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Comecei a usar o termo  “e-Socialite”, em tom de brincadeira, pelas redes sociais, acho que há três anos, mas há um sentido que penso além do que pode parecer uma simples provocação.  Creio que se estivesse entre nós, Gramsci (1891-1937) chamaria as “e-Socialites” de “instrumentos”.  Lenin (1870-1924) as classificaria como “idiotas úteis”, diga-se de passagem, penso que é quase impossível, em um certo sentido, não ser um “instrumento” ou “idiota útil” no Brasil. Então, vamos ao conceito:

“E-Socialite” é todo agente disseminador de práticas, e formador de opinião no meio contábil, a serviço de interesses do fisco e de corporações públicas e privadas que exploram o “Custo Brasil”. Quando uso o termo, refiro-me a palestrantes, professores, desenvolvedores de software, articulistas e demais interessados em explorar o corporativismo burocrático-fiscal em torno do estado, se comportando como defensores dos projetos do fisco, em especial, os do Sped e o eSocial.

“Instrumentos” ou “idiotas úteis” para quê? Para fortalecer as linhas de “marxismo cultural”,  via socialista que se estabeleceu pelo mundo democrático com a derrocada do modelo soviético. Embora tenha sido pensada por Gramsci, a visão da “ofensiva cultura” (outro termo similar) se assemelha a uma visão de implantação do socialismo na linha da Escola de Frankfurt, diferente da corrente leninista, que se baseia na ruptura violenta, revolucionária. No “marxismo cultural”, a ideia seria de infiltrar processos e estabelecer práticas socialistas para implodir instituições do capitalismo, fazendo com que os agentes produtivos, lentamente, sem perceber, se convertam a uma ordem de pleno controle social, criando condições para uma nova configuração econômica-social, não mais centrada na economia de mercado e nas liberdades individuais (redundância para mim) e sim na total centralização dos agentes econômicos, reformando para um “estado”  de posse e controle total de meios produtivos. Há “instrumentos” ou “idiotas úteis” em quase todas as organizações; em igrejas, na imprensa, nas faculdades, em grandes corporações privadas, movimentos de minorias, seminários teológicos e claro, no ambiente contábil que lida com o fisco, onde “e-Socialites” militam em favor de projetos, aparentemente de “compliance” fiscal, mas que funcionam como meios de estruturação da “engenharia social”.

O fisco é estratégico nesse movimento, para operacionalizar o processo de transferência de meios do âmbito privado para o público (coletivo, estatal), não apenas em relação a recursos financeiros (via tributação), mas também em função de informações, envolvendo transações bancárias (e-Financeira), dados analíticos de compras/vendas (NF-e e PVAs do Sped), estoques (Bloco K) e mapeamento de capital humano (eSocial). Um imenso “super-ultra-big-data” está em construção no Brasil, sendo concentrado nas mãos do fisco, inevitavelmente aparelhado pelos interesses políticos e é aí que mora o perigo em relação ao “gramcismo” no estado, que é algo forte entre servidores públicos e políticos.

Sempre considero a narrativa da “mudança cultural”, feita por “e-Socialites”, como uma coisa “gramcista” das mais bem enraizadas na cultura brasileira e creio que eles não fazem a menor ideia disso… Do que se trata? Da crença positivista de mudar o comportamento de agentes econômicos através de legislação. Envolve também a visão nazifascista de impor rigorosa fiscalização e estabelecer delatores legais (contadores), para reforçar o cumprimento de leis, pensadas para tornar a sociedade refém dos governantes, sob a enganosa proposta de que grandes intervenções jurídicas do  estado resultarão em avanços (“progresso”) na sociedade, especialmente nas “garantias de direitos” sociais e na segurança das relações econômicas.

Ocorre que tudo no fisco se baseia em extorsão, ameaça, cultivo do medo de fiscalização derivadas de complexas “obrigações de fazer”, em arranjos vinculados a “legal” violação da propriedade privada mais comum que existe: a que é realizada  por meio do sistema tributário (impostos).

