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O professor Leandro Karnal gosta de “filosofar”, uma empreitada que muito admiro, e sendo assim, o pensador da Unicamp afirmou em uma entrevista para O Globo:

“O empreendedor, o grande líder é louvado porque é alguém que quebra as regras, inclusive as leis, aceitas pelo grupo. Lúcifer é o primeiro empreendedor de todos os tempos porque saiu da caixinha. Lúcifer é o sonho do RH, né? (risos). Sem a infração de Lúcifer, assim como a de Adão e Eva, não haveria História. O mundo seria perfeito, com anjos no paraíso. “ [1]

Diria que faz parte do empreender o quebrar regras, sobretudo as anacrônicas; bem vindo ao “mundo da vida”, caro Karnal. No entanto, o sentido em que vossa senhoria dá é um tanto maldoso; embora os seres humanos sejam moralmente frágeis, gananciosos, astutos, egocêntricos, também por meio da economia de mercado, cada um com seus interesses, se concertam para atender às necessidades dos outros desenvolvendo produtos e serviços. Então, é preciso ter cuidado para não “jogar o bebê com a água do banho”. O espírito humano também é fraterno, virtuoso, honesto, e assim, o que dá vida ao empreendedorismo está longe de ser algo na dimensão do que representa Lúcifer, considerando a literatura bíblica, especialmente na concepção do Novo Testamento.

Tal relação do empreendedorismo com Lúcifer é forçosa, diria, intelectualmente desonesta. Nesse aspecto, o professor demonstra também carecer sobre (ou desprezar) o que o personagem tão polêmico representa além da mera psicologia infantil do “bicho papão” na teologia cristã e o que o capitalismo baseado no livre empreendedorismo implica quando se fala em “inovação” ou foi outra coisa que não consigo imaginar?

Vossa senhoria tem “neura” com o papel do empreendedor e do individuo na economia:

Isso pode soar bem para quem idealiza um mundo talvez controlado por influências de seus colegas acadêmicos bem ao lado, na famosa Faculdade de Economia da mesma universidade onde leciona, donde saiu a maior arma de destruição em massa da história recente, a famigerada Nova Matriz Econômica. Já ouviu falar? No entanto, há na vossa reflexão uma provocação que considero importante; teologizar o empreendedorismo é uma armadilha para quem acha que o sucesso econômico resolve tudo, porém, quem sonha com um mundo certinho demais e tenta se contrapor ao dinamismo capitalista, explorando o folclore em torno de um personagem que foi de acusador, auditor das ações humanas (judaísmo) à personificação do mal (cristianismo), me parece mais artimanha de quem milita no marxismo cultural e quer depreciar o  que faz a roda da vida girar, gerar empregos e oportunidades, e claro, produz fracassos, dores, desilusões, frustrações, depressões, tramoias, agonias…

É a vida; a felicidade não está resumida no fato de ser empreendedor, é evidente, mas a condição humana implica na busca de uma vivência prática na vida econômica, que não está necessariamente separada de valores morais e de fé, ou será que estamos condenados a viver binariamente em algo do tipo, ou somos empreendedores frios e calculistas desprezando os sofrimentos de nossos semelhante ou vivemos como pessoas em elevada espiritualidade, apenas movidas por altruísmo, enquanto alguém ou algo tem que pagar nossas contas? Graças a Deus, o mundo é bem mais rico do que isso.

Associar a paternidade do empreendedorismo com o dito cujo do mal “personificado” na clássica cosmovisão cristã? Ora, o dito “diabo” é definido como o “pai da mentira” [2] e foi precipitado conforme narra o Apocalipse [3]; é uma interpretação por demais suspeita, com apelo a um elemento teológico que está longe de ser unanimidade, inclusive olhando as raízes bíblicas considerando o Tanakh.  Mas, se é para fazer menção à releitura cristã, trata-se de um ser que se julga tão esperto que tentou enganar Jesus  [4] , que no universo cristão é “Deus encarnado”, o que demonstra que tem interesses em coisas onde almeja ser maior do que o próprio Criador [5]; então, esta é a batalha “empreendedora” do tal elemento, meu caro Karnal, e sempre bom frisar, na ótica cristã, e me parece forçoso associar a quem luta na vida efêmera,  cometendo erros e acertos, se rebelando contra ou aprimorando paradigmas, vencendo ou fracassando.

Teria o nobre professor o dom peculiar aos dialéticos da pós-modernidade em misturar  coisas materiais e imateriais da cultura popular para em seguida incitar imensa confusão de conceitos abstratos entre os que  têm, presumidamente, menos bagagem filosófica para discernir certas intenções gramcistas de estilo professoral tão “arrasador”, dizendo coisa nenhuma com nada dentro, como se fosse algo profundo?

