Compartilhar

Há duas obras que perturbaram bastante minha caminhada pensante: O Ser e o Nada, de Jean-Paul Sartre [1], pelos idos do seminário teológico, e O Caminho da Servidão, de Friedrich Hayek [2], logo após descobrir a Escola Austríaca em 2006.

Minha leitura de Sartre se deu na biblioteca do Seminário Batista do Norte em 2005, entediado com os excessos de teologia sistemática. De onde era para se consolidar um típico pastor batista, mais ortodoxo, doutrinador, nasceu um apreciador do existencialismo.

Paul Tillich [3], com A Coragem de Ser, leitura preliminar, tinha dado o empurrão logo após Soren Kiekegaard [4], com o Desespero Humano,  ter feito um preâmbulo mais nostálgico, bastante incentivado após me deleitar com os textos de Santo Agostinho, por sinal, se eu fosse católico, seria devoto dele.

Nada mais sou do que aquilo que faço de mim mesmo e não posso escapar da subjetividade enquanto paradoxalmente pareço secreto na minha própria revelação, porque sou uma forma de liberdade, única e inexorável. Entendi o significado de construir, destruir e reconstruir ideias, até então embaralhadas com os determinismos, embora tenha identificado um tempo depois, os perigos dessa filosofia.

Ler Sartre ironicamente abalou minha crença na formação keynesiana e no jeito socialista de pensar a vida e a economia. Estava aberto, mais antissistemático e curiosamente despretensioso, enfim, disposto o bastante para ler O Caminho da Servidão,  referência que me deu inúmeras razões para refletir melhor em busca dos significados do estado e da liberdade econômica.

O único livro proibido é aquele que o nosso comodismo determina.

O homem não pode escapar da subjetividade. Minha experiência com a estética existencialista e o impacto de outra obra perturbadora ainda nos tempos do seminário teológico, a Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant, outro amaldiçoado por gente que pensa ter a prerrogativa de poder pensar pelos outros, curiosamente, me ajudaram a pensar mais em ideias sobre subjetividade sob uma visão de economia descentralizada, baseada em indivíduos, na liberdade de ser, algo que atende pelo nome de anarcocapitalismo.

A lógica formal é o alvo para as metralhadoras giratórias usadas por interpretações gramcistas e hegelianas, onde a obra de Sartre tem espaço mais por afinidades de política e ideologia que qualquer outra coisa, assim penso, contudo, o peso político não me tirou o interesse por um trabalho muito além do que Heidegger tinha pensado em Ser e Tempo.

Em meio às desconstruções onde Nietzsche tem um espaço no meu jeito de ver o mundo, uma nova leitura da obra de Sartre me fez refletir de maneira intrigante sobre a relevância do conservadorismo, isto posto porque o encaminhamento político que se dá à subjetividade é um instrumento perverso para levar incautos a abismo sem fim pelo radical desprezo de referenciais sem qualquer reflexão minimamente honesta, o que entendo ser uma aplicação desvirtuada, sobretudo pelo marxismo, envolvendo também a tríade de Hegel e as obras de Kant.

Reler obras impactantes é fundamental.

E um fato envolvendo uma atitude de Sartre, me ajudou a enxergar o filósofo sem as paixões ideológicas de quem vê um   ativista comunista defensor da revolução por meios violentos; ele parece ter “conspirado contra si” em relação ao  Nobel de Literatura em 1964. :

“Um escritor que adopta posições políticas, sociais ou literárias deve agir apenas com os meios que são os seus – ou seja, a palavra escrita. Todas as honras que possa receber expõem os seus leitores a uma pressão que não considero desejável.” [11]

O filósofo que eu deveria evitar, não queria ser  “institucionalizado”? Se realmente foi essa a intenção, penso que Sartre pode ter sido apenas mais um ingênuo radical defensor de um orgulho entre comunistas intelectuais manipulados por quem só quer mesmo é o poder, ou foi um gênio do marketing de ideologia na exploração de uma narrativa que soa desarmada de interesses pessoais, em não querer tomar vantagem imprópria com uma premiação tão badalada.

Imagino que foi um pouco das duas coisas.

Então enquanto em 2006 pensava que o libertarianismo era um absurdo, aprendi a investigar se estava em um absurdo maior em não avaliar  honestamente, se o tal “absurdo” não estaria mais concentrado no lado dos que creem que um indivíduo infantilizado, julgado incapaz de tomar decisões por si mesmo, pode ser capaz de escolher quem as faça em seu lugar, o que me soava, na melhor das hipóteses, como um comodismo. Essa problemática foi determinante para acabar com o resto do keynesianismo que insistia em ficar, levando junto a fé no minarquismo.

