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Em 1989, um menino com 14 primaveras costumava ficar vidrado nos noticiários econômicos tentando entender a tal da “hiperinflação”. Mais adiante, tamanha curiosidade provocou a ida a uma graduação em economia, quando o caminho mais provável era o de ciências contábeis.

Aquele menino estava convicto de que teria que estudar economia quando viu a então ministra Zélia Cardoso, derrotada pelo dragão, estampando uma capa da Veja; era o governo Colllor que desabaria no impeachment. Passou anos na faculdade aprendendo que inflação é aumento de preços, conceito que só seria revelado como equivocado em um certo dia em que, conversando com um gerente de um banco, colega de final de curso, tomou conhecimento de uma matéria onde Roberto Campos dizia que inflação é “expansão monetária”.

O rapazinho levou o assunto a professores que não foram simpáticos com o conceito; teve um que rispidamente lhe recomendou ler de novo o Livro V da famosa escritura sagrada “A Teoria Geral do Emprego do Juro e da Moeda”, do lorde Keynes, entre outras recomendações com Paul Singer e Bresser Pereira, pois, segundo o doutor, aquele desprezível graduando estava tratando uma questão por demais complexa com um “reducionismo infantil”. A insistência na polêmica lhe custou o que hoje se define como “assédio moral” – para a turma do “mi mi mi” – com piadinhas em sala de aula sobre sua incapacidade de entender “o básico em economia”, sendo debochado pelos próprios docentes, adquiriu alguns exemplares politicamente corretos, entre os quais constava a intocável “Teoria Geral”, todos na Praça do Sebo, no Recife. Estava mais feliz do que pinto na merda…

A arrogância dos professores lhe serviu de estímulo e passou mais tempo em bibliotecas para descobrir que em boa parte da graduação olhou para os efeitos da inflação no sistema de preços, os confundindo com o que de fato é inflação; todo aquele arranjo do lorde assim como chamar o então IPC (e depois o IPCA) de inflação, não faziam mais sentido. Descobriu que Roberto Campos estava fazendo referência ao mesmo conceito de uma edição antiga do American College Dictionary onde inflação se define como “expansão indevida ou aumento da moeda de um país, principalmente através da emissão de papel-moeda não redimível em moeda sonante”.  Bem, foi apenas o começo de uma longa jornada…

Fato é que o conceito de inflação como aumento de preços ficou entranhado no imaginário popular brasileiro. Lembro-me que achava divertido ir ao ao Bompreço defronte ao “Mundão do Arruda”, na segunda metade dos anos 1980, só para ver se o “Danone” estava dentro dos limites da SUNAB. Creio que até merecesse um broche como “fiscal (mirim) do Sarney”.

E eis que esta herança tão celebrada nos anos 1980, típica da mentalidade socialista na forma de planejamento central, se apresentou com toda força nesta última semana de greve dos caminhoneiros, com a massa de jornalistas e demais “especialistas em economia” na mesma linha dos milhões de técnicos de futebol espalhados pelo país, amaldiçoando os fenômenos de precificação, louvando o “poder público” que lacrou estabelecimentos que majoraram bruscamente a gasolina.

Preço, na visão de mercado, é um sinal que serve para nos alertar sobre o nível de escassez de um determinado bem de consumo. Quando se eleva bruscamente, nos passa uma importante informação sobre um fenômeno econômico maior que o próprio indicador que é o preço. Se a gasolina saltou de R$ 4 para R$ 10, o que isso me diz?

“Leonardo, houve um problema sério na oferta. A gasolina ficou escassa demais. Se você quiser consumir, pense se realmente é inadiável esta decisão”.

Dado o sinal de alerta pelo rápido encarecimento do produto, o que me cabe é repensar a intenção de consumo naquele momento, como algo discricionário. Sei que a gasolina é um produto de primeira necessidade em muitos casos, no entanto, o problema maior é a escassez, sendo o que deve ser tratado com urgência. O consumidor busca o menor preço e o fornecedor, opera em busca do maior, e nesse encontro sempre tenso (é o normal de economias de mercado), dada a concorrência livre, acontece a “síntese” que é o preço praticado.

Em suma, preços de mercado são sinalizadores da escassez que, se ignorados, quando estabelecidos por coerção, impossibilitam o entendimento sobre a finitude dos recursos, se convertendo em uma receita fatal para destruir uma economia, como aconteceu na (extinta) URSS e está acontecendo na Venezuela. É pelo mercado que se faz possível o “cálculo econômico” mediante os preços, onde se viabiliza o melhor tratamento para os problemas de escassez. Sem os preços livres entre os agentes, a economia será operada às cegas, pois um comitê de gestores públicos não tem como fazer o cálculo econômico considerando as infinitas combinações e os igualmente infinitos interesses entre ofertantes e demandantes [1].

No caso dos derivados de petróleo, embora não posso tratar como “livre mercado” o ambiente dominado pela Petro, extremamente intoxicado por intervenções do estado, nos postos, a teoria dos preços em função da disponibilidade pôde ser observada relativamente nesta greve que causou desabastecimento. No entanto, cabem algumas considerações elementares:

1. Tenha o refino concentrado na Petro (86%, e aumentando) que tenta reduzir o endividamento através de um mercado doméstico que lhe permite majorar preços sem sofrer incômodo com concorrentes [2]. A monstruosa dívida da Petro veio da manipulação de preços contidos para mascarar índices oficiais de “inflação” e de um tal de “Petrolão”, gerando enormes prejuízos à companhia, alguém ouviu falar?;

2. Tenha a gasolina com 45% de carga média bruta (CIDE, PIS/Cofins, ICMS);

3. Acrescente aos custos de distribuidoras e postos no lucro real: IRPJ, CSLL, além de licenciamentos periódicos (alvarás) federais, estaduais e municipais, e não esqueça da elevada tributação sobre a folha de pagamento (20%, mais 3% de RAT e mais 5,8% terceiros) e dos encargos trabalhistas que dobram o custo dos empregados. Então, logo verá que a carga de obrigações com o estado atinge facilmente 60% das receitas operacionais.

E para ter o certificado de doutor economista do Facebook, coloque a culpa no livre mercado e exija que o preço seja reduzido na marra, que donos de postos sejam multados (ou até presos). Bem vindo aos (desabastecidos) anos 1980 ou vale o refrão do Cazuza “eu vejo um museu de grandes novidades”.

Por fim, quando alguém se queixa dos preços, precisa entende-los em função da escassez. Neste ponto, costumo pensar na analogia do termômetro. Imagine-se com uma febre alta que volta persistentemente, onde o uso de antitérmico provoca breves alívios. O que fará? Vai procurar um diagnóstico e um tratamento com um serviço médico competente ou vai insistir no antitérmico pensando poder manipular o termômetro? Na mentalidade socialista, por mais absurdo que seja, sempre se adota a segunda opção.

Reagir com indignação aos preços é algo natural quando sou um consumidor e quero o menor preço possível, tanto quanto é natural a mentalidade socialista de se clamar por intervenções do poder do estado, quando há falta de conhecimento básico em economia.

 

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Notas:
  1. Sugestões de leitura: O cálculo econômico em uma sociedade socialista e Ação Humana, ambas de Ludwig von Mises;
  2. Petro não vem praticando preços acima do mercado internacional. Pelo contrário, opera abaixo, mas vem ajustando suas métricas. Ver Victor Gomes.

 

 

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