em uma loja de material de construção mercado de conveniência ali da esquina, produzidas em fábricas automatizadas. Vamos lá, troca-las por velas e candeeiros, quem sabe para salvar o emprego de milhares de trabalhadores de uma indústria que foi muito bem sucedida até o século XIX.

O avanço tecnológico é inerente à condição intelectual da nossa espécie e contribui para possibilitar a expansão qualitativa e quantitativa da cooperação econômica, apesar dos inúmeros problemas que temos diante de nossas fraquezas morais que se traduzem em falhas de caráter e indiferenças sobre o valor e o respeito que devemos ter para com nossos semelhantes, fato é que bilhões de bocas famintas são saciadas porque empreendedores atuam em cadeia, por cooperação, mediante escala incontável de agentes se integrando para produzir no intuito de atender a uma demanda que exige avanços tecnológicos contínuos. Outras bilhões de bocas ainda carecem de necessidades básicas, mas não será contendo as inovações tecnológicas, no intuito de “salvar empregos”, que tal empreitada será alcançada, e certamente esse grave problema social deve ser visto sob uma ótica um tanto holística, onde o espírito humano de altruísmo e da educação, são elementos decisivos.

Em relação ao tema do uso de automação e IA em serviços contábeis, vejo como um importante benefício econômico, pois o sistema produtivo pode gastar menos tempo com burocracia, cálculos complexos e avaliações de resultados contábeis, se concentrando mais na sua razão de ser: atender cada vez melhor, o vasto e imponderável mercado consumidor. Se um profissional de contabilidade se limita a atuar com burocracia, fazendo tarefas que podem ser feitas por soluções em bots, certamente entrará em obsolescência. Se requalificar seu capital humano para explorar  novas tecnologias em atividades na contabilidade onde aplicativos em IA não predominem, poderá encontrar espaço no mercado, porém, sempre ciente de que se trata de algo em constante inovação.

No mais, só mesmo alguém que tenha hibernado no início do século XVIII e despertado em nossos dias para ver as tecnologias substitutas de trabalho repetitivo como uma novidade, como se as primeiras manufaturas e a revolução industrial inglesa fizessem parte de alguma mitologia.

Empregos entram em decadência, enquanto outros nascem e a alocação de recursos humanos é um problema que denota a obsolescência do capital (humano). Na Índia de Gandhi, muitos seguiam suas concepções ingênuas em economia, avessas ao avanço tecnológico, na crença de que trabalhadores com pouca qualidade de conhecimentos, limitados a trabalhos rudimentares, poderiam ser preservados [2]. Resultado? A Índia se aprofundou na pobreza dos anos 1940 aos anos 1980, mas desde os anos 1990, mudanças de mentalidade começarem a operar na sociedade de modo que investimentos em capital humano cresceram, diminuindo os danos do legado fantasioso de Gandhi.

Da mesma forma que a IA avança, deve avançar a sofisticação do capital humano.

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Nota:
  1. Robôs devem assumir todos os empregos do mundo em 125 anos, diz estudoThis self-driving truck has no room for a human driver — literally
  2. No capítulo 4 da obra “O Livro Politicamente Incorreto da Esquerda e do Socialismo”, de Kevin D. Williamson, há uma abordagem sobre a filosofia de Gandhi aplicada no planejamento central como causa da extrema pobreza na Índia, com interessantes referências bibliográficas.

 

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