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Dando sequência às reflexões  sobre a obra “Antifrágil” de Nassim Nicholas Taleb, apreciada por traders, agora vou contextualizá-la para o projeto eSocial que pode ser definido como um impressionante exemplo de sistema “fragilista”.

A primeira e maior fragilidade multiplicada pelo eSocial é de natureza político-ideológica e consiste sobre a própria sociedade, em relação ao propósito do projeto ser uma ferramenta de “controle social” do estado sobre o meio privado, ampliando mecanismos perniciosos do “poder público” para tornar ainda mais reféns, do poder político, os  que se aventuram a empreender no Brasil. Não vou aqui me ater a este ponto. Para quem quiser entender minha posição quanto a isso, por favor, verifique o texto “Por que sou contra o eSocial” [1].

Expurgando minha repugnância ideológica pelo eSocial, quando olho secamente para o modelo imposto pelo governo, percebo um grande “hub” concentrador chamado “ambiente nacional” que opera em dois canais, basicamente: o primeiro, para recepcionar o envio dos eventos em XML, e o segundo para disponibilizar o resultados das consultas do processamento. E se o dito “ambiente nacional” sofrer alguma sobrecarga ou pane? Pelo plano das eSocialites, a chamada “contingência” seria feita pelo “eSocial web”, uma sistema que também opera como um grande “hub” na coleta de informações que seriam digitadas pelos usuários.

Não há contingenciamento que não esteja baseado em retrabalho (digitação), o que é uma fragilidade imensa em se tratando do volume considerável de dados entrelaçados que todo setor pessoal administra.

Neste aspecto, o eSocial, em termos de diagrama, me parece algo próximo disto:

Se o ambiente nacional ficar sobrecarregado – e isso é presumível dada a volumetria – todos os envios correlacionados ficam comprometidos em um modelo concentrador. Exemplo? Se um  sistema que valida e possibilita o acatamento de um cadastro de um trabalhador ou de uma empregador estiver offline, eventos que dependem daquele registro não podem ser acatados, causando congestionamento de XMLs. Isso ocorre por causa do sequenciamento lógico, algo tão elogiado por eSocialites que nunca foi testado amplamente antes do deslumbramento teórico, e que vem apresentando resultados pífios nestes primeiros meses.

Uma forma de amenizar os impactos da centralização, seria distribuir processamentos por  inúmeros canais de recepção de eventos, de acordo com a volumetria apurada por áreas, de maneira que os disparadores de XML pudessem ser redirecionados pelas aplicações. Dá muito trabalho, sem dúvida, mas tornaria o sistema um pouco robusto e andaria na linha do sistema da NF-e correlatos.

As grandes cidades teriam canais de recepção específicos, WS de contingência seriam informados em casos de indisponibilidade dos serviços principais. Cada unidade de recepção seria um reduzido “ambiente nacional”.  Imaginemos uma cidade como São Paulo (SP) com problemas na recepção do servidor de web service. O operador do sistema informaria canais alternativos de WS e assim eliminar maiores  congestionamentos. Seria mais ou menos como ajustar o trânsito de uma grande marginal após um acidente, desviando ao máximo o fluxo de veículos na artéria principal.

Então, o eSocial passaria a ser algo mais próximo disto:

Ainda está distante de ser tecnicamente “antifrágil”. A diferença no que diz o diagrama (longe de ser um detalhe) seria ter o direcionamento do “hub” de recepção para determinadas unidades. Se o WS que atende emitentes de São Paulo (SP) cair, os usuários seriam orientados a usar outros, em modo contingência. Sem dúvida seria uma saída melhor do que a ridícula ideia de direcionar todos os usuários para um único sistema web online para digitarem o que já possuem em seus sistemas internos.

O “fragilismo” do eSocial também pode ser conferido no modelo de estruturação dos eventos. Extremamente pulverizados em tabelas com duas amarrações, sendo a primeira se tratando do ID, único para cada ocorrência, seguindo um critério de numeração que identifica o evento na base de dados do sistema no ambiente nacional. De forma sucinta, diria que se trata de um  “DANFE” da NF-e para cada evento disparado. Outra amarração está na chave do evento, que identifica o registro por um código estabelecido pelo empregador. Ocorre que para retificar tais eventos é preciso ter o controle de tais amarrações em bancos de dados, além dos números dos recibos de cada operação de remessa e acatamento.

