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Em 2007 havia uma crença comum entre contadores e profissionais de TI no sentido de que o advento do Sped seria um “divisor de águas” na valorização profissional. Passados 11 anos, desde quando o então presidente Lula instituiu o fascismo digital, o que ficou mais evidente? Frustração de muitos e satisfação de poucos, em uma minoria de experts bem sucedidos, muitos não contadores por formação, onde me incluo.

O Sped se confirmou como um avanço no propósito nefasto de consolidar socialmente a “função” de delator aos profissionais de contabilidade. No lugar de tornar mais perceptível a importância dos contadores na sociedade, o Sped contribuiu enormemente para estigmatiza-los (injustamente) como instrumentais do fisco e da burocracia do estado, enquanto a indústria de consultorias especializadas em vender facilidades para as dificuldades inventadas pelo fisco, tem sido o lado favorecido pelo “novo paradigma”, ao lado daqueles que vivem do parasitismo estatal, obviamente.

Com a chegada do eSocial se retoma então a mesma crença de que haverá a tão desejada “valorização”, desta vez vendida a (desavisados) profissionais de DP/RH.  Sem dúvida, o eSocial deve proporcionar, assim como o Sped, mais mercado com agregação de valor para uma restrita linha de profissionais, com elevada qualificação em conhecimentos no manicômio trabalhista-tributário, especialmente em grandes corporações que possuem recursos para bancar os custos com aquisição e manutenção de capital humano nessa área, formada por  caríssimos profissionais que exploram a “compliance” do fisco. A carestia se dá não por serem relevantes para a sociedade produtiva, e sim porque, primeiro, são escassos e, segundo, bem ambientados na exploração de negócios encharcados por uma coercitiva burocracia governamental.

Quanto mais cara for a manutenção com a burocracia do estado, maiores problemas representará para a competitividade, sendo o Brasil um caso curioso: vem mergulhando desde os anos 1980 no limbo da queda de produtividade, entrando em estagnação na década seguinte até os anos 2000 [1] e, considerando o cenário global, vendo os asiáticos indo por um caminho contrário, evoluindo exatamente por lidarem com um ambiente de negócios bem menos intoxicado que o nosso em termos de demandas burocráticas com os fiscos. Moral da história: não será com  doutores em CLT,  RGPS, NRs, RIR, RFGTS, Sped, eSocial, PIS, Cofins, IRPJ, IRPF, ICMS, CSLL, IPI e outras loucuras do legalismo, que se encontrará o “caminho das pedras”, inclusive para vencer a insana burocracia estatal.

No entanto, há uma outra crença no Brasil bastante cheia de devotos e ainda mais nociva à sociedade: O governo, o grande causador dos problemas, dizem os que assim creem, é quem vai promover as soluções para os males da burocracia, através de mais intervenções por leis e normas infralegais, onde se situam as ações do fisco. Nessa fé um tanto bestial, foram impostas obrigações acessórias que substituíram outras obrigações para “simplificar” as relações do meio produtivo com o estado. O Sped e o eSocial foram vendidos à sociedade exatamente com esse discurso, o que me faz lembrar do clichê de Ronald Reagan nos anos 1980: “Não espere que a solução venha do governo. O governo é o problema”.

Em 11 anos de Sped, se multiplicaram obrigações acessórias com a chancela de tecnologias digitais, com alto grau de complexidade para preenchimento e redundância de informações (ECD, EFD ICMS-IPI, EFD Contribuições, ECF, Reinf), e altíssima taxa de erros em declarações [2]. Não me admira que em 11 anos de Sped, a apuração do Banco Mundial sobre o tempo gasto para cumprir obrigações com a burocracia fiscal, indica que esse tempo praticamente não foi reduzido [3]. E o eSocial? Começou pelos domésticos em 2015 e até hoje não dispensou tais empregadores da DIRF, apenas para ilustrar que o discurso do governo costuma não conferir com os fatos, além de impor rotinas que eram tratadas tacitamente, antes da “simplificação” e que agora seguem um ritual mensal que força empregadores a buscarem apoio com “experts”. O modelo dos empregadores em geral, o dito “eSocial das empresas”, segue na promessa de “simplificação”, envolvendo quatro dezenas de eventos em XML sequenciados logicamente, com amarração burocrática de dar inveja ao aparato controlador soviético no século passado.

Apesar das tradicionais mentiras propagadas pelo governo e por suas linhas auxiliares, onde se situam as ditas “entidades representativas” do meio contábil, uma segunda via na luta contra a burocracia estatal vem se destacando há algumas décadas e cada vez mais acelerando; refiro-me aos esforços de âmbito privado que, por questão de sobrevivência no hospício tributário tupiniquim, não espera que “Maomé vá até a montanha” e desenvolve incansavelmente inúmeras formas de amenizar gargalos, fazendo uso massivo de tecnologias de informação, algo que deverá evoluir para um profundo processo de robotização de escriturações com preenchimento de obrigações acessórias e documentos fiscais.

