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Chama a atenção que caminhoneiros, aparentemente, não querem a presença de partidos políticos e demais movimentos de esquerda no movimento. A estratégia me parece ser inteligente para conquistar o apoio de parte da população, que sofre com o desabastecimento e está mais reticente com os apelos políticos. Não significa que não exista manobra partidária.

As queixas dos caminhoneiros se relacionam com um ciclo de preços em baixa no mercado de transporte de carga. A questão envolve políticas expansionistas de crédito adotadas nos governos petistas a partir de 2008, através de subsídios via BNDES, que facilitaram a aquisição de caminhões e provocaram um boom na oferta de serviços de transporte de carga, enquanto a produção, o lado da demanda, não acompanhou o crescimento da oferta. Resultado? Com muitos caminhoneiros dispostos no mercado para uma procura que não cresceu no mesmo ritmo, os preços dos fretes desabaram.  Mais um exemplo de como uma intervenção governamental no mercado sempre termina em desastre.

Trata-se de um efeito manada, com muitos novatos entrando no mercado com caminhões novos, atraídos pelas facilidades de crédito, e dado o endividamento,  ficaram mais fragilizados com preços concorrenciais em queda devido à grande oferta de serviços. Há uma matéria no Instituto Mises, em relação ao movimento grevista de 2015, que explica bem esse fenômeno no mercado e consta o gráfico acima que reproduzi [1].

Então, com preços de fretes afetados pela abundância de oferta, com parcelas de financiamento todo mês, não havendo expectativa de melhora pelo lado das receitas, caminhoneiros se voltaram, mais uma vez, para o lado das despesas e reclamam dos preços dos combustíveis e dos pedágios.  Os pedágios são importantes e nos remetem a problemas estruturais que também se relacionam com o estado. O lado maior da conta de custos, o diesel, passa por um ciclo de preços em alta que se originam de uma Petrobras que quebrou no final do governo Dilma, e considerando o ambiente doméstico com forte concentração, se encontra favorável para majorar o diesel [2], acompanhando as flutuações do petróleo no mercado internacional, para fazer caixa e assim reduzir o endividamento, enquanto a carga tributária permaneceu elevada (35%).

O lado bom da paralisação é que os caminhoneiros estão dando ênfase aos impostos que encarecem o principal componente de custos de seus serviços (o diesel). Apesar de ser um corporativismo com quebra de contratos, o que na visão austro-libertária é algo abominável, nessa pauta tributária um tanto libertária, pode se ter um alcance enorme do tema (impostos) abrindo possíveis questionamentos mais efetivos sobre o enxugamento do estado. No entanto, a discussão sobre as raízes do problema na Constituição de 1988, ainda está distante.

Não dá para ignorar a imensa e complexa agenda social prevista na CF/88, ocasionando assim na forte demanda por arrecadação. Acreditar na tese da melhoria da qualidade dos gastos e do corte de privilégios é algo bastante limitado para fazer cair a Carga Tributária Bruta (CTB) em um nível de dois dígitos, sem rever a CF/88.

O apoio da população aos caminhoneiros se traduzirá em uma conta socializada, havendo apenas remanejamento de tributos de um setor para outros (o que provavelmente deve ocorrer) ou alguma medida de contingenciamento via Tesouro Nacional. Uma redução forçada da CTB sem contrapartida, teria como consequência mais inflação e/ou aumento de impostos distribuídos em outros setores e todo contingenciamento elevaria a necessidade de futuro aumento de impostos.

Talvez estejamos testemunhando o princípio de profundas mudanças no Brasil, seja para se discutir mais seriamente os tributos, seja para nos aproximar da Venezuela, com mais intervenções do estado e com alguma via populista tomando proveito do caos para impetrar mais ideologias de controles sociais, ou seja para uma intervenção militar que pouco resultará em mudanças, dada a mentalidade socialista das forças armadas.

Ou talvez seja apenas mais uma crise com suas lições perdidas, nos direcionando para outras piores.

 

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Notas:

  1. Ver … E os caminhoneiros pensaram que aquilo seria bom para eles 
  2. Ver Victor Gomes. Sobre os preços praticados pela Petro em comparação com os preços no mercado internacional.

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One thought on “%1$s”

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