Compartilhar

Algumas breves considerações sobre “Minha Luta”, de Adolf Hitler, indispensável leitura para se começar a entender as bases do pensamento político nazista e como foi canalizada a energia da massa germânica até então desiludida em torno da crise econômica no pós-guerra (1a.), sob o vértice do racismo, para mirar em um determinado agente social, o judeu, um tipo capaz de ter uma identidade bem estabelecida por uma tradição religiosa, mesmo sob inúmeras etnias, e ao mesmo tempo se relacionar muito bem com um mundo cada vez mais capitalista e cosmopolita.

Em um tom de amargura, Hitler assim se define em relação ao que representavam os não germânicos e os judeus no contexto de sua revolta, quando escreveu o livro estando aprisionado por nove meses:

“Eu estava convencido de que o Estado se encontrava em situação de poder dominar e  inutilizar qualquer alemão verdadeiramente grande e de apoiar qualquer coisa que fosse contra o germanismo. Odiava o conglomerado de raças, checos, polacos, húngaros, rutenos, sérvios, croatas,etc. e acima de tudo aquela excrescência desses cogumelos presentes em toda parte – judeus e mais judeus.” (página 71)

Sobre as relações dos judeus com o “mundo dos negócios” e o que entendia sobre o poder financista que exerciam:

“No mundo dos negócios, pior ainda era o estado de coisas. Nesse ponto, o povo judeu tinha se tornado na realidade “indispensável”. O morcego tinha começado a lentamente chupar o sangue do povo. Pelos caminhos Indiretos das sociedades de guerra, tinha-se achado uma maneira de eliminar aos poucos a economia nacional livre. Pregava-se a necessidade de uma centralização sem limites. Assim é que, na realidade, já no ano de 1916 para 1917, quase toda a produção se achava sob o controle dos financistas judeus.” (página 107)

Ainda se referindo aos judeus como comerciantes:

“Aos poucos, começa ele a trabalhar no terreno econômico, não como produtor mas exclusivamente como intermediário. Na sua habilidade milenar de negociante, supera de muito os arianos, os quais ainda se mostram sem jeito e, sobretudo, de uma probidade sem limites. Assim, em pouco tempo, o judeu ameaça adquirir o monopólio do comércio. Começa com empréstimos de dinheiro, e, como sempre, com juros de usurários. Na verdade, foi ele quem, por este meio, introduziu o juro. O perigo dessa nova instituição, a princípio, não é reconhecido, sendo ela até acolhida com entusiasmo pelas vantagens momentâneas que oferece. (página 169)

Hitler centrou sua narrativa definindo os judeus como um “um problema de raça” (página 127) e não propriamente religioso. O judaísmo era, na visão dele, uma coisa política e econômica que se infiltrou na vida social germânica para formar “um estado dentro de um estado” (página 85), controlando a economia, a imprensa e as artes. Por esta narrativa, Hitler desenvolveu um sistema de política racista com base em generalizações radicais, usando a velha tática de super dimensionar supostos inimigos da nação para “justificar” medidas extremas, como subterfúgio para unir uma população moral e economicamente destruída pela primeira guerra e assim viabilizar o regime ditatorial que viria a estabelecer nos anos seguintes. Seu discurso era de redenção da raça ariana para substituir o que entendia ser a supremacia judaica, por um estado ultra controlador, unificador e preservador dos valores que ele considerava genuinamente germânicos. Judeus representavam  um meio de inculcar nas massas, os “culpados” pelas mazelas sociais alemãs. Por essa estratégia, ele montou um modelo de poder extremamente coletivista para destruir aqueles que, segundo ele, estavam no controle do estado e degeneravam a sociedade que deveria prezar pela pureza cultural.

Hitler aborda o poder financeiro dos judeus que, segundo ele, manipulava a mídia, impedindo a disseminação de valores que não lhes interessavam. Fazendo uso do tradicional “vitimismo”, percebo que algumas ideias trabalhadas por Hitler resistem até nosso  tempo. Uma delas pode ser conferida em um fato ocorrido no ano passado, quando o ex-presidente Lula chegou a defender um controle da imprensa [1], alegando perseguição da mídia. Quanto ao controle da impressa, na visão de Hitler:

“Aqui, mais do que em qualquer setor, é dever do Estado não esquecer que a sua atitude, qualquer que ela seja, deve conduzir a um fim único e não deve ser desviada pelo fantasma da chamada “liberdade de imprensa”, desprezando assim os seus deveres com prejuízo do alimento de que a nação precisa para a conservação de sua saúde. O Estado deve controlar esse instrumento de educação popular com vontade firme e pôlo ao serviço do Governo e da nação.” (página 133).

