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Do alto da montanha, fui chamado de velho gagá… Gagá talvez eu seja, maluco beleza também. Outro dia um sujeito de ilibado prestígio me recomendou um psiquiatra porque lhe dissera que “dinheiro público não existe”.

Não quero beatos em minha caverna e sempre os mando embora, mas eles não arredam o pé! Por sinal, outro logo concluiu, após a minha entediante explanação, que essa história de “dinheiro público” na verdade se trata do maior “milagre” que se crê no mundo pós estado moderno. “Como não?!”, completei. De fato, dinheiro que é tomado coercitivamente das pessoas ditas “contribuintes”, através de impostos; ora, o dinheiro que é sempre de posse privada, quando envolvido em taxação muda substancialmente de natureza, por uma miraculosa ação do “deus” estado, e assim se torna “público”. O que era meu ou vosso, passa a ser de todos, com o toque da legislação estatal pela varinha mágica da dona Receita Federal. 

Este “milagre” seria similar ao que ocorre em toda missa, dissera-me um de meus desequilibrados ouvintes, segundo a (boa) fé católica (respeito muito!) de que o pão e vinho se tornam corpo (hóstia consagrada) e sangue de Cristo literalmente. Acho tal celebração de fé fantástica em termos teológicos, embora não acredite com a depravada formação protestante liberal que tive.

Fato é que se acredita mais no “milagre” que transforma o dinheiro das pessoas em “dinheiro público” que no milagre da missa. Por quê? Ora, ora, irmãos, a “sonegação” é o “crime” mais cometido e denunciado neste país (e no mundo), por crentes e descrentes, por católicos romanos, ortodoxos, protestantes, homens, mulheres e neutros de bem ou de mal, não importa, todos servos do estado democrático de direito. Igualmente umbandistas, muçulmanos, militantes partidários direitistas, esquerdistas, centristas e demais “istas”, fidalgos e todos os filhos da puta. E o tal “crime” só pode ser assim aceito como crime se houver na sociedade uma crença robusta e absoluta no conceito que nos remete ao  fenômeno sobrenatural que transforma o dinheiro de propriedade privada em coisa pública. Eis um milagre laico que chamo de “transubstanciação monetária”.

Esperando que todos fossem embora após ouvir essas aberrações, praticamente os expulsei com tamanha insistência, após lhes explicar que todo bom democrata, não importando o lado ideológico, tem como premissa a empolgação com o “livro sagrado”; a Constituição Federal (CF) que cita artigos e incisos para refutar algum incrédulo que porventura esteja acometido de alguma provocação “doutrinária”. Democratas, liberais e socialistas cujo comportamento com a CF é análogo a um típico prosélito fundamentalista cristão, daquele insuportável que fica com a Bíblia em praça pública ou batendo de porta em porta, ávido para colonizar os outros, quando não agem como os fundamentalistas muçulmanos, para as “vias de fato”, como ocorre na democracia da Venezuela.

E aqui encerro em meu canto solitário, agora bem acompanhado do ocaso, relaxando ao longe vendo meus decadentes ouvintes, cheios de fé, me deixando em paz.

 

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