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Resumo do relatório 201804 aos clientes da LLConsulte Investimentos

Márcio Noronha é o expert em análise técnica mais longevo do Brasil, autor de livros cuja leitura é obrigatória para quem opera no mercado. O decano dos trades apresentou um gráfico [1] indicando que a Bolsa está em um ciclo de alta e estimou o topo em torno de 120k. Os conceitos se derivam de probabilidades em torno de padrões de ciclos de crescimento, sendo o último partindo de 2002 se confirmando em 2004.

Nunca é demais mencionar que Bolsa não é um indicador de economia real e sim uma síntese de expectativas entre investidores.

Em 2002, a vitória de Lula era tida como provável, bem diferente do cenário atual, onde as incertezas eleitorais são maiores, considerando  a remota possibilidade de disputa eleitoral do líder petista e a pouca empolgação com demais pré-candidatos. Os indicadores fiscais indicavam em 2002 uma urgente necessidade de forte ajuste fiscal para 2003, suscitando dúvidas se um governo petista seria minimamente capaz de fazê-lo. Lula venceu, o dólar disparou e no primeiro ano do governo do PT, um ajuste fiscal surpreendentemente ocorreu, com Meirelles no Banco Central e Palocci na Fazenda.

Estimar até 120k parte de uma leitura que considero otimista, em relação aos atuais cenário político e o quadro fiscal, ambos capazes de contaminar a economia real com efeitos piores que o da crise 2015-2016. O Lula de 2002 fez uma carta que foi recebida com muita desconfiança pelo mercado, indicando que seguiria a cartilha do tripé desenvolvido na era FHC, ganhando o sugestivo rótulo de “Lulinha paz e amor”. O discurso foi confirmado na prática em 2003. Entretanto, contrariando a (esdrúxula) teoria de que um cenário político conturbado ao extremo e uma economia fragilizada pode sugerir prenúncio de um ciclo de alta, é visível que o Lula de 2018 não quer saber da agenda dita “neoliberal” do Lula de 2002, e é razoável também considerar que, se conseguir reverter a situação no STF [2], se candidatar e confirmar o favoritismo nas urnas, deve implementar uma agenda bem mais populista, tentando fazer um “ajuste fiscal” pela arrecadação, elevando impostos, afugentando investidores e aproximando o país da venezualização. As demais opções para a corrida presidencial indicam que não seria muito diferente em termos do que deveria ser feito com as contas públicas e o que a estrutura política pode fazer. O entrave brasileiro está em um sistema de presidencialismo de coalizão que sucumbiu em 2016, na queda de Dilma, onde o, agora MDB, administra a massa falida sob um custo altíssimo para a sociedade produtiva. É mais provável que o MDB tente prolongar ao máximo esse processo a se esforçar para modifica-lo.

Em 2002 ainda era tensa a relação com o  “câmbio flutuante”, iniciado em 1999 após um estelionato eleitoral, com a situação fiscal conturbada pelos custos das intervenções do BC, sem reservas cambiais, e com o fim do ciclo de privatizações, muitas alavancadas com arranjos no BNDES que fomentaram o que hoje a Lava Jato investiga. Olhando um pouco mais para trás, houve uma minirreforma previdenciária, em 1999, entrando na segunda parte da era FHC, funcionando como mero paliativo, e embora o fim do mandato de FHC em 2002 foi por demais crítico, a herança deixada a Lula não se equivale com o atual quadro fiscal, bem mais melindroso e com uma esquerda mais radical, sem o discurso de “paz e amor”, ancorada na narrativa do “golpe” em torno do impeachment de 2016.

A bomba relógio fiscal segue e o que poderia desarma-la, ou na melhor das hipóteses, retardá-la por alguns anos, que seria uma reforma da Previdência, não saiu do papel. Considerando o que diz a Fazenda, atestando que o déficit previdenciário foi de R$ 182,4 bilhões [3] em 2017, sob narrativas que deixam a contabilidade no rol das coisas políticas, sem a menor credibilidade, para quem afirma que o déficit não existe [4], seguindo as contas públicas “fictícias”, o consumo do conjunto envolvendo servidores da ativos e inativos da União, o regime do setor privado (INSS), o BPC-LOAS,  na receita corrente líquida, foi de 56,8% para 77,5% em 2017, e neste ritmo, em até oito anos, a sociedade teria que destinar toda a capacidade de pagar impostos, exclusivamente para cobrir a Previdência. Como reflexo de ajustes adiados por demandas de poder, desde 2014 que déficit primário no Governo Central virou regra e o resultado de março/18 [5] foi o pior da série histórica. Em suma, o quadro fiscal é alarmante e enseja medidas dramáticas a partir de 2019, o que, a meu ver, não serão tomadas a contento, seja qual for o vencedor das eleições deste ano. Mesmo se houvesse uma “surpresa” com algum candidato progressista adotando medidas de austeridade em 2019 no mesmo nível de Lula 2003, seriam insuficientes dada a gravidade do momento.

Junte-se a tendência do FED em majorar a faixa de juros básicos [6], as excentricidades do presidente americano com o protecionismo que pode afetar as commodities e frear as exportadoras, provocando mais aversão a riscos em mercados altamente especulativos, revertendo a curva da SELIC. O fato de investidores estrangeiros estarem ainda bastante comprados, se mantendo por aqui, não quer dizer que a paciência está garantida por muito tempo, sobretudo no desfecho eleitoral.

Apesar do otimismo que pode ser conferido também no Focus [7], fundamentos devem fazer parte do cardápio de todo investidor, e os atuais sugerem que a economia real pode descambar para um “voo de galinha”, e por isso, a análise técnica sempre deve fazer parte de um conjunto, não tendo prevalência.

Sempre há boas oportunidades na Bolsa, independente de um estimado ciclo de alta. Não há problema em ser otimista, desde que tal sentimento não seja confundido com estratégia.

 

 

 

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Notas:
  1. Márcio Noronha. Evento InfoMoney
  2. Elevou-se a possibilidade de Lula sair da prisão, com brechas para tentar concorrer nas eleições deste ano. Ver Decisão do STF abre “avenida” para Lula, mas quais são as reais chances de condenação ser anulada?
  3. Ver apresentação do Ministério da Fazenda
  4. Ver ANFIP. Eduardo Fabian Canola: Não há déficit na Previdência
  5. Ver Resultado Fiscal do Governo Central até 03/2018
  6. Minutes of the Federal Open Market Committee
  7. Ver Focus 20/04/2018

 

 

 

 

 

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