Não é por acaso que o controle da imprensa, em nossas dias, é uma pauta corriqueira em líderes populistas e regimes ditatoriais. Funciona assim na Venezuela, em Cuba e na Coreia do Norte. Foi assim na extinta URSS e no leste europeu.

Quanto à repulsa de Hitler ao marxismo, esta se deriva primeiro do anti nacionalismo comunista (página 203), que se tornou ridicularizado por dissidentes do movimento socialista alemão, pois o proletariado preferiu defender suas respectivas nacionalidades ao lado da burguesia, na primeira guerra.  Segundo, Hitler via uma conspiração de judeus que usavam a disseminação de ideias marxistas na sociedade para destruir as identidades nacionais e se apoderar do estado, o que seria um tipo de “proto-metacapitalismo” [2]. Porém, o anti marxismo de Hitler não queri dizer que o que ele pregou em “Minha Luta” não tenha sido uma forma de socialismo. “Minha Luta” é uma cartilha para dar as bases a uma  militância nazista que precisava ser doutrinada aos propósitos do estado como instrumento de uma causa maior, a supremacia ariana. O o intervencionismo e o planejamento central  dele derivado, são consequências de uma doutrina onde tudo se volta em favor de propósitos racistas sob o viés nacionalista.

Ainda sobre os marxistas e os burgueses, confusos com a doutrina nacional-socialista:

“Neste mundo, porém, quem não se dispuser a ser odiado pelos adversários não me parece ter multo valor como amigo. Por isso, a simpatia desses indivíduos era por nós considerada não só inútil mas prejudicial. Para irritá-los, adotamos, de começo, a denominação de Partido para o nosso movimento, que tomou o nome de Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães.”  (página 196). “Com a fundação do N. S. D. A. P. (Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães) apareceu, pela primeira vez, um movimento cujo fim não era idêntico aos dos partidos burgueses, isto é, não consistia em uma restauração mecânica do passado, mas sim no empenho de erigir, no lugar do atual mecanismo estatal absurdo, um Estado orgânico e nacionalista” (página (282). “Só a cor vermelha dos nossos cartazes fazia com que eles afluíssem às nossas salas de reunião. A burguesia mostrava-se horrorizada por nós termos também recorrido à cor vermelha dos bolchevistas, suspeitando, atrás disso, alguma atitude ambígua. Os espíritos nacionalistas da Alemanha cochichavam uns aos outros a mesma suspeita, de que, no fundo, não éramos senão uma espécie de marxistas, talvez simplesmente mascarados marxistas ou, melhor, socialistas. A diferença entre marxismo e socialismo até hoje ainda não entrou nessas cabeças. Especialmente, quando se descobriu, que, nas nossas assembléias, tínhamos por princípio não usar os termos “Senhores e Senhoras” mas “Companheiros e Companheiras”, só considerando entre nós o coleguismo de partido, o fantasma marxista surgiu claramente diante de muitos adversários nossos. Quantas boas gargalhadas demos à custa desses idiotas e poltrões burgueses, nas suas tentativas de decifrarem o enigma da nossa origem, nossas intenções e nossa finalidade!” (página 255).”Devemos levar ao marxismo a convicção de que o futuro dono da rua é o Nacional-Socialismo, assim como, de futuro, ele será, o senhor do Estado.” (Página 287).

A ideias de Hitler para o estado era a de um organismo racial (página 86), uma “organização da comunidade, homogênea por natureza e sentimento, unida para a promoção e conservação da sua raça e para a realização do destino que lhe traçou a Providência” (página 85). Em suma, o estado é para sedimentação da raça e radical defesa de interesses comuns à nação.  A economia seria outro instrumento dentro de uma estrutura de controle político voltado ao planejamento central, modo que viria a ser um marco no regime nazista. A definição da doutrina nacional socialista para Hitler é como uma religião para “guiar a nação”:

“A doutrina nacional socialista não é destinada a servir a interesses políticos dos diferentes Estados federados, mas a guiar a nação alemã.” (página 305)

Há um vídeo circulando em redes sociais onde é feita uma tradução, sob forma de paródia, usando trechos do filme A Queda. Os últimos momentos de Hitler, retratado nas legendas como um sujeito revoltado com as obrigações com o estado, no caso em relação ao fisco (Sped e eSocial). A brincadeira, de péssimo gosto por sinal, associa Hitler ao gestor privado que se irrita com as ações de monitoramento do governo. O objetivo, parece, seria provocar aqueles que se recusam a aceitar as normas de controles do estado, cada vez mais abusivas. Talvez, os que fizeram a montagem e aqueles que a acham engraçada não saibam, é que um dos pontos fundamentais que envolvem as doutrinas do nazismo, consiste no controle social de empresas e indivíduos, através do aparato monitório estatal.

