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Antes de fazer um importante exame para admissão em um trabalho no exterior, um professor me contou, nos anos 1990, que seu pai escondeu o resultado de um exame médico às vésperas da prova. O resultado indicava estar acometido de uma neoplasia maligna. O professor passou na seleção da multinacional e viajou confortado com o que hoje chamamos de “fake news” dita pelo próprio pai, por telefone: “deu tudo certo com os meus exames”, e assim fora poupado de um estresse em um momento tão decisivo. Meses depois, o pai faleceu.

Há mentiras e “fake news” extremamente necessárias, como recurso para evitar um potencial mal súbito a quem queremos poupar de algo que julgamos insuportável em determinadas ocasiões. Alguns mentem ou manipulam até como arte sobre a concepção do que se apresenta diante de olhos ainda ingênuos. Há situações da existência onde o entendimento objetivo da verdade nua e crua não se aplica, não por maldade, covardia, e sim por sabedoria diante dos não podem suportar certos significados. Isso pode ser visto na obra La vita è bella, de Roberto Benigni, onde uma criança é preservada dos horrores de um campo de concentração nazista, por conta de fantasias inventadas pelo pai.

A verdade de que a mentira é uma ferramenta poderosa para nos enganar, roubar, matar, manipular, confundir, destruir, é magistral e ironicamente trabalhada por quem sabe contar mentiras para nos agraciar com verdades que falam profundamente à nossa alma. Em “V de Vingança” há uma extraordinária síntese a respeito dessa intrigante questão:

“Os artistas usam a mentira para revelar a verdade, enquanto os políticos usam a mentira para escondê-la”.

A literatura misturando fatos com contos e fantasias, se torna assim intrigante quando munida da capacidade artística e filosófica para nos provocar a pensamentos e verdades que muitas vezes evitamos na maturidade. Muitas vezes é apenas a fantasia, voltada a um mundo imaterial, como se vê na obra A “Divina Comédia” de Dante Alighieri. Já em “1984”, de George Orwell, a ficção futurista está no plano terreno mesmo; digamos, são maravilhosas obras de “fake news”, a primeira do período medieval, a segunda de meados do século passado, ambas carregadas de provocações que nos remetem a pensar sobre a sociedade e os valores que cultivamos.

Na abertura do Livro II de “O Desespero Humano”, de Soren Kierkegaard, se lê que “da mesma forma como provavelmente, não haja, segundo os médicos, ninguém completamente são, também se poderia dizer, conhecendo bem o homem, que não um só que esteja isento de desespero, que não tenha lá no fundo uma inquietação, uma perturbação, uma desarmonia, um receio de não se sabe o quê de desconhecido ou que ele nem ousa conhecer, receio de uma eventualidade exterior ou receio de si mesmo”. Como musicou Renato Russo na Legião Urbana, “mentir para si mesmo é sempre a pior mentira”. Muitas vezes, criamos “fake news” sobre nós mesmos, mediante fraquezas das mais medonhas; preferimos certas “mentiras sinceras”, como diria o poeta Cazuza, que nos servem para o entusiasmo, ou como ansiolíticos, antidepressivos, alucinógenos, enfim, para tudo aquilo cuja realidade se apresenta como a última coisa que nos interessa.

Mas há quem faça da mentira um negócio de mercado em larga escala.   Mas antes é preciso separar determinadas “fake news”  desenvolvidas na mesma linha dos que fazem uso da mentira para fazer humor em modo jornalístico, até suscitando verdades inconvenientes que dependem da inteligência e sagacidade dos leitores; são os casos do personagem Joselito Müller, do portal Sensacionalista, entre outros portais de notícias falsas [1].

E sobre as “fake news” puramente manipulativas, usadas por militantes partidários, quando vejo a preocupação de meios de imprensa e políticos, sempre me vem à mente interesses muito além da importante questão de se ter uma imprensa comprometida com a “verdade dos fatos”, algo que considero mais um ideal romântico de quem crê em um mundo sob controles sociais. O que quero suscitar aqui é que o problema das “fake news” pode ser usado como justificativa para impor à sociedade um controle da imprensa e das redes sociais para fins espúrios.

No ano passado, tentando se passar como vítima da imprensa diante da cobertura da Operação Lava Jato, confiante na vitória das eleições deste ano, o ex-presidente Lula afirmou sua intenção de “fazer a regulação da imprensa” [2].

Nada é mais fascista. Hitler, Mussolini, Stalin, Fidel Castro, Hugo Chávez, Nicolás Maduro e tantos outros facínoras, fazem parte do mesmo time.

Jornalistas, não raramente, são instrumentos de manipulação a serviço de interesses corporativistas. A imprensa pode se encontrar suja, podre, mas sua livre atividade é paradoxalmente necessária para a sociedade. Em um ambiente onde o exercício da imprensa é relativamente livre, quem manipula informação sabe que pode ficar exposto ao ridículo a qualquer momento. Reponsabilidades pesam para quem explora a atividade difamando pessoas, criando narrativas que subestimam a inteligência alheia. O livre juízo de quem se sentiu agredido deve ser servido por boas práticas de direito, em função de que a responsabilidade completa a liberdade. Liberdade de imprensa se resolve com liberdade de imprensa e a livre competição também é essencial aos que propagam notícias.

A quem interessa tal controle da imprensa então? Além de políticos, não estaria as grandes corporações, como a Rede Globo, interessadas em ver um controle governamental sobre a imprensa e as redes sociais que poderia beneficia-las na concorrência com a imprensa livre que ganhou enorme espaço com a internet? E quem vai controlar a imprensa e as redes sociais? Bem, seria o “poder público”, através de regulamentações. Mas, quem controla o “poder público”? Uma classe bastante “confiável”: a dos políticos. Para políticos seria um dos maiores objetos de desejo poder determinar regras e intervenções sobre a imprensa, atingindo o que Hitler arduamente almejou e todo (neo) nazi fascista sempre planeja: um rígido controle da mídia.

Combater as “fake news” não é uma questão para o “poder público”; não se trata de um problema de regulação por leis civis; é algo que cabe a cada indivíduo. Coletivizar a questão é abrir uma porta para absolutismos, já escancarado no mundo corporativo ancorado com o poder estatal que é especialista em fomentar o pânico desmedido como se a sociedade se resumisse a uma grande irmandade de desprovidos de espírito crítico e discernimento para combater a imprensa que é, inevitavelmente tendenciosa, tudo para castrar as pessoas do bem mais precioso do universo, depois da própria vida: a liberdade.

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Notas:
  1. SITES DE HUMOR COM NOTÍCIAS FALSAS TORNAM-SE SENSAÇÃO
  2. Matéria do Estadão.

 

 

 

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