É neste ponto vejo profissionais de contábeis e demais relacionados, que lidam com a parafernália que hoje demanda serviços baseados em muita repetição, ineficiência de organização de dados, devem entrar em obsolescência vendo seus empregos preenchidos por aplicativos. Vejo muitos “formadores de opinião”, no meio contábil, espcialmente quem trabalha para corporações de TI, meio que  “pisando em ovos” quando abordam um assunto inevitável para o momento: Contadores podem ser substituídos por tecnologias em IA? Sim. Tais “formadores de opinião” ficam constrangidos porque vivem de explorar áreas em que o perfil dos consumidores é composto por contadores ou estudantes de contabilidade, em cursos, MBAs, enquanto trabalham para corporações de TI.

A revolução robótica na contabilidade deverá ser um processo longo e atingirá seriamente quem hoje pensa em se graduar. Em uma de minhas atividades (trader) já há robôs atuando no mercado de ações. Há “robôs advogados”, “robôs cozinheiros” e até funcionando como médicos [4]. Seria muita ingenuidade achar que funções exercidas por contadores ficarão de fora dessa tendência. O primeiro efeito no mercado contábil será mais sensível no barateamento dos serviços de escrituração e elaboração de guias de recolhimento (carteiras fiscais). Será benéfico para a sociedade, pois indicará redução de  tempo e recursos (humanos e financeiros) com burocracia, abrindo mais oportunidades para o meio produtivo. Em uma fase mais aguda, bots vão escriturar coisas complexas, preparando balanços e emitindo pareceres. Empresários terão robores-contadores com pacotes de serviços e a profissão migrará totalmente para a área de programação, aperfeiçoando aplicações até que modelos em IA substituirão (também) os programadores.  

Atualmente, percebo situações inusitadas envolvendo colaboradores de escritórios contábeis que sabotam (ou demonstram certa angústia), diante de projetos de integração de dados, quando percebem que as novas ferramentas possibilitarão que o trabalho feito por uma dúzia de colaboradores, passe a ser realizado por, no máximo, dois profissionais, cujos conhecimentos em TI são estranhos aos que serão substituídos pelos aplicativos.

Tudo isso não significa que recursos humanos serão descartados sem perspectiva de recondicionamento, mediante uma sociedade produtiva baseada mais em robôs. Novas profissões devem seguir na dinâmica cataláctica.  Então, para quem pensa em atuar em contábeis e áreas afins, deixo aqui algumas considerações pessoais, se tivesse na mesma condição de debutante na vida produtiva, ainda levando em conta a mentalidade que tenho atualmente.

Daria ênfase a áreas de estudo com conotação mais econômica-administrativa. Levaria mais a sério a tão judiada contabilidade de custos e as atividades de análises e auditoria estariam no radar, apesar do emaranhado tributário. TI deve ser uma companheira inseparável dos que querem se manter em contábeis nos próximos 30 anos, a meu ver, então me pautaria mais em estudar tecnologias de escrituração baseadas em modelos descentralizadores, de código aberto, como o que se vê em propostas em torno do blockchain.

Infelizmente, as graduações em contábeis não atendem a essa nova perspectiva de estudos. O que se aprende em faculdades é obsoleto e quase de nenhuma serventia em termos práticos. E quanto ao Sped? A economia brasileira não dará conta de sustentar um estado tão invasivo por muito tempo; ou será repensado ou irá à bancarrota, por isso, se concentrar em Sped é um risco que considero elevadíssimo. Fazer MBA em áreas tributárias? Só se for para auxiliar na compreensão de atividades de auditoria, mas sem criar expectativas maiores, levando em conta de que uma reforma do estado pode colocar muitos conhecimentos em um relicário. Apenas para ilustrar, um expert em PIS/Cofins, autor de livros na área, certa vez comentou comigo que um dos temores que tem consiste em uma reforma geral no sistema (PIS/Cofins), o que o tornaria obsoleto rapidamente, como profissional.

Também priorizaria o estudo de idiomas, linguagens de programação e  bancos de dados. Contadores que são leigos em conhecimentos de TI, sobretudo em integração de bases de dados, já sofrem no momento bastante para entenderem as demandas do mercado, agora, imagine aqueles que pretendem adentrar em um ambiente onde, muito provavelmente, terão adequações a  fazer com tecnologias que sequer existem na atualidade e que herdaram processos de tecnologias igualmente desconhecidas?

Por fim, surgindo oportunidade, não hesitaria em fazer um intercâmbio no exterior, especialmente em economias não muito badaladas, porém mais liberais, quando comparadas com a nossa, tais como Austrália, Nova Zelândia, Hong Kong e Singapura. Em suma, seria um estudioso da economia de mercado para inspirar clientes a negócios de alto valor.

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Notas:
  1. Ver Insper: Estudo analisou a evolução da produtividade do Brasil
  2. Ver Arquivos do SPED com inconsistências: quem poderá nos defender?
  3. Ver Doing Bussiness bases de dados. Paying Taxes. 2017
  4. Ver Software de inteligência artificial pode fazer diagnósticos sem ajuda de médico

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