Não é por acaso que “e-Socialites” usam terminologias do fisco para impressionar ou intimidar empresários e contadores em torno de “multas” e “penalidades”. Não raramente deixam a impressão de que, na base do “terrorismo fiscal”, o público que lhes dá crédito terá que cumprir, à risca, determinações do fisco.

Contudo, ser “e-Socialite” não significa agir como “instrumento” ou “idiota útil” qualquer; trata-se de uma atividade com elevado retorno econômico. Toda “e-Socialite” possui razoável nível de instrução sobre o sistema tributário e a maioria se vê na necessidade de continuas “capacitações” para gozar de altos benefícios que a exploração dos modelos coercitivos do estado  proporciona. No entanto, assim como os “idiotas úteis” que militam em partidos políticos, empresas estatais, sindicatos e universidades, defendendo governos invasivos e totalitários, muitas “e-Socialites” são movidas por crenças similares em função das “boas intenções” de políticos e nos controles meticulosos do estado, mas não precisam defender posições políticas notadamente vistas como “socialistas”, como fazem os militantes partidários; muitas “e-Socialites” até se acham “liberais” e embora tenham relativa instrução, como já mencionei, se revelam, com frequência, normalmente  incapazes de perceber como são manipuladas por um aparato de poder, baseado em extorsão e corrupção, dentro de uma estrutura de alienação em massa. Pregam uma ordem legalista porque foram educadas para isso, muitas acreditando que estão fazendo o “bem”, outras cientes de certos problemas, porém presas no comodismo, e assim seguem contribuindo para o empobrecimento da sociedade e o consequente aumento da dependência do sistema produtivo para com o estado, ajudando a preservar uma pirâmide clássica no Brasil, onde empresários “amigos do rei”, castas do funcionalismo público e políticos estão no topo do Leviatã.

“E-Socialites” bastante domesticadas no “gramcismo fiscal” não têm a real dimensão do monstro que estão ajudando a criar com o Sped e o eSocial. Talvez, se despertassem dessa dominação mental, pudessem servir verdadeiramente à sociedade, na desconstrução do Big Brother Fiscal, mesmo sendo profissionais de TI contábil ou contadores, mesmo sendo obrigados a usar o Sped e o eSocial. Poderiam denunciar os abusos para, quem sabe, poupar nossos descendentes de um estado muito pior que o atual.

Fato é que ser “e-Socialite” faz parte das regras no mainstream contábil. Creio que seja um fenômeno inevitável, dada a formação predominantemente áulica, devotada a cumprir legislações feitas para suscitar insegurança jurídica, os “riscos fiscais”, enquanto as vítimas são persuadidas a sofrerem caladas, como um gado manso a caminho do matadouro, enquanto dominadas por entidades que são subservientes ao aparato estatal, em função de suas raízes com o estado. Não é de se admirar então que quem não é “e-Socialite”, e questiona os projetos do fisco, está condenado a ser tratado como marginal ou “irritante periférico”, dentro do sistema de alinhamento de ideias, verticalizado, nas entidades de regulação de profissionais. Em fóruns, congressos e demais eventos do meio contábil convencionado, apoiado pelas mesmas entidades no cabresto do poder estatal, é óbvio que só terão espaço aqueles “pensadores” que estejam alinhados com a dominância do fisco sobre as próprias entidades, que só existem porque foram legitimadas pelo estado que lhes atribui monopólio regulatório para determinar normas e fazer “reserva de mercado”, dentro da estrutura de parasitas que opera pelo poder público.

Sendo assim, é inútil buscar apoio em líderes de entidades contábeis, muito menos entre “e-Socialites”, por posicionamentos contrários a projetos do fisco. Toda resistência contra aberrações do estado, no âmbito da burocracia fiscal, envolvendo coisas como o “eSocial”, “Bloco K”, “e-Financeira”, “Reinf”, entre outras, só pode ter alguma chance de êxito, se vier de bases da sociedade produtiva, livres de amarrações com o estado.

 

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