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A conversa com um analista de negócios de uma grife de TI estava cansativa. Ele acabara de deixar uma concorrente de mesma envergadura, e com ânimo renovado apresentava um produto enquanto eu anotava quantas vezes usou a expressão  “temos a melhor solução do mercado”, como se fosse um mantra. Encerrado o show, fui ao “pé do ouvido” e o lembrei que ele dizia exatamente o mesmo, e na mesma intensidade, quando estava na outra companhia, que agora demonstra desprezo. Também em off, com o senso de humor que lhe é peculiar, ele sussurrou: “o deles (do concorrente) é o melhor, desde que eu esteja lá” (risos).

Procurando uma bomba-hidro em uma loja de materiais de construção, fui atendido por um promotor de vendas que tentava me convencer, com aquela empolgação da primeira venda do dia, que a empresa que representa “oferece a melhor opção do mercado em termos de qualidade e potência”. Questionei o rapaz sobre opiniões contrárias de profissionais especialistas em instalar esse tipo de equipamento, que me apontaram a outro fabricante. Ele então argumentou, falando discretamente, que “a outra é mesmo a melhor, tanto quanto a minha”. Então, soltou um discreto sorriso ao notar o meu sarcástico “compreendo” a tamanha contradição.

Um advogado e professor universitário, conversando sobre a “reforma trabalhista” realizada no ano passado, concordou com as evidências que apresentei e até achou espirituosa a minha afirmação de que a CLT “protege tanto” o trabalhador que o deixa sem emprego. No entanto, contra argumentou que a CLT é “insubstituível”, por ser um “preço a ser pago” pela sociedade em favor do que chamou de “civilização” diante dos “problemas do capitalismo sem freios”. Então, repliquei sobre o que significaria a tal da “civilização” na concepção de um trabalhador com baixo capital humano, produtivamente fraco, alijado do mercado pela incapacidade de atingir uma cota mínima de qualidade face aos custos impostos pela CLT, tendo que sobreviver a custa de programas sociais, obviamente, bancados pelo meio produtivo que acaba ficando encarecido, afetando a mesma sociedade com os custos da ineficiência. Questionei se era mesmo uma coisa civilizatória tentar resolver o problema por legislação, como se tenta há mais de 70 anos no Brasil. Ele rebateu dizendo que a CLT “deve ser preservada, de todo jeito, pois protege o trabalhador, mesmo o prejudicando por conta da economia de mercado”.

Os exemplos acima me remetem um pouco ao conceito de “duplipensamento”, elaborado por Orwell no romance “1984”, que consiste em aceitar duas opiniões que se anulam uma à outra, sabendo que são contraditórias, em um exercício que recorre à lógica para questionar a lógica [1].

Se fossem mais “prendados” na prática do “duplipensamento”, o analista de TI e o promotor de vendas me diriam, cientes do conflito lógico, porém sem demonstrar qualquer hesitação ou ar irônico em favor de uma das “verdades” que lhes seria mais apropriada no sistema de “duplipensar”; falharam apenas na falta de firmeza, (aquela fé inabalável de que “2+2=5”, como se conta na obra), o que não faltou ao advogado professor de faculdade ao elencar termos um tanto conflitantes (proteção e prejuízo), como se tivessem dentro de um mesmo bojo lógico na retórica que fez para defender a CLT.

A aplicação do “duplipensamento” é um instrumental para forjar uma crença inabalável no que é definido por uma ordem superior acerca do que é “verdade” e o que é “mentira”, de acordo com uma determinada ocasião, não importando, de fato, o que seja verdade e o que seja mentira, tampouco se há evidências contraditórias sobre um entendimento definitivo sobre algo. No processo de “duplipensar”, evidências contrárias, por mais óbvias que sejam,  não representam qualquer valor para uma “verdade” pragmática que se quer ensinar, o que requer um rigoroso “programa de treinamentos” para inviabilizar todas as formas de pensamento que não interessam ao poder que se impõe. Na nossa linguagem mais próxima, seria a “doutrinação” feita em escolas e universidades para fazer com que os estudantes parem de pensar livremente, se tornando reprodutores acéfalos de narrativas em favor de um determinado projeto maior de poder. No contexto de “1984”, seria totalmente centrado no que o “Partido” define como “verdadeiro”, sob o invólucro coletivista moldado pela crença na infalibilidade do “Grande Irmão”, líder supremo amado pelos governados através da inculcação do medo que as autoridades do estado exploram em relação a quaisquer tentativas de contraria-lo, o que explica as “teletelas” que fazem a ostensiva vigilância de todos cidadãos que, se flagrados pensando diferente do que o “Grande Irmão” e o “Partido” ensinam, se tornam passivos de condenação por “pensamento-crime”, que se denota como a própria morte do indivíduo perante o sistema.

A obra de Orwell, escrita em 1949, parece ter sido pensada para um tempo em que muitos não conseguem mais pensar com consistência lógica e aceitam posicionamentos ideológicos aparentemente antagônicos, rendidos a algum gueto ideológico que monopoliza opiniões e criminaliza quem tenta construir crítica melhor embasada, sem amarrações instituicionais.  No mais, conciliar duas ideias antagônicas, contrárias, conflitantes ao mesmo tempo, aplicando contextualizações políticas e sociais para ter uma “verdade” que seja conveniente conforme a situação, e ser capaz de demonstrar lealdade absoluta ao que se está argumentando, embora seja algo tão-somente ridículo, não é algo tão distante da realidade quando observo militantes partidários, não importando o lado Quando um representante de um partido de extrema esquerda associa o deputado Jair Bolsonaro ao totalitarismo ou coisa do gênero, consegue conciliar no pensamento tal conceito com o contraditório apoio que dá ao regime desumano imposto pelo socialismo de Maduro, na Venezuela. Quando um  militante de Bolsonaro se torna agressivo contra ideias liberais em economia e defende privilégios no serviço público, formas de protecionismo e intervencionismo extremos, consegue se conciliar com as mesmas ideias que todo partido de esquerda costuma defender, mas se vende como politicamente diverso, antagônico, moralmente superior. De fato, cada lado procura a “verdade” por “dulipensamento” que mais lhe favorece, muitas vezes para parecer diferente e melhor, sendo igual em ideias de “Socing” que convergem a desejos acerca do que o personagem O´Brien define como “poder puro”.

Por fim, a curiosa união na denominação “Socialismo e Liberdade” de um partido politico, a meu ver, é o melhor exemplo de “duplipensamento” que consegui identificar na política brasileira, que em termos de “Novafala, não deixa a desejar. Quem sabe, em outra oportunidade, poderei meditar sobre isso.

 

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Nota:
  1. 1984. George Orwell. Página 48.

 

 

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