Por Pastor Abdoral di Alighiero

Do alto da montanha, recebi o último texto de meu infante amigo responsável por este blog, tratando sobre o futuro da profissão contábil. Profissionais contadores, fiquem tranquilos, ele surtou [1]; nem tão cedo será extinta a profissão de “contador”. Já me alertava um veterano desde os tempos da mecanografia que “contador é só quem tem CRC”, não é mesmo?

Há geniais contadores sem CRC e “contadores” com CRC; conheço vários casos assim. Entendedores entenderão, da mesma forma que um certo dia meu infante amigo me contou o caso de um “professor” de contabilidade que terceirizava o serviço de escrituração do livro diário, oferecido pela empresa de serviços contábeis onde é proprietário, porque tinha certa dificuldade para definir onde debitar e creditar as operações dos clientes. O tal “professor” dava aulas sobre custos e demonstrações contábeis em uma faculdade no curso de “ciências contábeis” que não tinha contabilidade regular, porque o serviço de contabilidade terceirizado não sabia como elaborá-la. Como se já não bastasse ter uma terceirizada, quando deveria dar o exemplo com uma equipe contábil própria, a faculdade mantinha serviço incapaz de fazer o mínimo que se esperava de um trabalho contábil sério, enquanto “preparava” estudantes na graduação.

Apenas companhias abertas e raríssimas empresas fora da Bolsa, usam contabilidade para valer com a chancela da realidade. Quanto a isso, fora dessas exceções, basta pedir um resumo de faturamento em qualquer empresa de contabilidade que, certamente, será feita a indagação: a contábil, entregue ao fisco, ou a real, para bancos?

A falta de contabilidade enquanto prática na vida profissional de muitos contadores tem causas que se dão, entre diversas, pelos entulhos do estado que encharcam uma  formação há muito tempo voltada para servir, prioritariamente, aos interesses governamentais. O contador é preparado para ser um serviçal do aparato coercitivo do estado.  As disciplinas consideradas mais importantes nas faculdades se concentram em problemas da burocracia fiscal, havendo pouco espaço em termos de formação voltada à gestão, embora o discurso corporativo do CFC tente dizer o contrário. No entanto, é uma servidão que proporciona um certo conforto, pois profissionais de contábeis agem naturalmente aos estímulos das dificuldades criadas pelo estado que ajudam a preservar uma demanda forçada de serviços. Entendo que tais coisas devem ser levadas em consideração no processo de leitura que se fará sobre a robotização entre contadores.

Há também muita deficiência de capital humano em empresas de contabilidade, considerando a dependência com as demandas do estado que exigem um perfil de colaborador fechado em exigências que, aparentemente requerem uma formação razoável, mas que são de baixo nível técnico e pouca relevância quando confrontadas com a realidade de economias mais desenvolvidas, onde o foco se volta à eficiência administrativa. Considere-se também que muitos habilitados ainda são de uma época em que não se fazia “exame de suficiência”, contudo, o exame não garante muita coisa em termos de qualidade. No Brasil, a educação está direcionada não, prioritariamente, para o aprendizado e a excelência e sim para fazer os estudantes passarem nas provas, o que é algo bem distinto. Logo, um sujeito com CRC, mesmo tendo nota em suficiência não significa garantia de capacidade técnica, mas quem disse que isso é importante quando se está em um ambiente legalista, baseado em irracionalidades, com uma cultura de “caixa dois”,  lidando com um empresariado viciado em favores do governo? O mais importante é saber lidar com o manicômio tributário, haja vista que os escritórios mais bem sucedidos são aqueles organizados por exímios despachantes com CRC. Esqueça a contabilidade como ferramenta administrativa ou voltada à serviços consultivos, pois isso, quando não de um segmento elitizado, de uma minoria por demais sofisticada, é apenas uma narrativa de um marketing para vender produtos e “capacitações” de quem faz análises tendenciosas para tentar se favorecer comercialmente. Fato é que muitas empresas têm contratado consultores para fazer um trabalho de contabilidade voltada à gestão, quando tais “consultores”, muitas vezes, são administradores ou economistas, tendo em vista que o comum é encontrar contadores que não são capazes de realizar tais serviços (e que deveriam).

Estaria este velho eremita equivocado? Creio que não, a não ser que seja apenas fruto de nossa imaginação que em nossos dias, contadores assinam por demonstrações feitas por terceiros porque não sabem fazer. Vamos ser simples e diretos? Agem assim porque sendo genuínos analfabetos funcionais em contabilidade, dependem totalmente da reserva de mercado promovida pela estrutura demagógica e parasita do CFC.

