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Antes de qualquer coisa, o que me menciono aqui como “ambiente acadêmico” se aplica, exclusivamente, ao âmbito do ensino superior nas áreas de economia, reconhecido pelo estado [1],  ao crivo do Ministério da Educação.

Esta reflexão foi provocada por um amigo que, passados três anos, me pediu explicações sobre a minha recusa de um convite para dar aulas em uma faculdade.

Peço escusas por algo de cunho pessoal que possa soar ofensivo, pois entendo que, para muitos, a carreira no “ambiente acadêmico” representa realização profissional e satisfação pessoal que cabe meu respeito. O “ambiente acadêmico” me permitiu conhecer professores extraordinários, mas tudo isso não me impede de tecer as críticas que aqui preciso discorrer.

Sempre que vou à faculdade onde frequentemente deixo minha esposa, discente, o faço com satisfação respeitando o propósito dela em mais uma graduação, enquanto sempre penso que o mesmo ambiente não mais me remete ao que entendo ser uma autêntica academia, o que hoje me faz olhar para o diploma que tenho, em economia, emitido por uma instituição reconhecida pelo Ministério da Educação, como algo sem valor.

Apesar dessa visão restritiva do  “ambiente acadêmico”, aceitei um convite de um amigo que desde 1994 mantenho relacionamento profissional, em novembro do ano passado, para falar sobre a polêmica “reforma trabalhista”, com um enfoque econômico, a uma turma de ciências contábeis, e novamente pude sentir o quanto mudei.  Em nenhum momento parei para pensar onde estava.  Pesavam-me tão-somente o tema, os ouvintes e a responsabilidade de apresentar uma visão diferente do mainstream.

Vida acadêmica só me parece ter algum sentido se estiver amalgamada com a sociedade. E “sociedade” penso no sentido dado por Mises [2] (embora há outros que considero igualmente relevantes), desde microambientes até ao que Hayek definiu como “ordem ampliada”. O problema é que, não raramente, entendo que o “ambiente acadêmico” normalmente está dissociado da realidade, parecendo estar confinado em uma redoma de vidro. Quase não se vive o que se estuda em salas de aula, penso. Ressalvando-se exceções, instituições de ensino superior no Brasil, sejam públicas ou privadas, não conseguem preparar adequadamente alunos para uma visão mais holística da vida produtiva em sociedade, a aqui me concentro em relação às áreas de economia. Há uma certa aversão a tudo que soa como “mercado”, termo anátema à formação socialista oferecida a graduandos sob diretrizes planificadas em grades curriculares voltadas a interesses corporativistas do sistema de ensino e, quase sempre, tais “interesses corporativistas” se chocam com as necessidades que espontaneamente emanam na “sociedade”, dada a natureza do regulador central (Ministério da Educação).

Planejamento central sempre demanda mais planejamento central, o que implica em mais hierarquização, mais verticalização e tudo o que diz respeito a mais políticos e burocratas legislando e definindo mais regras que afetam infinidades de ocorrências que não podem dar conta, pelas imprevisíveis demandas da “sociedade” [3], de forma que postulo aqui o problema que Hayek chama de “dispersão do conhecimento” [4], onde toda proposta de educação precisa ser humilde diante deste fenômeno, no entanto, tal estrutura estatal regulatória o ignora, e por mais bem intencionada que sejam as premissas de seus agentes, não será outra coisa senão um entrave no processo de construção do saber, por ser o planejamento central um elemento “de cima para baixo”, enquanto o saber é um fenômeno que muitas vezes se dá em  imprevisibilidades, pelo caos, pelas incertezas, mediante aleatoriedades, que provocam perturbações, dúvidas, incômodos, soluções empíricas, espontaneidades, particularidades, que são elementos essenciais da “ação humana”, em processos “de baixo para cima”, fora do sentido dado pelo sistema estatal planificado pelo Ministério da Educação.

Muitos acham que o “ambiente acadêmico” – consoante ao que delimito na abertura deste artigo – é uma importante conquista da sociedade mediante o papel  do estado legitimado pela democracia. Porém, democracia não é sinônimo de liberdade, fator que está para a “soberania do indivíduo”, como argumenta a professor Walter Williams [7], enquanto a democracia está para uma “ditadura da maioria”. A liberdade é essencial para educação como fenômeno humano de busca do conhecimento e a democracia pode ser um arranjo político relativamente eficiente em pequenos espaços de poder, quem sabe em “cantões suíços”, em comunidades acadêmicas com relativa autonomia, mas se torna um poderoso elemento de degeneração social na medida em que serve a projetos de poder sempre ancorados em subterfúgios para explorar as “regras da multidão”, canalizadas em corporações que, na medida em que cada vez mais se agigantam, centralizando mais processos decisórios, se tornam hostis a “soberania do indivíduo” e sufocam os processos de inovações, que são fenômenos de ordem espontânea, assim como a liberdade e a educação, “de baixo para cima”. Tirando exceções do meio privado, não me admira então que no “ambiente acadêmico” policiado pelo estado babilônico que temos, voraz planificador, ficam em evidência arranjos ideológicos hostis a movimentos descentralizados, diria, libertários; configurado para anular a tudo que não dependa de intervenções do estado em proposições liberais, localistas, a partir da boa microeconomia, de relações mais próximas entre agentes, temperados com idiossincrasias que  burocratas do Ministério da Educação não podem sequer imaginar. Por isso, o “ambiente acadêmico” não estará livre o bastante para considerar a mais sublime minoria, apontada pela filósofa-romancista Ayn Rand [5]: o individuo, agente fundamental na “cataláxia” [6]. 

