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Não vou falar de um cinco de maio face aos dos 200 anos daquele “filósofo” [1] que deixou a família na miséria, viveu à custa de um amigo rico e igualmente oportunista. Não vou falar de um sujeito que não cuidou bem dos filhos, mas queria salvar o mundo, cujo aniversário é celebrado por incautos e líderes de regimes totalitários, na China, na Venezuela ou em Cuba. Não quero me concentrar na fraude que influenciou o stalinismo, o nazismo e o fascismo. Não! Não quero repetir a história do engodo cujo livro mais famoso só deu uma contribuição; na formação do então neologismo que viria a ser conhecido como “capitalismo”. Recuso-me a falar do mais conhecido livro [2]  do maior trapaceiro intelectual que tenho notícia, uma obra que li aos 15 anos de primaveras acreditando ter encontrado um outro “evangelho” melhor que o original.

Vou escrever agora porque nasceu no quinto dia do mês de maio do ano da graça de 1813, em Copenhague, Sören Aabye Kierkegaard, o pensador que mais me impactou eticamente nos tempos do seminário teológico (2003-2006), cuja pureza da alma era a sua maior ocupação intelectual.

Tal ocupação o tornou o melhor intérprete da psicologia de Santo Agostinho de Hipona [3]. O pai de Sören, tudo indica, era um típico religioso “santinho do pau oco”; enquanto dava sermões fundamentalistas aos filhos (foram sete, sendo Sören, o último). Transtornado em um ambiente carregado de hipocrisia, olhando para a sociedade como uma extensão do vazio das ideias sistematizadas, Sören se confessava sobre a falta de infância: “fui velho desde o dia que nasci”.

De vida social discreta, impregnado de puritanismo de cunho sexual, desiludido com um relacionamento onde se mostrou incapaz de assumir, viveu em extrema tortura mental, ávido para  compreender a si mesmo muito além dos rótulos que o invólucro cristão lhe dava. E eis que por “Victor Eremita” [4] publicou uma obra volumosa onde dedica uma narrativa inspirada na ópera Don Giovanni, com música de Mozart e libreto de Lorenzo Da Ponte.

Sören Kierkegaard navegou onde pouquíssimos se atrevem; em águas revoltas entre dogmas e subjetividades. Provavelmente meditando sobre a ex-noiva, Regina Olsen que, dispensada por ele, se casou, caiu em profunda tristeza (alguns dizem que foi depressão) para escrever, escrever, escrever até se voltar à Don Giovanni, e no capítulo intitulado “Diário do sedutor”, apresenta uma narrativa que esmiúça o que seria um gozo mental de um de seus personagens, que se esbalda perante uma jovem apaixonada, ciente de que a rejeitaria. Teria o jovem Kierkegaard dedicado o texto para convencer a ex-noiva de que o fim do relacionamento foi um livramento para ela? Teria Kierkegaard se auto depreciado moralmente para aliviar algum suposto sentimento de culpa que pudesse atormentar Regina Olsen?

Entre as alternativas do “bem” e do “mal”, Kierkegaard traça um paralelo entre ética e estética, a partir de reflexões sobre convenções sociais. Acerca do casamento, o classifica como “realização do geral”, uma obrigação social, iniciando uma reflexão que seria a sua principal contribuição, a meu ver, no aprofundamento sobre a subjetividade que viria a inspirar uma filosofia que seria chamada de “existencialismo”.

Usando com sofisticação, ironia, sarcasmo e uma desimpedida ingenuidade, provocou sistemas de pensamento de uma civilização corrompida, cheia de superficialidades, subterfúgios, em meio a  dogmas da fé cristã que mais serviam a exploração do negócio religioso em busca de status social, mecanizando o ser humano, o deixando como parte de um rebanho, totalmente manipulado, o tornando verdadeiramente atônito, deslocado da natureza, beirando o desespero, cuja resposta passaria pela compreensão da própria existência, não pela razão em si, mas pela relação direta com Deus, sem intermediários, o que, ironicamente, serviria ao renascimento do fundamentalismo cristão.

Uma produção literária repleta de pseudônimos, foi a marca pública de Sören Kierkegaard. Conceito de Ironia, Conceito de Angústia, Temor e Tremor, Etapas do Caminho da Vida, entre outras, até chegar no Desespero Humano (Doença até à Morte). Por sinal, o preâmbulo de Desespero Humano é o texto que melhor resume a fé de Kierkegaard, a partir do texto da “morte de Lázaro” (João 11,4), cabendo a quem o associa apenas a ter inspirado Sartre (ateu), talvez na tentativa vã de desvalorizar um pensamento que tentava provocar, com uma piedade agostiniana e uma determinação luterana, a religiosidade para uma profunda reflexão sobre os valores enrijecidos pelos dogmas pregados pela igreja. Em Conceito de Angústia, discorre sobre a antecipação de uma posição futura do espírito, cuja expectativa é uma ruptura da imediação, sem liberdade de ser, o que seria um enigma da angústia como “angustiar-se por nada”.

De alguma forma, o jovem dinamarquês me conecta a Fernando Pessoa, certamente pelos pseudônimos e pela coragem de vivenciar pensamentos como se hospedasse em sua mente pessoas distintas e com visões antagônicas da vida, mergulhando fundo em dilemas onde indivíduos normais evitam enfrentar. Kierkegaard entendeu o ser humano como um “paradoxo eterno”, não podendo escapar da subjetividade, cujo pensamento o chamaria para apreciação de Sartre, que afirmou: “ele permanece secreto na própria revelação”.

Morreu jovem, a 11 dias de novembro de 1855, de um derrame que paralisou metade do corpo. Foi ridicularizado, esquecido por décadas e retomado nos dramáticos anos 1930, em meio aos totalitarismos que perturbavam a humanidade, passou a ser traduzido e mundialmente lido por quem aprecia a coragem dos que suscitam dúvidas acerca da “realidade”.

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Notas:
  1. Karl Marx;
  2. O Capital;
  3. Lembro-me que a primeira vez que tive contato com a filosofia de Kierkegaard foi em uma aula sobre Santo Agostinho.
  4. Pseudônimo que publica Enten-Eller (Ou… Ou…, também traduzido por Ou isto ou Aquilo). “Victor Eremita” começa com a primeira parte da obra, mas a partir da segunda metade, utiliza vários pseudônimos.

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