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Se eu fosse católico, seria devoto dele. Santo Agostinho de Hipona (354-430). Em sua obra mais famosa, Confissões, “Cristo é a verdade que ensina interiormente”, embora o conceito esteja mais explícito em seus diálogos com Adeodato [1] em De Magistro (Do Mestre), essa concepção molda o estilo literário do maior teólogo da Patrística.

A filosofia em Agostinho é uma busca da compreensão das paixões por uma intensa narrativa baseada em suas experiências de intimidade com Deus. Sua auto crítica em Confissões é um mergulho nas dores do passado, e de onde se via alheio à fé, maniqueísta, vaidoso, Agostinho discorre uma caminhada introspectiva; expondo tudo aquilo que o afastava de uma vida espiritual, algo que pode ser confundido com uma espécie de auto flagelo mental quando se abre para desnudar a história de seus pecados confessos.

Agostinho celebra o que entendeu ser o perdão divino e as responsabilidades da fé em um mundo de tentações. Envolto nessa desimpedida jornada interior, conta como lições brotaram e a verdade fluiu em um processo endógeno. “O nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em Deus o descanso” [2], sintetiza. 

Nos textos de Agostinho, não há catequese sem profunda auto crítica; não há descoberta sem interação com o “eu interior”; não há verdade autêntica sem reflexão pessoal, sem um convite a um mergulho sobre o significado de atos; não há robustez na fé sem consciência de carências espirituais. Por isso, percebo traços do que se pode chamar de “proto existencialismo filosófico” com viés cristão, lembrando sutilmente Soren Kierkegaard, que séculos mais tarde viria a ser considerado “pai” do existencialismo, não por acaso formado em uma tradição cristã.

Relendo Agostinho, vou pensando no exercício das palavras; na ética de conceber palavras como formas de “capacitação” para se enxergar verdades interiores em processos que provocam  experiências introspectivas. Ações que instrumentalizam um juízo refinado, guiado pela fé, como elementos para se experimentar a sabedoria. Neste ponto, para Agostinho, a força das palavras não consegue mostrar nem sequer o pensamento de quem fala” [3], porque a palavra tem uma função sintética e não é definitiva em si mesma. A fé tempera uma relação de sinais; é uma redução de teores que viabiliza um caminho para ensinamentos de nosso mundo interior ao encontro com o amor de Deus.

Não é por acaso que Matinho Lutero foi um monge agostiniano e a publicação das famosas 95 teses objetivas e breves, que fomentaram a Reforma Protestante como um convite à reflexão pessoal, a princípio, sem quaisquer interesses separatistas; tão somente, o reformador alemão propôs um mergulho da Igreja em busca da verdade interior. Também não é por acaso que Paul Tillich [4] tenha considerado Lutero um “mestre da redução” [5], pela capacidade de elaborar sínteses. Lutero e Agostinho são íntimos na fé e no estilo literário.

Por fim, a intimidade da teologia agostiniana se torna contagiante quando suas experiências com o perdão divino representam equilíbrio em uma tênue linha entre o exercício intelectual de elaborar juízos e a imutável graciosidade de professar a fé em Cristo, o amor derradeiro de suas confissões, o modelo de santidade a ser imitado, como apregoara o apóstolo São Paulo [6], rumo aos maiores exercícios da fé: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo  [7].

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Notas:
  1. Filho de Agostinho com uma concubina, antes de se tornar padre. Em De Magistro se demonstra o brilhantismo de Adeodato e a empolgação de Agostinho com a inteligência do filho.
  2. Confissões. Capítulo I.
  3. De Magistro. Capítulo XIII.
  4. Um dos mais lidos teólogos protestantes do século XX.
  5. Em História do Pensamento Cristão.
  6. I Coríntios 11.1.
  7. Marcos 12.30-31.

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