Ocorre que esse perfil de profissional será gravemente afetado pelas quedas nos preços de commodities de serviços fiscais em larga escala com a robotização. São os mesmos profissionais de balanços e demais demonstrações que não passam (e não passarão) de obras de ficção. Nesse ambiente de forte competição por preços, muitos não aguentarão a pressão e deixarão o mercado, derrotados pela automação em Inteligência Artificial (IA) enquanto outros tantos se adaptarão na economia de escala com sistemas e estrutura de capital humano compatíveis com a nova realidade. Já o contador que sabe lidar com as duas atividades fundamentais ou seja, elaboração e interpretação contábil, sendo capaz também de prestar consultorias econômicas, não sentirá esse abalo, porque faz parte de uma minoria, é escasso; seu capital humano é concebido como de valor muito superior para quem toma seus préstimos.

Resumindo esta parte da ópera: Ao entrar em um escritório de contabilidade, se vê muita coisa, menos contabilidade, e isso já faz um bom tempo, não é mesmo?  Essa é a tendência para um tempo em que muitos “bacharéis contadores” e “técnicos” já não sabem sequer o que é contabilidade, tampouco sua real importância para a sociedade, porque foram transformados em empresários de commodities da burocracia, enquanto uma minoria se valorizará muito usando ferramentas em IA, porque terá mais tempo para se qualificar e explorar atividades consultivas.

Lembra-se daquele jovem contador, orgulhoso de sua nota alta no exame de suficiência e  que certo dia foi questionado por erros primários encontrados nos cálculos e na contabilização de uma depreciação acelerada? O sujeito aplicou para impressionar um cliente que entrou no lucro real crendo que pagaria menos impostos, no entanto, não só o método era impróprio, como resultou em contas negativas no saldo da conta do ativo, cujo balanço foi fechado sem a mínima perícia. E eis que a justificativa dele foi hilária: primeiro, ligou para o “cara do sistema” para lhe pedir explicações sobre o método em si (curiosamente um programador dando esclarecimentos de contabilidade a um contador, que coisa excitante!), além de não saber dos cálculos, não tinha noção de como se deram as partidas dobradas. Em seguida, como um bom profissional registrado no CRC, tratou de jogar a culpa no software que, segundo ele, deveria impossibilitar fechamento e a emissão de balanço com contas estouradas, e enquanto se preparava para retificar o melindroso Sped Contábil, não sabia o que escrever nas “justificativas” do Termo de Verificação em RTF, o tal J801 e por isso pediu ajuda ao mesmo profissional que lhe estava explicando o que o exame de suficiência indica que ele sabe fazer.

O nosso jovem é o protótipo do típico “adestrado profissional contábil da era digital” guiado pela automação em IA que funcionará para ele como o “contador” de fato, mas isso não quer dizer que o contador de direito deixará de existir nessa relação, imediatamente. Se prestarmos melhor atenção, veremos que isso ocorre com frequência no Sped. Ou atualmente  é costume entre contadores enviar arquivos com convicção do que estão entregando? Uma minoria faz com excelência, enquanto a regra… Muitos não têm a menor noção do que estão declarando em arquivos cujos leiautes foram construídos com uma linguagem de exclusão, para forjar uma geração de perdidos na prevalência da forma sobre o conteúdo. Então, digo “típico” profissional porque, em bots se viverá mais de um legalismo de se ter registro no CRC que qualquer outra coisa. O saber de fato não importa; a maioria dependerá totalmente de programas equipados com recursos de IA para exercer a “profissão”, se é que podemos chamar assim, ou pelo menos fingir que está exercendo um ofício que sirva para alguma coisa.

Mas não se iluda meu jovem infante amigo, modelos de IA são falhos porque aprendem com seres humanos, além de que haverá por longo tempo a manutenção do conceito de CRC como resistência e parte do DNA social intervencionista que temos e mesmo com toda tecnologia tornando contadores inúteis, tal legalismo buscará formas inimagináveis de preservação, embora, repito, por uma questão de tempo (longo, imagino) serão engolidos pela IA.