Oh grande novidade, o que é entendido como “inovação”, “competição”, envolver quebras para novos padrões de negócios, conduta, conflitos, tudo movido a egoísmo e a ambição? É óbvio imaginar que o espírito desbravador do individualismo é essencial nas ações humanas, e isso envolve o “cuidar de si mesmo”, evidenciando uma prioridade pessoal inerente, útil, fundamental, para quem quer praticar algo além do “vencer” no empreendedorismo, ou seja, para quem se envida no altruísmo, pois, como vou ajudar ao próximo fazendo caridade se não posso me manter?

O conceito de “Lúcifer empreendedor” pode ser útil quando se quer demonizar quem nos incomoda, ofertando coisas melhores do que podemos fazer, e queremos jogar a culpa nos outros, por isso tal articulação teológica não quer dizer nada além de mais uma “verdade de fé” com rótulo de “filosofia de botequim”, entre tantas embasadas por uma moral atraente ao lado acomodado em algum coletivismo, além de que pode fazer algum sentido também a quem vive apenas no discurso acadêmico, professoral, abstrato, em torre de marfim, e dificilmente consegue escapar da ridícula condição de apenas se queixar dos pragmatismos da existência humana.

Por sinal, que ironia  ver quem se incomoda tanto com o empreendedorismo e tem dificuldades para abordar  o sucesso e o fracasso no mundo da vida, sendo convidado para falar em um grande evento para contadores [6], profissionais construtores do… Empreendedorismo! Nada surpreende este velho recalcado que vos escreve, pois o sapo sapeia, a roda gira, o Karnal filosofa e a plateia se encanta.

É preciso reconhecer que o senhor é um mestre sofista, mas voltando ao “empreendedor” cujo apelo faz pela cultura da Bíblia, e mais uma vez menciono, segundo a crença cristã, se olharmos o que ostenta o “bicho papão”; o tal é discorrido como possuidor de reinos, riquezas e multidões, segundo a narrativa da “tentação no deserto” e tem metas super ousadas:

O diabo o levou a um lugar alto e mostrou-lhe num relance todos os reinos do mundo.
E lhe disse: “Eu lhe darei toda a autoridade sobre eles e todo o seu esplendor, porque me foram dados e posso dá-los a quem eu quiser.
Então, se você me adorar, tudo será seu”. [7]

O ilustre professor só parece não dar importância, enquanto denuncia a “teologia” do empreendedorismo, que o dito cujo diabólico atua com maior frequência entre seres humanos também em outro meio, onde a cobiça pelo poder em si mesmo é o “empreendedorismo”. Lúcifer teria algum interesse maior no livre mercado, onde há mínimas relações de livres trocas sempre desreguladas,  e onde encontrará muitos que querem acreditar em si mesmos preocupados mais com o próprio sustento que qualquer outra coisa, sem o lastro do manejo político do estado, ou será que existe outra invenção humana mais apropriada para tamanha intenção que se vê na narrativa da “tentação no deserto”?

O dito tem poder sobre “todos os reinos do mundo”  e trazendo essa narrativa bíblica para o mundo da pós-verdade, onde vossa senhoria sempre demonstra estar bem à vontade, qual o papel do espírito luciférico no mundo político? Daria um bom livro, meu caro Karnal. Ou será uma bobagem aos olhos de quem se preocupa tanto com teologia, os novos e velhos pecados no universo empreendedor? O que dirias sobre o “maior político de odos os tempos”? Ou vossa banda filosofal só pode tocar por um lado?

Estou apenas “teologizando” sobre um personagem deveras folclórico, não é mesmo? Independentemente de ser fictício ou real na concepção das pessoas, aquele que tem “todos os reinos” pela fé tão massificada não estaria inspirando, com suas artimanhas, muitos por uma glória  medonha desde os primeiros facínoras, déspotas, nazistas, fascistas, comunistas e claro, os capitalistas de compadrio, todos encorados na cultura do estado?

Se é mesmo para teologizar, não foi por acaso que na mesma ótica cristã, o Cristo se recusou a ser tratado como “messias político”, segundo a mesma Escritura Sagrada que vossa senhoria certamente estudou e releu, antes de fazer este arranjo e o tal livro (imagino).

E entre a estética do “Lúcifer empreendedor” e o que vejo de relação do mesmo personagem associado a quem batalha todos os dias no mundo dos negócios  com os que militam na política, noto que vossa senhoria levantou mais uma narrativa contra o individualismo, que é o cerne de todo empreendedorismo, mas que poder servir para refletir sobre coisas que talvez não lhe sejam convenientes. Basta o senhor se perguntar de onde vem o dinheiro que banca seus vencimentos lá na Unicamp. Não é preciso fazer muito malabarismo com erudição para descobrir que os proventos de um consumidor de impostos, mais conhecido como “servidor público”, são angariados por meio de uma coisa chamada “empreendedorismo”.

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Notas:
  1. Leandro Karnal: ‘Lúcifer é o primeiro empreendedor de todos os tempos’
  2. João 8.44
  3. Apocalipse 12.9
  4. Lucas 4:1-2
  5. Isaías 14:12-13
  6. Ver publicação do CRC SP
  7. Lucas 4.5-7

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