Antes de fazer piada usando Hitler, aconselho a quem assim pensa, a refletir sobre milhões de vítimas assassinadas e/ou que tiveram liberdades essenciais destruídas com o regime nazista. Não tenho dúvida de que Hitler veria em coisas como o Sped e o eSocial, preciosos instrumentos de controle do estado sobre o setor privado, onde a doutrina nazista formou experts.

Outro ponto está na exploração da luta entre classes, questão normalmente associada ao marxismo em nosso tempo. Hitler não desperdiçou a oportunidade de fazer uso do tema, em torno do coletivismo em favor de seus propósitos de poder, estabelecendo premissas para canalizar o apoio dos trabalhadores (proletários) que estavam mais inclinados ao marxismo à época, Ele elabora então uma narrativa onde insere de um lado, os judeus, taxados como os exploradores do lado patronal com suas organizações capitalistas muito bem sucedidas, e do outro, o proletariado, as vítimas:

“A evolução por que passamos terminará um dia, se não lhe opusermos obstáculos, nesta, profecia judaica: o judeu, na realidade, devorará os povos da terra e tornar-se-á senhor dos mesmos. Perfeitamente consciente dos seus objetivos, o judeu defende-os de maneira irresistível, nas suas relações com milhões de alemães proletários e burgueses, os quais caminham para a destruição, principalmente devido á sua covardia, aliada à indolência e à estupidez” (página 238).

E deixa bem claro qual será o papel do proletariado em seu plano político:

“Para que o programa racista-nacionalista possa emergir dos vagos anseios de hoje para tornar-se uma realidade, é preciso que se selecionem, dentro de suas largas concepções, certas ideias mestras bem definidas que, por sua significação, sejam apropriadas a atrair e conseguir a adesão de vastas massas populares, justamente aquelas que podem assegurar o êxito da grande luta de finalidade universal. Referimo-nos ao proletariado alemão.” (página 241).

Controles de registros meticulosos de agentes econômico e expansão de leis trabalhistas positivas, rígidas, para alienar trabalhadores no coletivismo em torno do estado, os usando como massa de manobra para o poder totalitário; esta foi a tônica do nazismo e de muitos regimes ditatoriais ao longo do século XX.

(A título de curiosidade sobre similaridades do sistema trabalhista brasileiro com regimes nazifascistas dos anos 1930, a CTPS no Brasil muito parece ter sido aproveitada no nazismo, quando se vê a “carteira de trabalho” instituída em 1935 na Alemanha, pois está nos mesmos moldes de fichas e registros implementados em 1932, ficando obrigatória em 1934 na ditadura Vargas. Fato é que ambas foram inspiradas no modelo fascista italiano, de 1927).

Por fim, voltando a obra “Minha Luta”, percebo certos elementos que em nossos dias tramitam em sombras nas práticas da política. Imagino até que um “Hitler” alternativo, um tanto suavizado, imperceptível pela massa, pode chegar ao poder com o estado degenerado da sociedade, mediante finanças públicas à beira de uma implosão, coisas que formam um campo fértil para salvadores da pátria mergulharem o país em uma radical caminhada nacionalista, intervencionista, protecionista e, sobretudo, socialista. Penso que se forem substituídos os termos “judeu” por “elite capitalista” e o “nacionalismo racista”, por um “nacionalismo estatal-empreendedor”, se pode começar a entender que o populismo e o nazismo caminham de mãos dadas em clichês do tipo “a Petrobras é nossa”, “o nióbio é nosso”, e tudo quanto for “nosso” assim será desde que administrado através do aparato de compulsão e coerção, o “estado”.

Até imagino que muitos políticos não querem que “Minha Luta” seja mais lido, porque há enorme risco de suas velhas práticas se tornarem ainda mais evidentes em figuras cataclísmicas como Hitler.

“Minha Luta” deve sim ser lido, como a melhor forma de anti propaganda nazista (e socialista) para mostrar até que ponto chega a maldade entre os homens, através da política e do estado, por uma obra que serviu de base doutrinária para vitimar barbaramente judeus em uma das maiores máculas da história.

________________

Nota:
1. Ver Lula ataca Bolsonaro e diz que fará regulação da imprensa se for eleito
2. Metacapitalismo é um termo forjado por Olavo de Carvalho, tendo no modelo chinês, a maior referência. Termo serve para definir o comportamento de empresários que, para evitar a livre concorrência, se aliam ás intervenções do estado na economia.

 

Comentar pelo Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *