De Stephen Hawking (1942-2018), “o maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, mas a ilusão do conhecimento”.  

Talvez o professor de Cambridge tenha vivenciado em si mesmo tamanha ilusão em relação à sua tese sobre buracos negros e um estudo que publicou na revista Nature em janeiro de 2014, onde nega coisas que teorizou [1], surpreendendo a comunidade científica na ocasião.

Contradizer-se para muitos pode ser uma vergonha insuportável, mas para Hawking me pareceu ter sido uma questão de superação da tal ilusão que aplicou em si mesmo. Hawking me faz lembrar Albert Einstein (1879-1955), quando disse que o problema de muitos acadêmicos é a “educação”, não a “falta de”, mas o “excesso”, ou seja, quando a sistema de ideias pelo qual estão envolvidos está impregnado de tal maneira na mentalidade que enrijece o fazer ciência, e então no lugar da busca livre do aprendizado, há uma atividade bitolada por um  controle de conceitos, tornando-se inóspito à contradição para repensar o próprio padrão em que se firmou. A construção do conhecimento fica enclausurada em paredes de instituições, egocentrismos e corporativismos. Para Einstein, a aprendizagem deve ser um processo que possa ser recebido com alegria, prazer, satisfação, embora seja desgastante, e não como uma obrigação amarga, sem curiosidade e fascínio do aluno [2].

A ilusão fatídica tem predileções por gente muito bem “formada” e com todo tipo de titulação. Indivíduos que se tornaram parte de um sistema onde a repetição que negligenciam novas dúvidas que surgem na dinâmica social; sem dar o devido espaço à inovação fora dos meios convencionais de ensino, multiplicando gerações de “pensadores” engessados, programados a uma maneira de disseminar conhecimento um tanto desinteressada pelo contraditório e pelas coisas que acontecem na dispersão do conhecimento, sobretudo as que se apresentam fora dos padrões institucionais.

Em um ambiente que se recusa a escutar o “outro” além do controle, não será incomum ver discussão em torno de ideias se tornando de menor envergadura em relação ao peso de quem as emitem; o conhecimento passa a ser tratado como coisa institucionalizada, personalizada, e fica próximo de ser dogmático, emudecendo qualquer intenção de livre pensar com um vazio travestido de erudição.  A “ilusão do conhecimento” está presente em muitas faculdades de economia no Brasil que “formam” profissionais com uma exagerada carga keynesiana, enquanto vertentes do liberalismo são colocadas em segundo plano, quando não reprovadas, sem direito ao contraditório, por gerações de professores comprometidos mais com o sistema do que qualquer outra coisa. Quem quiser ter uma melhor formação em economia, ou se aventura como autodidata em obras “esquecidas” no Brasil, ou tenta uma jornada em escolas no exterior.

Ao perceber isso, passei a entender porque gente tão inteligente, que atua no mercado financeiro, prefere manter distância de muitas universidades públicas e até privadas. No entanto, o maior estrago dessa “ilusão” se encontra nas bases de ensino, em franca evolução em escolas de ensino infantil, fundamental e médio com professores e materiais didáticos mais úteis para doutrinação, propagando conceitos básicos deturpados para gerações de alunos que se tornarão, muitos, analfabetos funcionais e assim incapazes de emitir juízo crítico livre sobre temas fundamentais da sociedade.

A “ilusão do conhecimento” se faz presente no cotidiano profissional quando se afirma que determinada coisa “é assim e pronto”;  quando não se explicam os porquês dos processos e prevalece o medo de perguntar ou duvidar.

Al ioquin si nudis auctoritatibus magister quaestionem determinet, certificabitur quidem auditor quod ita sit, sed nihil scientiae vel intellectus acquiret , et vacuus abscedet  [3].

Quantas vezes seguimos conceitos sem pensar se estão distorcidos ou inconsistentes?

Quantas teses não devidamente comprovadas são tratadas como convicções ou verdades absolutas?

Quantas certezas sem embasamentos técnicos, com soluções supostamente “práticas” sem experimentação adequada, apenas porque simplesmente acreditamos na personalidade ou na instituição que as promove?

O preço da pureza é uma autêntica, destemida, radical, busca do conhecimento. Então, até que ponto sou capaz de produzir saber com tal destemor? Estaria disposto a colocar em risco meus interesses pessoais em nome de uma verdade que aparentemente desejo saber?

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Notas:
  1. Nature: Stephen Hawking: ‘There are no black holes’
  2. Ver A Minha Visão do Mundo, 1949. Albert Einstein.
  3. “Se o professor resolver a questão somente por meio de argumentos de autoridade, quem o escuta ficará, sem dúvida, convencido de que as coisas são assim, mas não adquirirá nada em ciência e intelecto, e irá embora vazio”. (Tomás de Aquino, Quodl. IV a. 18.)

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