Não foi difícil perceber que estava indo por um caminho marginal para ambientes encharcados de patrulhas ideológicas. Sartre e Hayek,  um filósofo comunista e um austríaco de economia, respectivamente; duas forças intelectuais politicamente antagônicas e ao mesmo tempo libertárias para o meu contexto. Nessa mistura tão improvável – e inconveniente para muitos – aprendi mais sobre a necessidade de “chutar o pau da barraca” do mainstream. Diante de um mundo certinho demais para não ser submetido a dúvidas embasadas na estrutura lógica da ação humana, o que me remeteu a Ludwig von Mises, e então, Rothbard foi um passo natural, e com o viés existencialista, pude ver um  mundo de possibilidades, ao mesmo tempo em que não deixava perder de vista o conservadorismo e o liberalismo clássico.

Dois livros, dois mundos, duas perturbações, um encontro literário que me lembrava, por outra ironia fina, Joseph Schumpeter [7], quando aborda os efeitos das inovações, a “destruição criativa”, só que me refiro ao meu próprio pensamento como objeto que, por alguns decisivos momentos, não foi supervisionado (ou seria manipulado?)  por professores conservadores e progressistas, e então, provocações se deram de tal maneira que alteraram para sempre o jeito de fazer o refinamento ideológico e assim não  tornaria mais a ser o que fui; debutei em uma jornada  ingênua aos olhos dos pragmatismos que bombardeiam diariamente minhas necessidades de saber mais elementares, tendo uma certa profundidade pela vida profissional, de entender como funcionam as coisas do poder alimentado pelo mainstream; então, caí em uma atividade que me faz lembrar o que Bruno Garschagem [5] chama de “empreendedor intelectual”, em sua primeira obra, que creio ser de  utilidade pública: Pare de Acreditar no Governo [6].

O resultado mais prático dessa experiência é ler autores como Gilberto Dupas [8], Olavo de Carvalho [9] e Hans-Hermann Hoppe [10], em suas respectivas obras que mais me influenciam atualmente, sentindo um espírito amistoso, desarmado, sob a multiplicidade de “cosmovisões”, sem aquele malgrado que habita os corações dos que viram tiete de intelectuais e escolas de pensamento.

E aqui estou, “condenado a ser livre”, aprendendo com conservadores, progressistas, liberais e libertários, tentando me ocupar do que seja humano, feliz por não ter compromissos acadêmicos ou quaisquer outros meios de amarrações corporativas, avesso a coisas que tentam me rotular e/ou policiar, consciente que o austro-libertarianismo é uma longa jornada que não vai castrar o bem mais precioso que povoa minha alma: o livre pensamento.

O irrelevante mundo que habita em mim, me cansa; o desprezível valor das coisas que ouso pensar,  me basta; e o desafio das ideias que interajo, me fascina.

_______

Notas:
  1. Filósofo francês (1905-1980). O grande nome do existencialismo. Ateu, foi um dos mais controvertidos  pensadores do século XX. Rejeitou o Nobel em 1964, alegando não querer ser transformado em “instituição”.
  2. Economista e filósofo austríaco (1899-1992). Levou o dito “Nobel de Economia” em 1974. Da  escola austríaca, é uma das maiores referências do pensamento econômico de cunho liberal.
  3. Teólogo e filósofo da religião, alemão (1886-1965). Obteve a cidadania americana, contrário ao regime nazista, fixou residência nos EUA.
  4. Teólogo e filósofo dinamarquês (1813-1855). Um dos mais brilhantes críticos da vida religiosa em seu tempo e a forte subjetividade de suas obras despertou o interesse de Sartre.
  5. Cientista político brasileiro. Professor de teoria política. Autor de “Pare de Acreditar no Governo”.
  6. Obra que aborda, com humor refinado,  questões que dizem respeito ao fato de os brasileiros não confiarem nos políticos e amarem o estado.
  7. Economista austríaco (1883-1950). Um dos pioneiros a teorizar os efeitos das inovações tecnológicas nos ciclos econômicos.
  8. O mito do progresso.
  9. O Mínimo que Você Precisa Saber para não Ser um Idiota
  10. Democracia, o Deus que falhou.
  11. Como Sartre recusou o Nobel em 14 linhas e pouco mais de 100 palavras

Comentar pelo Facebook (0)

Comentar pelo Google+ (0)

Comentar pelo WordPress (0)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *