Compartilhar

A Petrobras anunciou uma medida emergencial de redução em 10% do preço médio do diesel nas refinarias, durante 15 dias para que governo e representantes dos caminhoneiros “tenham tempo para negociar um acordo definitivo para o contexto atual de greve e, ao mesmo tempo, evitar impactos negativos para a população e para as operações da empresa” [1].

O que a crise dos preços significa? A Petro está pagando caro pelo endividamento herdade da gestão petista, levando em conta o peso que tem na concentração de refino (95%) e a pressão política do seu maior acionista (o governo federal), enquanto tem que se pautar como companhia de capital aberto.

Vi uma experiente jornalista perguntando  se não seria o momento de repensar a política de preços da Petro, pois uma empresa do estado deveria prioritariamente pensar mais na população e não no lucro. Resta combinar isso com os “russos”, ou seja, os acionistas.

Estar sob a constante ameaça de um viés populista ou adotar uma gestão voltada ao mercado será sempre a sina da Petro? A história recente diz que foi negligenciando tal questão que a companhia chegou ao fundo do poço nos 13 anos de petismo, com políticas de contenção de preços para mascarar índices de inflação e muita corrupção no aparelhamento político-partidário que refletiram drasticamente nos resultados de fluxo de caixa da companhia. Com a chegada de Pedro Parente, a empresa passou por profundas mudanças de gestão, enfrentou a necessidade de promover desinvestimentos e enxugamentos operacionais, adotou uma política de preços revisada diariamente e voltada ao mercado internacional para reduzir a dívida que chegou a bater R$ 513 bilhões, após acumular prejuízos com as retenções de reajuste por influências políticas (até 2015). Os reajustes ocorrem em função dos prejuízos sofridos pela companhia. Dado o “tratamento de choque” na gestão Parente, a Petro iniciou uma reversão no valor de mercado, voltando a se valorizar. Se há algo proveitoso no governo Temer, sem dúvida, envolve o que ocorreu na companhia logo após a saída de Dilma Rousseff.

Preços, quando resultantes de relações de mercado, são efeitos da economia; dizem aos agentes econômicos o que está acontecendo, explicam muito mais que o tão amaldiçoado lucro. O caso da Petro é diferente do que se pode definir como “”preços de mercado”, primeiro em relação aos custos forçados pelo estado, via carga tributária repassada ao consumidor. Segundo, quando se olha a concentração que a companhia tem no mercado doméstico de derivados (95%) porque se tivesse maior concorrência, não teria como majorar os preços no nível que vem praticando. No entanto, “marretar preços” sempre promove confusão de sintomas com causas, escondendo “causas causantes”. Em um mercado menos obstruído, com várias concorrentes livres para precificar, tira o norte de quem compra, vende e investe, provocando consequências danosas no entendimento sobre a escassez, e em um mercado viciado, como o brasileiro, muito concentrado na Petro, vira pretexto para mais intervenções e entendimentos equivocados sobre o que é uma economia de mercado.

Quando um turbilhão de indivíduos clamam para o governo intervir diretamente nos preços e punir o sistema de precificação na ponta de consumo (postos), que servem para sinalizar os limites de consumo mediante a escassez, parece-me que os problemas provocados pela mentalidade socialista, que alimenta o populismo e a corrupção sistêmica no estado, não foram ainda suficientes para um amadurecimento da sociedade sobre conceitos básicos de economia, além do que cabe a uma companhia que tem papeis negociados em bolsas pelo mundo e não pode ficar vulnerável ao cunho político. Ninguém em sã consciência (salvo quando participa de alguma quadrilha com o governo) vai querer investir em uma empresa sem viés de mercado, que não visa resultados e dividendos, não tem  transparência na gestão e na política de preços.

A atual crise dos preços dos derivados é o resultado da necessidade da Petro fazer caixa para reduzir a dívida provocada pela gestão petista. O que agrava bastante é a carga tributária; estas são as principais causas. O resto é acessório, como um câmbio com forte perda do real frente ao dólar por fatores internos (eleições) e externos (efeitos do Fed [2] e o aumento do protecionismo que prejudica emergentes), com uma recuperação da commodity no mercado internacional que serve de pretexto. O problema é que a política agressiva de preços esbarra no adiamento de reformas que poderiam desonerar o consumidor na bomba, pela via tributária [3], abrindo mais espaço para a companhia sem pressionar tanto o consumidor. Então, o que deveria ter sido a prioridade do meio político (reformas tributaria e da Previdência), foi jogado ao léu, sobrando apenas a velha demagogia de fazer pressão para intervenção nos  preços, além de exigir a demissão de quem entrou para recuperar a companhia, Pedro Parente [4], tudo para dar aquele senso alienante de que o meio político serve para alguma coisa diante de uma arquibancada bestializada com a greve dos caminhoneiros que pedem mais tabelamento de preços ou seja, mais da mesma receita que levou a Petro ao fundo do poço..

O plano de recuperação vem caminhando bem, mas o preço de se ter um monopólio acaba sendo salgado para uma sociedade tão apegada ao estado interventor. Quem viu papéis da Petro rondando os R$ 4, como o PETR4 no fatídico janeiro de 2016 na Bovespa, e teve estômago para permanecer comprado ou quem entrou no que parecia ser um Titanic, todos especulando uma reação extraordinária com um possível impeachment, hoje tem motivos de sobra para celebrar, quando olha para esta imagem e vê o PETR4 em R$ 23,27 com +434%:

Juntando as peças, vejo como razoável o entendimento de que, na medida em que se aproxima o pleito eleitoral com uma tendência de candidatos com mentalidade mais intervencionista – o que traria a Petro de volta a uma era de populismo – considerando as lições de quem vem da recuperação de 2016 e pensa em desinvestir o que ainda não realizou de lucros; este seria um caminho natural antes de “entornar o caldo”.

Contudo, fica a discussão sobre as expectativas para 2019, algo que, a priori, me parece ser mais adequado no interregno eleitoral (outubro-dezembro), pois, quanto ao derretimento de hoje, vejo mais como uma oportunidade para observar o ponto de entrada na medida em que a crise  com os caminhoneiros se aprofunde, para aproveitar uma correção após a turbulência. Para quem está comprado recentemente e longe da meta, nada como um bom stop.

_______________

Notas:
  1. Preço do diesel tem redução de 10% em nossas refinarias
  2. Ata do Fomc. Maio 1-2 2018
  3. Ver Gasolina: Que preço é esse?
  4. “Tem que demitir o Pedro Parente”, diz vice-presidente do Senado

 

Comentar pelo Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *