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Equipe do II ENECC

A segunda edição do Encontro dos Estudantes de Contabilidade (ENECC) foi realizada na Faculdade Osman Lins (Facol) nos últimos dias 9 e 10.

Os temas foram fluxo de caixa, a teoria do “débito” e do “crédito”, estrutura de demonstrações, eSocial, com o encerramento ficando sob  minha responsabilidade  abordando o conceito de “contabilidade colaborativa” (distribuída), que teve como referências a obra Antifrágil, do Nassim Nicholas Taleb, a tecnologia do Blockchain e o que venho acompanhando como soluções em Inteligência Artificial (IA), desenvolvidas pela Exactus Software.

O conteúdo das apresentações pode ser acessado neste blog [1].

Quem sabe as sementes lançadas entre jovens acadêmicos, que planejam atuar brevemente no mercado contábil, possam ajuda-los em uma formação de alto valor. Provocações não faltaram sobre o que é ser contador em um ambiente onde muito se confunde o “fazer contabilidade” com a mera elaboração de declarações ao fisco, serviços que estão cada vez menos onerosos, com a substituição de recursos humanos baseados em trabalhos repetitivos, através do avanço tecnológico que proporciona maior produtividade e redução de custos, afetando os preços das “commodities fiscais”, sujeitas às leis de mercado.

Então, cabe ao profissional de contabilidade usar as tecnologias de automação e IA para tirar o máximo proveito da economia de escala e aproveitar o tempo até então preenchido com retrabalho, para oferecer serviços consultivos aos clientes. Foi a mensagem que deixei após apresentar o conceito de distribuição entre diversas fontes de dados. Falou-se sobre os PVAs do Sped? Pouco. Só por isso, fiquei muito feliz. Não me recordo de ter participado de um evento contábil onde a contabilidade estivesse totalmente no centro das atenções. Coisa rara de se ver no país em que contadores são usados (e abusados) como instrumentais do fisco e escritórios de contabilidade são organizados para servirem ao governo e não aos empresários. Para não dizer que o Sped passou em branco, foi reproduzido um vídeo em que o saudoso Lopes de Sá fala sobre o sigilo que cabe ao exercício da profissão e faz um alerta sobre os perigos da espionagem empresarial através das declarações ao fisco [2].

Contabilidade para mim é o mais importante instrumento de defesa da sociedade. Refiro-me aqui a “sociedade” nos mesmos moldes desenvolvidos por Ludwig von Mises no tratado de economia “Ação Humana”, como cooperação ou “ação concertada” entre indivíduos que se ajudam mutuamente visando seus próprios interesses. A sociedade é “divisão do trabalho e combinação de esforços” [3] entre seres humanos que agem por representações de si mesmos e/ou em combinação com outros, formando entidades.

É pela contabilidade que as entidades podem registrar, auferir e obter interpretações apropriadas sobre as condições de suas operações econômicas, assim como saber o reflexo de tais fatos sobre o patrimônio. Para defender a sociedade, todo contador precisa ter o domínio da teoria e prática, e quando isso não ocorre, perde a credibilidade, como argumentou o professor Dagostim que deixou para todos uma lição de profundo amor pela profissão.

Quando aplicada com tecnicidade e seriedade, a contabilidade é uma poderosa arma de combate a corrupção, um problema da natureza humana e não creio que um dia será erradicado; sempre haverá pessoas no intento de praticar atos delituosos contra o patrimônio alheio, e tal condição no meio privado é tão comum quanto no meio estatal. A diferença é que a corrupção no meio estatal atinge a todos os obrigados a “contribuir” com o estado, e por isso é mais impactante, através dos impostos, enquanto que no meio privado, o prejuízo da corrupção diz respeito aos sócios e demais envolvidos, ficando assim reduzido.

Não me causa surpresa quando implanto sistemas de contabilidade em empresas privadas e, algum tempo depois, se descobre alguma fraude em processos que corriam na ausência do monitoramento feito via registro contábil das origens e aplicação de recursos. Em uma distribuidora, vi sócios descobrirem a misteriosa origem de um volume alto de perdas e tal evidência se deu a partir do momento em que os registros de entrada e saída da fiscal, passaram a ser conciliados analiticamente no controle das partidas dobradas. Por sinal, não poderia deixar de destacar uma citação de um dos mais brilhantes pensadores da Escola Austríaca de Economia, mencionando Goethe (Wilhelm Meister´s Apprenticeship, livro I, cap. X):

[4]

Seja em empresas privadas ou em organizações estatais, a contabilidade é o recurso técnico principal para dificultar ações fraudulentas, embora possa ser usada “criativamente”, não tenho dúvida de que a vocação dos profissionais de contabilidade é proteger a sociedade daqueles que querem viver pela desonestidade. Claro que há ponderações por vivermos em um ambiente de a alta carga tributária e leis do estado que geram insegurança jurídica, muita judicialização e constantes “riscos fiscais”, compondo o famigerado “Custo Brasil”, sendo a contabilidade afetada seriamente, na medida em que se torna “ficção”  em função do medo de empresários em passar dados aos contadores, transformados em delatores a serviço do fisco. Contudo, nada disso tira a importância da contabilidade que deve ser vivenciada não porque há leis do estado que obrigam a manter livros e demonstrações para a fiscalização, e sim porque se tem em mente a busca da excelência na administração, pois, como administrar bem uma empresa sem o conhecimento dos números de suas operações econômicas? Como tomar decisões sobre preços sem contabilidade para dizer o passado recente dos custos e das margens de lucro auferidas? Tentar conduzir um negócio sem contabilidade bem desenvolvida é o mesmo que tentar pilotar uma aeronave sem os instrumentos básicos.

Cresci ouvindo que contador é o “médico do patrimônio”. Mas, quem acompanha meus textos por aqui sabe o que penso sobre o papel que estão impondo aos contadores no Brasil. Nunca esqueço o dia em que escutei um jovem graduado falando com satisfação sobre o “fato” (entendimento equivocado) de que “empresas no Simples não precisam fazer contabilidade”.

Bem, sendo o contador o “médico do patrimônio”, então deixo aqui uma pergunta: Se você está se sentindo mal e se dirige a um hospital, confiaria em um médico que não tem tempo para estudar medicina e se dedica quase que integralmente a saber como preencher formulários da burocracia do hospital com o governo? Pois, muitos que pensam estar exercendo a contabilidade, se comportam como o “médico” que se recusa a praticar a “medicina” da contabilidade, se especializando em preencher declarações ao fisco, que raramente condizem com a realidade, deixando assim de contribuir efetivamente na proteção da sociedade.

 

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Notas:
  1. Material do II ENEC 2018
  2. Ver Uma recomendação de Lopes de Sá sobre o Sped
  3. Ação Humana. Ludwig von Mises, página 183. 3.1a. edição.
  4. Ação Humana. Ludwig von Mises, página 283. 3.1a. edição.

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One thought on “%1$s”

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