Considero-me bastante cético diante de toda grande tentativa de transformação social e, concomitantemente, me flagro aberto a inovações.

Chefe de família que hoje tem o (redundante) rótulo de “tradicional”; não abro mão da autonomia do lar em todos os aspectos, com papéis bem definidos, embora se alternem de acordo com as circunstâncias.

Cristão de raiz ocidental e contumaz usuário da lógica formal, tenho enorme interesse em saber de onde vim, minhas raízes, os valores que foram transmitidos por meus antepassados. No entanto, também sou apreciador do (perigoso) existencialismo; tenho o gosto por ler Sartre, muito em parte devido ao que aprendi no seminário meditando sobre obras de Agostinho e Kierkegaard.

Reconheço e enfrento a questão de que o homem não pode escapar da subjetividade, todavia, o conservadorismo me sinaliza que devo me esforçar ao máximo para não me perder na subjetividade, que é um largo caminho para a degeneração, tanto pessoal, como social. Preciso e devo zelar por um norte moral e penso que o grande perigo das desconstruções que se deram no pós Nietzsche (outro pensador que aprecio)  está na desconexão com os bens imateriais deixados pelos antepassados, processo pernicioso que se traduz na perda da objetividade e do senso de moralidade.

Sobre o aborto, vejo como uma grave violação da propriedade separada (privada) no gracioso alvorecer da condição humana: a vida, dádiva divina. Aborto é assassinato. Atentado contra a natureza sob um mistério que nos torna humanos. Assim entendo que pratica-lo é se auto desumanizar. Entendo que ninguém deve decidir quem deve ou não nascer, entenda-se “nascer”, continuar a viver após a prima fase do ventre.

Herdei da educação seminarial batista o profundo respeito à liberdade religiosa, muito embora não a tenha visto com frequência em congregações que frequentei. Foi também na biblioteca do seminário que me vi mais íntimo do que imaginava acerca de uma visão conservadora, lendo Edmund Burke.

Para mim, apreciar um autor ou uma filosofia não significa ser um “aficionado”, muito menos militante de determinada linha de pensamento.  Apreciar é conhecer, estudar, avaliar e tomar para a minha própria experiência de vida algumas considerações extraídas do que acredito ser uma forma de livre empreendedorismo intelectual. Com esta (crucial) observação, apesar de me definir como “austro-libertário”, não gosto de fazer parte de “turmas”, “grupos”, onde tudo o que se debate não passa de um teatro entre indivíduos que fingem ter algumas discordâncias.

Muitos desavisados me chamam de “anarquista” e outros tantos de “ultraliberal”, e ainda uns outros tantos de “ancap”, alguns mais desprovidos de delicadeza de “lunático”: a todos, ofereço minha compreensão e meu perdão.

Costumo apreciar, lado a lado, fazendo uma dialética hegeliana, obras clássicas do socialismo dito “científico” com o mesmo vigor que tenho em apreciar autores do liberalismo (econômico). Ludwig von Mises tem um peso maior na minha formação como “liberal” em economia que Adam Smith, embora a “Riqueza das Nações” tenha um lugar especial em minha biblioteca.

Não tendo interesse em me conformar com o paradigma do “estado”, e quando o assunto é política no âmbito público, onde entendo não ser necessariamente “estatal”, minha ocupação consiste em pensar sobre possíveis respostas através da praxeologia sobre problemas sociais derivados do tal paradigma entre indivíduos, associações, corporações, onde tenho mais interesse sobre as possíveis vantagens com pequenos arranjos políticos coletivos, todos voltados a “autogoverno”, o que alguns simploriamente chamariam de uma outra forma de “estado”, fato é que rompe com o padrão de estado que observo. Seria um “neoinstitucionalismo”? Não sei.

Quando li “Democracia, o deus que falhou”, percebi que, apesar de ser uma obra muito importante, não se trata de ser a maior elaboração do que entendo ser o maior ícone contemporâneo da Escola Austríaca (EA), pelo lado libertário. Lendo o Capítulo X, encontrei elementos que são comuns à minha visão do conservadorismo. Hoppe aponta razões extremamente fundamentais para todo libertário meditar, pois, caso contrário, fatalmente cairá em uma “compreensão superficial da doutrina libertária” (página 241). O que era uma força ideológica “anti-igualitarista”, “aristocrática” e “antiestatista”, teria passado, na visão do autor, a um movimento de “estatistas culturalmente conservadores” (página 225).

A violação da propriedade privada em torno de políticas públicas (tributárias) em prol da (vaga) ideia de “justiça social”, em meio a  práticas invasivas para anular a celebração de valores em torno de instituições tão caras a conservadores, tais como a família e a tradição cristã ocidental,  são questões que se expandiram na propagação do “estado democrático de direito”, sendo assim algo que cabe maior consideração entre os que são estatistas acerca do significado do estado nesse processo. Penso que é preciso refletir sobre a relação entre libertarianismo e conservadorismo com base na crença em uma ordem social natural baseada e centrada nas famílias (página 238).

Entendo que ser libertário é ter uma visão moral do mundo em prol de uma ordem natural de um estado de coisas, reconhecendo o que é antigo, sabendo diferenciar os “ruídos” das anomalias e dos acidentes, e tendo prudência para dar passos adiante, sempre considerando os acúmulos dados por nossos antepassados. Por esta visão de mundo, “libertarianismo” na visão da EA, nada tem a ver com anomia, carência de ordem social com base no respeito à família, falta de governo próprio, esvaziamento da objetividade moral que sedimenta instituições fundamentais da sociedade, desprezo às leis (naturais e comuns pelas tradições), muito menos se deve confundir o uso de termos como “anarquia de mercado” ou “anarquia de propriedade privada”, usados na doutrina, com certas coisas típicas de sujeitos que, Hoppe menciona, são “pervertidos” e “desequilibrados” (página 242): “vulgaridade”, “obscenidade”, “promiscuidade”, “pornografia”, “prostituição”, “poligamia”, “pedofilia”, entre outras onde o autor menciona “homossexualismo”, ponto que entendo merecedor de uma reflexão à parte, para outra ocasião.

Hoppe é um mestre da praxeologia. Um erudito que serve de inspiração para continuar minha jornada intelectual. Claro que tenho muitas discordâncias e concordâncias; muitas devido à minha imaturidade, outras, quem sabe, com algum fundo de consistência praxeológica. Sua visão sobre o “nacionalismo social”  (página 229) considerando o conservadorismo estatista cultural da direita americana, com combinações com uma visão econômica intervencionista, é imprescindível em qualquer análise sobre a política contemporânea a partir do ambiente dos EUA. Percebo nele um estilo literário um tanto contundente (alguns diriam “agressivo”) e sua conclusão de que o “conservadorismo moderno, nos Estados Unidos e na Europa, mostra-se confuso e distorcido” (página 225), não me convence sobre uma percepção pessoal (posso estar equivocado, claro) que cabe a libertários a abertura a um constante diálogo com conservadores que incluíram o atual paradigma do estado democrático ou o anterior (monárquico) no rol de valores e tradições. Estou entendendo que chamar estatistas, que se veem como conservadores, de “socialistas” (página 235) é uma provocação pouco construtiva, embora deva ser colocada em discussão.

O mais importante é que sendo libertário, me vejo como conservador.

 

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