Então, meu infante amigo, você se equivocou ao sugerir no texto que o CFC entrará em decadência com a robotização, sem mencionar esse processo (moroso) de resistência aos processos robóticos; o que está e estará sempre em franca decadência é a contabilidade como coisa séria. O CFC continuará firme e forte  por um longo tempo, sobretudo como linha auxiliar do aparato estatal, pois seus mandatários são sabedores que dependem do estado intervencionista para existirem. Até quando isso vai durar? Quando a IA vai aposentar de vez a profissão contábil e a sociedade passará a perceber que o CFC não tem mais sentido para existir? Aqui, vale lembrar o Lorde [6] que dizia “a longo prazo estaremos todos mortos”. Se porventura ocorrer perda de volume de profissionais “habilitados” (é razoável estimar isso levando em conta a cataláxia sob IA), haverá encarecimento de anuidades e fortalecimento da indústria de “cursos de pontuação” que servem para arrecadar mais e fortalecer a reserva de mercado, compensando perdas estimadas para garantir regalias de uma gente sempre insaciável pelo dinheiro dos outros, como ocorre nas estruturas degeneradas do estado.

Jamais despreze então a simbiose da regulamentação da profissão de contador, na batuta do CFC,  com o paradigma estatal em qualquer análise de mercado contábil no Brasil, embora este profissional seja imprescindível para uma economia livre em nosso tempo. Você sabe que a lógica do Cisne Negro [2] indica que a melhor coisa a se fazer sobre modelos econométricos e estimativas gaussianas é não fazer especulações apenas com base em tais coisas, sabendo resistir ao velho vício de se criar muitas expectativas para não cair em um determinismo histórico, e além do mais, quem leu o estudo de Oxford, de 2013 [4], precisa avaliar que a realidade brasileira é bem diferente; primeiro, pela mentalidade regulatória-intervencionista que fortalece aberrações como o CFC e ajuda a retardar o processo de substituição de capital humano, por sinal, o estudo menciona algo nesse sentido:

[5]

Em segundo, basta dar uma volta pelo “Brasil real” para se atestar uma mentalidade provinciana, decadente, áulica, cheia de bocós liderados por conselhos e sindicatos de parasitas que reagirão ferozmente à robotização, embora não possam vencer a cataláxia, para ver que a tecnologia que substituirá os contadores ainda é coisa de alienígena. Não foi você que escreveu sobre um caso de um escritório onde colaboradores são suspeitos de terem sabotado um sistema integrado porque perceberam que, estando 100% implantado, perderiam seus empregos? A extinção do contador é mais um achismo que beira o ridículo quando confunde o desemprego de colaboradores nas empresas de contabilidade, com a caducidade de uma profissão regulamentada, o que remete apenas a algo probabilístico que precisa ser visto também mediante o contexto brasileiro, como já mencionei.

Aos contadores preocupados com essa polêmica um tanto infantil e àqueles que pensam em entrar na área, sugiro ler o Antifrágil [3] para, quem sabe, tomar proveito da imprevisibilidade que esse mundo robótico-digital proporciona e agregar valor à profissão contábil que, com certeza, passará por profundas mudanças conceituais, enxugando equipes e, em muitos casos, deixando contadores solitários em seus escritórios apenas com computadores e aplicações em IA.

Resumindo, o mercado, imagino, já tem uma maioria de contadores não sabendo quase nada de contabilidade e/ou não se interessando em exercê-la plenamente, guiada por lideranças oportunistas e tecnologias que facilitam os trabalhos repetitivos convergindo à IA,  acomodados em uma reserva de mercado, enquanto uma minoria cada vez mais será elitizada pelo monopólio regulatório de criar normas, muitas sem pé nem cabeça, como as atuais feitas pelo CPC,  na base do “duplipensamento”, visando também dar assessoria a empresas de TI que oferecerão robôs escriturários cada vez mais precisos, eficientes e seguros, para atender a analfabetos funcionais em contabilidade, devidamente registrados e em dia com o CRC.

Acorde meu jovem amigo infante!  Seja bem vindo à geração de apertadores de botões com CRC, mestrado e doutorado.

Saudações deste velho pastor.

 

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Notas:
  1. Ver Contabilidade Colaborativa;
  2. A aleatoriedade;
  3. Antifrágil. Coisas que se beneficiam com o Caos, de Nassim Nicholas Taleb;
  4. THE FUTURE OF EMPLOYMENT: HOW SUSCEPTIBLE ARE JOBS TO COMPUTERISATION?∗
    Carl Benedikt Frey†and Michael A. Osborne‡ September 17, 2013;
  5. Página 43, do mesmo estudo mencionado na nota 4.
  6. Famosa frase de John M. Keynes.

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