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Um tipo epidêmico na decadente pós-modernidade é o “fragilista”, termo trabalhado por Nassim Nicholas Taleb em “Antifrágil”.

“Fragilista” é um sujeito que acredita no poder de intervenção, na própria dominância exercida sobre indivíduos e organizações que o cercam. Os mais extremos caem na compulsão extrema, usando de todo aparato coercitivo que estiver ao seu alcance, cuja estima se mede pela capacidade de se manter no centro das atenções, sobretudo para ser visto como a base de toda solução para qualquer imprevisibilidade.

Por ser centralizador e sempre implacável com quem se contrapõe às suas determinações, alguns, talvez, o associem com uma pessoa “tóxica”, porém, todo “fragilista” precisa ter um certo carisma e parecer competente na medida em que tem que convencer a todos sobre sua capacidade de exercer poder concentrado para analisar situações e decidir sobre demandas complexas, muitas das quais não tem o menor conhecimento para compreender, muito menos assumir um mínimo controle. Quase sempre desbanca para o autoritarismo e quanto mais acumula poder decisório, mais expõe os agentes que gravitam ao seu redor, operando como um “hub central” de uma imensa rede de computadores que, falhando (e inevitavelmente falha), paralisa tudo pela relação de dependência no fluxo de dados, o que denota uma grave exposição a riscos para as unidades conectadas apenas ao centralizador.

A política é o lugar ideal para todo “fragilista”. Não há ambiente mais propício para se bancar loucuras e devaneios tolos com o dinheiro dos outros. Não é espantoso que os maiores estragos de uma mentalidade centralizadora se dão em governos de alto poder intervencionista. O planejamento central está para a política, assim como a dependência de indivíduos está para com o estado. Vejamos o caso do estado brasileiro, onde tudo que é relevante se concentra em Brasília (DF) e políticos regionais peregrinam em troca de favores com deputados, senador e, claro, o poder executivo, com todo o aparato de ministérios amarrados politicamente com o ocupante do Palácio de Planalto. A estrutura foi pensada para fomentar clientelismos em um “hub central”. Então, só me lembro de uma frase do ex-ministro Hélio Beltrão (1916-1997) de que “ninguém mora na União, o cidadão mora no município[1].

No entanto, em qualquer esquina podemos topar com um bom “fragilista”, começando por nós mesmos, entre amigos, colegas de trabalho, irmãos de uma confissão de fé e claro, até mesmo na intimidade do lar. Certa vez vi uma “fragilista” preocupada porque sua filha de 13 anos ainda não consegue atravessar uma rua sozinha e tem enormes dificuldades para se integrar em grupos de colegas na escola quando há algum critério competitivo. Não era nada anormal para quem foi educada no estilo “Rapunzel”, com tudo passando pela mãe-coruja. Provavelmente, a mesma “fragilista” ficaria chocada se um dia descobrisse que alguma amiga “antifragilista” mandou um filho menor para estudar nos EUA, a se hospedar em casa de desconhecidos.

Ando perguntando a mim mesmo: Quantas atitudes “fragilistas” cometi hoje? Quantas posso cometer amanhã? Quantas posso evitar? Longe de ser um conformismo, por mais que nos esforcemos, é impossível escapar dessa condição. Eu seria um tipo “fragilista” ingênuo, cheio de boas intenções e pureza de pensamentos, querendo melhorar o mundo obrigando os outros a seguir minhas ideias, pensando ser capaz de evitar o caos, eliminar qualquer ponto fora da curva, driblar a aleatoriedade, anular a subjetividade, tendo resposta para quase tudo? Noto que há mais empolgação “fragilista” entre os que estão convencidos de que estão em uma missão redentora na terra, digamos, moldada no culto da própria personalidade para salvar os que Santo Agostinho chamava de “simples”, e destarte se portam como se fossem oráculos das antigas mitologias, encarnando profetas de lendas bíblicas, todos imbuídos para preservar o “mundo da vida” do mal sempre à espreita.

Fato é que todo “fragilista” que se preza exala o perfume das boas vontades e sempre está determinado a fazer com que os seus seguidores o avaliem apenas pelas intenções, pela estética de seus discursos, mas não está disposto a ser avaliado pelos resultados obtidos através de suas decisões. E para ser um “fragilista” carimbado, ao  fugir da crítica e da autocrítica, é preciso ter tesão pela própria ignorância, sendo também um caso próximo ao típico de “Dunning-Kruger” [2]. Ora, um bom “fragilista” é competentíssimo para entendimentos sem pé nem cabeça que os inspiram a atos de gestão desastrosos cuja regra, quando a verdade dos fatos vem à tona, ou resulta em uma profunda frustração, seguida de uma crise existencial, isso para os ingênuos, ou, quando se trata do tipo narcisista ou político, se envida na busca por culpados, conspiradores, sabotadores, inculcando sempre ódio aos opositores, algo que se traduz no “medo aos preparados”, lembrando aqui um trecho de Ruy Barbosa em Oração aos Moços [3].

Por ironia, o notável jurista Ruy Barbosa também foi um “fragilista”, o que pode nos trazer algum consolo. Ele foi do tipo ingênuo, de boa índole, todavia, igualmente capaz de promover desastres babilônicos no ambiente mais propício: o político. É o que se pode concluir de sua passagem pelo Ministério da Fazenda. A mentalidade monetária da época era bastante rudimentar e o nobre erudito brasileiro tinha estudado o modelo norte-americano [4] sobre a emissão de títulos públicos; avaliou também o que vinha sendo feito na Europa e adotou uma grotesca expansão monetária que acabou resultando em um desastre inflacionário. Em 1890, Ruy Barbosa implementou uma reforma para impulsionar a indústria e o comércio, envolvendo o sistema financeiro, dando aos bancos a permissão para emissão de papel-moeda, porém sem lastro (outro/prata), o que veio a gerar emissões acima da capacidade de circulação de bens e serviços, o que tecnicamente se chama “inflação”, ocasionando em uma bolha de crédito que provocou a falência de investidores na Bolsa do Rio de Janeiro e uma crise no comércio com a desvalorização da moeda.  Era a “crise do encilhamento”, com empresas de fachada que foram criadas para obter crédito, muito facilitado com a desenfreada emissão de papel moeda por diversos bancos, tudo isso em um período onde os republicanos tentavam se impor frente às resistências monárquicas, que estavam ainda bem vivas em alguns setores da política, que também não via com bons olhos a  implementação de impostos e taxas em meio ao espírito patrimonialista monárquico.

Conversando com um tipo mais próximo de “fragilista”, o “sabe-tudo” centralizador sob elevado efeito “Dunning-Kruger”, sem cerimônia me disse que “essa conversa de investir em capital humano não existe em sua empresa, pois o melhor mesmo é ter empregados burrinhos, capazes de cumprir ordens sem fazer perguntas inconvenientes”. Confesso que, depois da reunião em que ouvi tamanha sabedoria, fiquei mais sensível para meditar nas coisas “antifrágeis”.

Em outro caso, um “fragilista” do mundo dos negócios em TI (é o que mais tem por aí) conseguiu convencer a diretoria de um grande escritório de contabilidade, que estava (e está) mais perdida que cego em tiroteio, a tirar um (bom) sistema para implantar o que estava indicando, usando argumentos dos mais variados, desde as tradicionais meias-verdades usadas por vendedores de software (sempre de quinta categoria), até o uso de compadrio digno da política, alegando que o sistema que estava propondo tinha sido recomendado por uma diretora de um conselho regional em um evento para contadores (como se um conselho de contabilidade existisse para fins publicitários). O que o dono do escritório não sabia era que o sistema que o seu consultor “fragilista” de TI estava recomendando é de uma empresa que coleciona reclamações em um site do tipo “Reclame Aqui”. O dono do escritório também não sabia que o seu “fragilista” estava recebendo comissão por fora para promover o negócio. O tal “fragilista”, após conseguir trocar de sistema, não poupou esforços para demitir empregados que estavam relutantes ás mudanças que estava fazendo, os substituindo por indivíduos de sua confiança, claro, conhecedores do novo software. Meses depois, o dono do escritório descobriu que na verdade trocou um problema por outro maior; o software não era tão bom quanto o seu “consultor” tinha alegado, além de que perdera os melhores empregados, trocados por gente amarrada com o seu “fragilista”, que agora alegava “falta de emprenho” da diretoria para que as mudanças pudessem ser bem concretizadas.

Por fim, o maior drama em torno de um “fragilista” aclamado está na neura de evitar o estresse, as coisas que não pode prever, os problemas novos que demandam rupturas de sistemas consagrados, o que acaba elevando a exposição a extremos riscos pela anulação da possibilidade de aprendizado dele e entre os que são objetos de suas meticulosas intervenções, vivendo uma ilusória ética de que o senso comum de controle central é intocável e sempre compensa, quando na verdade é potencialmente falho diante das coisas descentralizadas que podem tomar proveito do caos.

 

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Notas
  1. Ver Beltrão, um cidadão com ideia fixa.
  2. Problema de indivíduos acometidos de “superioridade ilusória”, quando possuem pouco conhecimento sobre um determinado problema, mas se portam como se fossem os mais bem preparados diante de indivíduos visivelmente mais capacitados.
  3. “… os que se tem por notório e incontestável excederem o nível da instrução ordinária, esses para nada servem. Por que? Porque “sabem demais”, sustenta-se ahi que a competência reside, justamente na incompetência. Vae-se, até, ao incrível de se inculcar o “mêdo aos preparados”, de havel-os como cidadãos perigosos…”. Ruy Barbosa em “Oração aos Moços”. Discurso como paraninfo dos formandos da turma de 1920 da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo.
  4. Ver página 79 do Relatório do Ministro da Fazenda Ruy Barbosa em janeiro de 1891.

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