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O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br),  referente a março/2018 [1], registrou no primeiro trimestre deste ano, a primeira retração (-0,13%, pelo ajuste) desde o quarto trimestre de 2016 (-0,78%).

Na comparação pelo mesmo trimestre, 2018/2017,  sem ajuste +0,86%, e aplicando os índices (mar17/mar18) ajustados, +0,36%. Foi um resultado abaixo das expectativas no mercado, indicando perda de fôlego, o que reforça mais atenção à tese do “voo de galinha” após o ciclo recessivo 2015-2017, sobretudo em um cenário interno tendente a afetar cada vez mais a via de custos pelo câmbio, com o crescimento de candidatos com linhas mais intervencionistas, protecionistas e populistas, no caso de Ciro Gomes e Marina Silva, considerando que o líder nas pesquisas (sem o Lula), Jair Bolsonaro, também é visto com desconfiança no mercado, e os demais candidatos não indicam mudanças significativas no direcionamento para o grave quadro fiscal, tirando João Amoêdo, visto como opção sem base política para realizar o plano de governo e sem qualquer possibilidade de vitória. Por sinal, qualquer que seja o resultado das eleições, deixará o vencedor de mãos atadas com um sistema político falido, sem forças para tomar medidas mais profundas, dada a estrutura anacrônica de poder em relação às demandas de ajustes nas contas públicas.

Todavia, inevitavelmente, o cenário fiscal exigirá medidas delicadas, impopulares, que o sistema político não conseguiu promover no ano passado, e como estamos em um ano morto, a desconfiança seguirá compondo peso cada vez mais considerável no balanço de risco dos investidores, que neste semestre demonstram olhar mais para o curto prazo, o que deverá mudar bruscamente a partir de agosto.

As reformas (previdenciária e tributária), são avaliadas como vitais para diminuir o peso do custeio da máquina pública na economia e, especificamente, conter o avanço do endividamento que, olhando o bruto consolidado pelo BC, alcançou 75,4% do PIB em março, e no acumulado em 12 meses, também até março, registra déficit primário de R$ 108,5 bilhões [2]. A fragilização fiscal e o decorrente inflacionismo, sem as reformas, inviabilizarão o ajuste fiscal de longo prazo (limites ao crescimento dos gastos), o que poderá desembocar em uma retomada dos índices de inflação combinada com uma recessão pior que a de 2015/2017, dada a forte dependência da economia em relação aos gastos públicos. Uma “desalavancagem” da sociedade face ao estado, será um processo ainda mais traumático, sem os devidos ajustes nas contas públicas.

Já o cenário externo, relacionado ao câmbio, se agravou com os resultados do desemprego nos EUA (baixa, 3,9%) e o crescimento do déficit orçamentário com os Treasuries sob projeção de alta (3,6%), fatores incomuns no histórico dos EUA [3]. Então, as duas bandas que tocam o ritmo do dólar sobre o real, demonstraram uma força que desdenhou das tentativas do BC em conter a desvalorização.

A política fiscal expansionista de Trump deverá ser mais um fator para forçar uma elevação mais rápida da faixa de juros do Fed, contrabalanceando a crescente demanda fiscal pelo lado monetário, atraindo assim mais recursos para financiar a dívida americana e, certamente, diminuindo o interesse por emergentes, intensificando um fenômeno global, reforçando expectativas de uma desvalorização acelerada do real frente ao dólar.

O Copom deixou exposto o que classificou como “frustração” em relação à continuidade das reformas e “ajustes necessários” na economia, além do cenário externo, no comunicado de hoje que manteve a meta da Selic em 6,5% a.a., surpreendendo o mercado:

O Comitê ressalta que, em seu cenário básico para a inflação, permanecem fatores de risco em ambas as direções. Por um lado, a (i) possível propagação, por mecanismos inerciais, do nível baixo de inflação pode produzir trajetória prospectiva abaixo do esperado. Por outro lado, (ii) uma frustração das expectativas sobre a continuidade das reformas e ajustes necessários na economia brasileira pode afetar prêmios de risco e elevar a trajetória da inflação no horizonte relevante para a política monetária.  Esse risco se intensifica no caso de (iii) continuidade da reversão do cenário externo para economias emergentes. Esse último risco se intensificou desde o último Copom”. [4]

A tendência de revisão para o crescimento este ano, já identificada no último Focus [5], deve se confirmar com variações maiores, nos próximos levantamentos.

O resultado do PIB será publicado no próximo dia 30.

 

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Notas:
  1. IBC-Br. BCB. 03/2018
  2. Ver informe fiscal do BCB. 04/2018
  3. Infomoney. Evento que não acontece há 50 anos pode fazer Fed acelerar a alta de juros nos EUA
  4. Comunicado do Copom. 16/05/2018
  5. Focus 11/05/2018

 

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