Certa vez, conversando com um doutor em ciências políticas, ele me confessou que só veio a conhecer, com profundidade, as “maravilhosas” (assim se referiu) obras de Hayek, por uma indicação de um amigo fora da univeridade. Isso me diz muita coisa sobre a alienação de professores e alunos nas universidades brasileiras. E quem acha que me refiro apenas a algo doméstico, não é bem assim. Não me admira que grandes disruptores catalácticos, como Bill Gates e Steve Jobs, se desenvolveram à margem do formalismo universitário e que grandes homens de negócio se formaram longe do tal “ambiente acadêmico”. Voltando ao Brasil, como a coisa por aqui é muito mais planificada, estatizada, os problemas de distanciamento da sociedade me parecem ser mais graves e se não ocorrer uma mudança profunda nessa condição, passando pela desestatização e extinção do Ministério da Educação, o que se entende por “ambiente acadêmico” correrá sério risco de não ser mais levado a sério.

Fato é que, em meu contexto, o “ambiente acadêmico” há muito tempo deixou de ter maior relevância. Não consigo me imaginar atualmente formalizado em um sistema que produz pensadores e formadores de opinião que não costumam colocar a “pele em risco”, normalmente não sabem o que é empreender, não se submetem a pressão de se expor ao mercado; via de regra, nas vezes em que procurei o “ambiente acadêmico” me deparei com um sistema de catedráticos que não costumam enfrentar dilemas concretos da vida econômica e ficam em uma posição muito confortável para falar de suas teorias e formulações de criticas sociais que não resistem a uma boa volta pela “selva” da cataláxia. Professores universitários de economia, e áreas afins, na maioria, são assim porque espelham a mesma mentalidade de planejamento central do sistema em que foram educados; são competentes para o “sistema” e só para o “sistema”. Atuam como produtos genuínos de um modelo arcaico, falido, obsoleto, rodeado de coisas vencidas, assim como influenciam alunos que são castrados de ir além do que o “sistema” costuma determinar, muitas vezes apenas preocupados em repetir literatura, citar autores famosos de obras descontextualizadas dos objetos de estudo; muitos ficam robotizados em normas da “ABNT” e outras coisas inúteis, não conseguindo se dispor, de fato, para contribuir com a sociedade na luta pela superação de problemas. E eis que a partir do momento em que o tão desejado diploma é obtido e a “vida real” se apresenta além da redoma fantasiosa, muitos saem das faculdades sem o menor preparo para o mercado, ou quando permanecem para a “carreira acadêmica” (sempre bom salientar que me refiro às áreas de economia), entram de vez em um mundo de esquizofrenia, fazendo uso indiscriminado de métodos quantitativos para “traçar o futuro da sociedade”, em um universo paralelo dentro de uma estrutura decadente, doentia, de docência hierarquizada em trocas de favores, politizada partidariamente, boçal, priorizando tão-somente a busca de títulos, honrarias e privilégios em um jogo de invejas e tramoias que supera até o que vejo entre tubarões do mercado financeiro. Então, nada disso me apetece diante de meus interesses em função de ideias que preciso realizar, e que não estão no radar do “sistema”, como, digamos, mudanças perturbadoras.

Não poderia mesmo assumir compromisso dessa natureza, sobretudo enquanto estou me preparando para me dedicar em áreas ligadas a criptomoedas e ao “Blockchain”, temas que têm me ocupado bastante, quando sei que, nesta demanda, o “ambiente acadêmico” no Brasil nada tem a me oferecer que seja compatível com minha agenda profissional, diga-se de passagem, totalmente ditada pela clientela. Pois bem, onde muitos veem sinal de prestígio (ser “professor de faculdade”), vejo um seríssimo problema de “custo de oportunidade” em função de projetos e afazeres profissionais que deveriam estar integrados à vida acadêmica, na visão que tenho sobre educação, mas infelizmente (ainda) não podem estar. Assim, ter aceitado o convite teria sido um equívoco em vários sentidos, além de que dar aulas requer um nível de qualificação e maturidade que não tenho, o que me serve de exemplo sobre o desleixo sistêmico no “ambiente acadêmico”, algo que também não me surpreende, por ser pensado de cima para baixo, possibilitando que as coisas aparentes tenham prevalência sobre o que deveria ser priorizado.