Então, vendedores de sistemas de TI, baseados nesta, e em demandas de unificação de bases de cálculos e apurações tributárias ligadas mais à Reinf, à tributação previdenciária e ao IR Fonte dos trabalhadores entre matriz e filiais, (Reinf é o monstro-irmão siamês do eSocial), costumam argumentar que é melhor ter um único sistema operando nas empresas com diversas unidades sob um CNPJ básico. Recentemente pude atestar este “fragilismo” gerado pelo eSocial em uma empresa com matriz e filiais tomando serviços de vários escritórios e sistemas gerando folhas de pagamento e apurações de impostos retidos na fonte. Todos os “especialistas” sugeriram a troca de todos os sistemas por um mega ERP, e todos escutaram um indignado “Não!” da diretoria, que após ouvir as bases nas filiais, chegou a conclusão que muitos sistemas são específicos demais nas unidades e atendem plenamente às  necessidades dos usuários locais, cujo método de consolidação de dados para a contabilidade está estabilizado, embora seja ineficaz para o modelo (pervertido) do eSocial, voltado para centralizar processos também nas empresas, as pressionando por investimentos que não interessam na ótica dos negócios que promovem e sim apenas ao fisco, gerando o que economistas chamam de “alocação indevida de recursos”.

Tal problema “fragilista” não me surpreende quando se trata de um projeto governamental idealizado por um grupo de empresas “piloto”, em mecanismo de compadrio envolvendo corporações de tecnologia que, sem dúvida, se aproveitam da oportunidade de “sugerir” modelos excessivamente complexos para forçar demanda aos próprios interesses comerciais (é a tal história de se criar dificuldades para se vender facilidades), o que me parece ser uma versão do capitalismo de laços em versão fisco-digital.

O eSocial é “fragilista” em alta escala por elevar o grau de dependência de sistemas internos aos sistemas do fisco, mas ainda falta a “cereja do bolo”, e isto me remete à tecnologia do blockchain que, a meu ver, coloca o modelo spediano no rol das coisas obsoletas, para não dizer ridículas. Se no eSocial tudo passa por um “ambiente nacional” concentrando recepções e consultas em XML, com sistemas pesados consolidando dados para o fisco, a ideia do blockchain é radicalmente contrária à centralização, e consiste em um banco de dados de código aberto, operante em modo distribuído. Seria algo próximo disto:

 

Não há um único blockchain e sim vários. O mais famoso é o do bitcoin. Com amarrações em chaves privadas criptografadas que garantem a segurança e a privacidade dos operadores, o blockchain pode servir de referência para empresas de TI contábil em um futuro próximo, no sentido de operar como um imenso banco de dados sob níveis de acesso a informações, que podem ser compartilhadas, consolidadas por ajustes dentro dos nós de segurança da rede.

Quem trabalha com arquivos do Sped e do eSocial vai entender o que estou falando sobre o que significa a perigosa exposição de dados pessoais e transações comerciais de empresas nos arquivos do fisco; está tudo escancarado, seja em TXT ou XML, quando em um “blockchain” customizado de escrituração pública digital para TI contábil, tudo estaria sigilosamente armazenado, distribuído e controlado de acordo com os interesses de exposição das partes envolvidas.

Isso chamo de “contabilidade colaborativa”, onde inúmeros sistemas contábeis, de diversas fontes e plataformas, com seus agentes colaborando, enviando dados para um “blockchain” construído pelo mercado e não por burocratas do fisco com seus “amigos do rei”, quebrando o paradigma da padronização de sistemas que muitas eSocialites repetem, como “papagaios de pirata”, dando a entender que se trata de um avanço, quando na verdade é um completo retrocesso social, moral e tecnológico.

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Nota:
  1. Ver artigo em http://llconsulte.net/2018/04/20/esocial-2/

 

 

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