Outro aspecto é que aprender “fora do sistema” me tem sido mais útil para fomentar  “antifragilidade” no sustento material. E se no “ambiente acadêmico” mais vale o diploma do que o “saber de fato”, nas áreas onde atuo, o conhecimento de fato tem significados bem mais pragmáticos; na “hora da verdade”, quando problemas precisam ser resolvidos, a competência se sobrepõe ao diploma.

Em termos ideológicos, convém mencionar que passou o tempo em que tinha a ingênua crença de que o “ambiente acadêmico”, especialmente o estatal, poderia ser um lugar em paz com a diversidade de ideias. Entendo o heroísmo de poucos liberais que atuam em universidades federais e estaduais, mas a estrutura em que estão firmados sempre tenderá para vícios onde serão prioritárias determinadas visões de mundo dentro do escopo favorável à natureza estatal, à cultura de planejamento central gravitando a sociedade. O resultado desse controle pode ser visto em centros de graduação transformados em núcleos de preparação de militantes político-partidários, sob uma ordem que pretende revolucionar a sociedade com base na mesma “redoma de vidro” de seus professores alienados, todos ávidos para implodir instituições que representam o capital humano acumulado por nossos antepassados, fenômeno que proporcionou a civilização. E nessa neura revolucionária, no lugar de um ambiente que deveria zelar pelo livre pensamento, respeito ao valor do ser humano e pela coerência de ideias, como vejo nos utópicos discursos dos que creem nas coisas estatais, se estabelece um clima de “seita religiosa”, cuja “confissão de fé“ está em se manter obediente ao que o comando politizado exige. Não é por acaso que universidades estatais, bancadas com o dinheiro tomado dos “contribuintes”, ficam mais evidentes no sentido de serem os maiores centros de formação de positivistas, intervencionistas, progressistas, marxistas, freyrianos, keynesianos, desenvolvimentistas, quase não produzindo pensadores liberais, enquanto privilegia fidalgos, mauricinhos e patricinhas, que estudam em “centros acadêmicos” bancados tributariamente pelos mais pobres, formando uma elite que se prepara, não por coincidência, para ingressar em outras estruturas parasitas do estado, nos melhores escalões de órgãos públicos e empresas estatais, percebendo salários acima do mercado.

Por fim, aprendi a ter prazer em estudos onde relevo o distanciamento que tomei agindo como um informal empreendedor intelectual, o que também me inspira a crer que um dia posso me vincular a alguma instituição que seja verdadeiramente aberta, apta para abraçar estatistas, socialistas, liberais, comunistas, progressistas, positivistas, ateus, religiosos, anarquistas, conservadores, austro-libertários e tantos outros tipos ideológicos dentro de um mínimo suporte moral que a civilização sempre deve considerar (alguns chamariam isso de “estado”, no entanto, prefiro chamar de “respeito às leis naturais”), livre dos grilhões do nefasto Ministério da Educação, que seja de governo privado, autônoma, humilde diante da liberdade e da educação, e destemida diante de qualquer iniciativa coercitiva e compulsiva de planejamento central.

 

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Notas:
  1. Utilizo a grafia estado começando com e minúsculo e não o E maiúsculo. Concordo com o editor do Instituto Ludwig von Mises Basil (IMB), ao se referir ao argumento da revista Veja em 2007: “se povo, sociedade, indivíduo, pessoa, liberdade, instituições, democracia, justiça, são escritas com minúscula, não há razão para escrever estado com maiúscula”. Também acho coerente o argumento austro-libertário de que estado é uma discreta provocação contra a ideia de uma entidade que está acima dos indivíduos;
  2. Cooperação ou “ação concertada” entre indivíduos que se ajudam mutuamente visando seus próprios interesses. A sociedade é “divisão do trabalho e combinação de esforços”. Ação Humana. Ludwig von Mises, página 183. 3.1a. edição;
  3. Novamente me refiro ao sentido dado por Mises em “Ação Humana”;
  4. Ver “The Use of Knowledge in Society”, de F.A. Hayek. Há uma outra obra recentemente reeditada em português, onde se pode conferir as principais ideias de Hayek: Os erros fatais do socialismo;
  5. Ver a obra “A Nascente”;
  6. Teoria da economia de mercado, acerca das relações de trocas e de processos de formação de preços. Conceito foi amplamente trabalhado por Ludwig von Mises, Friedrich August von Hayek, entre outros pensadores da Escola Austríaca de Economia;
  7. Professor honorário de economia da Geroge Mason University e tem colunas semanais lidas em mais de 140 jornais americanos

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