Compartilhar

 

Há uma condição onde não há a menor chance de existir altruísmo, bondade, caridade, amor à própria espécie. Para tais coisas, um centro espírita, uma ONG ou uma igreja, são espaços bem mais apropriados.

Todos que nela ingressam querem a glória para si; tal empreendimento é pelo poder puro. Os apelos de “renovação” não me convencem nem um pouco. Parecem-me mais da mesma perdição de um devaneio bobo para românticos infantilizados que só servem como instrumentos – “idiotas úteis”, diria Lenin –  em favor daquela coisa degenerada que corrói a sociedade baseada na divisão do trabalho: o que alguns incautos chamam de democracia, que partindo da causa municipalista, na medida em que vai se tornando “hub” nacional, vira uma desgraça concentrando poder decisório no aparato estatal, sobretudo na economia.

A fé naquela coisa degenerada – a democracia – sob grandes arranjos políticos é para débeis que acreditam que há quem pretenda melhorar o mundo naquela “condição”, por discursos sempre bem intencionados, pretendendo assim gastar bem, e “democraticamente”, o dinheiro tomado dos outros, diga-se de passagem, “outros” que são tratados como retardados ou intelectualmente inferiores; incapazes de cuidarem de si mesmos, mas “habilitados” para escolherem, através do voto, quem os tomará conta, acerca de quase tudo que pretendem se conduzir na vida.

Não é de se admirar que a realidade da cataláxia [1] e as “velhas raposas” vilipendiam de tais amantes neófitos da coisa degenerada. A cataláxia, porque funciona como a natureza e a “lei do retorno” que impiedosamente cai sobre os homens. Já a economia, pelo viés da “condição”, é apenas um recurso para se ter melhor desempenho no exercício pleno da demagogia, a arte do ser que explora a tal coisa; é o caso de se conhecer bem uma verdade para poder sabota-la nas coisas em que atrapalham os interesses de poder.

Isto posto, me filiei ao Partido Novo [2] em novembro de 2015. Não tendo o menor deslumbramento com a política, nem com a democracia do “hub” fragilista nacional, entendo que o pior é não fazer nada quando olho para o cenário que representa uma constante exposição a ameaças, da parte de quem preza pela ética da economia de mercado, pela forma como a neoplasia maligna do estatismo está entranhada na cultura brasileira e pelo mundo.  Estou falando na possibilidade de um apoio político apenas como um paliativo? Não tenho dúvida que sim. E só isso; medida pontual, limitada, discricionária.

Não contribuo com o Novo porque espero que o partido mude a política. Respeito que tem esperança em coisas assim, mas, na minha visão, a política sempre será um inferno de Dante na terra; tenebrosa, podre, corrupta e promíscua. Isso não quer dizer que o Novo não tenha potencial para fazer parte de forças liberais que podem retardar iatrogenias negativas de um caminho de destruição que o socialismo percorre sobre o Brasil. O Novo não pode mudar, mas é por demais necessário.

Contribuo com o Novo não porque tenho fé em “dias melhores” para pela e para política; tal esperança é o derradeiro mal (naquele mesmo sentido dado por Nietzsche). Contribuo com o Novo para deixar a política sempre sob pressão, instável, agoniada, humilhada publicamente, ridicularizada, com as vísceras expostas sempre em praça pública, pois sei que o lado canhoto nunca desistirá da doença mental chamada socialismo, enquanto será sempre predominante no imaginário popular em torno do estado.

O Novo foi fundado em 12 de fevereiro de 2011 e obteve o registro definitivo no TSE em 15/09/2015.

Trata-se de um partido que defende algumas ideias liberais em economia e em outras coisas parece estar mais a serviço da ofensiva cultural. A priori, dizem, se situa à destra da cultura política brasileira; não penso assim. Para ser de direita, o Novo teria que ser um partido conservador nos costumes; não percebo essa pretensão. O único movimento de direita brasileiro bem definido, não é um partido e não tem a principal liderança estabelecida no Brasil; está em torno do extraordinário filósofo Olavo de Carvalho e dos seus principais discípulos, intelectualmente bem preparados. O resto não faz diferença.

Mesmo aquém de minhas expectativas libertárias e conservadoras, resolvi contribuir com o Novo. Aos que salientam as raízes do Novo com banqueiros em mais um “projeto de poder”, isso não me comove.

Minha intenção sempre é perturbar a política centrada em uma visão de devotos por intervencionistas vendidos como onipresentes e onipotentes, na concepção da massa ignara.

O Novo tem boas pautas, outras tantas que precisam ser melhor avaliadas[3]. Ainda se mostra distante de propor uma séria discussão na sociedade em torno da Constituição de 1998. Porém, como em meu “balanço de riscos”, há espaço para “paliativos”, entendi que vale a pena investir em uma instituição que combate, mesmo que de forma rudimentar, um tanto atabalhoada, formas de estatismo; o Novo ainda merece ser tratado naquele adágio de que devemos tomar cuidado para não jogarmos “o bebê com a água do banho”.

Não tenho o perfil de me conformar com discursos corporativos e assim, não será surpreendente que eu faça provocações ao Novo. Não abro mão da sinceridade e uma delas é reconhecer que o partido defende práticas socialistas.

[4]

Costumo brincar dizendo que um autêntico austrolibertário é aquele que consegue unir eleitores de Lula, Ciro Gomes, Amoêdo, Alckmin, Marina e Bolsonaro em torno de uma causa. Para isso, basta chama-los de “socialistas” e… Prepare-se para ser trucidado!  Todos ficarão furiosos com a associação direta entre estado e socialismo. Fiz alguns experimentos e atestei que esta insana teoria funciona. Direitistas, liberais e neoliberais se sentirão ofendidos com o conceito de “estado mínimo” sendo tão deturpado, e a turma da esquerda se irritará porque prefere o rótulo, embora conheço esquerdistas que também têm vergonha de serem chamados de socialistas. Já a turma do centro finge que não é com ela, como de costume.

Minha insanidade sincera diz que toda ideologia que propõe modelos de tomada de recursos para redistribuição, ensejando planejamento central, onde inevitavelmente se situarão as políticas de vouchers e renda básica, não é outra coisa senão defensora de uma modalidade de socialismo, apesar dos velhos eufemismos como o que se apela ao conceito de “imposto negativo”, do tão estimado Milton Friedman, o mesmo liberal que deu a ideia do imposto de renda na fonte.

Entendo que tudo não passa de tentativas de mascarar algo simples de ser identificado: O estado democrático de direito funciona muito além do que os clássicos pensadores defendiam, sendo o paradigma do planejamento central, um instrumental socialista, embora Adam Smith o tivessem visto como indispensável para manter a ordem e preservar a propriedade privada, assim como o maior referencial da Escola Austríaca (EA), Ludwig von Mises que, o definindo como “aparato de compulsão e coerção”, também o entendeu ser necessário para preservar a ordem e a civilização, protegendo a propriedade privada de pilhagens. Nunca é demais lembrar que esta polêmica em torno do estado agindo sobre a economia de mercado, provocou enormes desgastes dentro da própria EA, envolvendo Hayek e Rothbard [5].

Sobre as propostas de voucher, do Novo, quando me vem à mente a ideia, penso imediatamente no problema comum de todo planejamento central derivando em torno do “cálculo econômico”. Como definir o valor do voucher mediante as características de cada (micro) região, levando em conta de que se trata de algo análogo ao “bolsa família”, no entanto, restrito a um tipo de consumo? Quais os impactos desse processo na formação de preços entre os agentes ofertantes de bens e serviços no mercado? Seria apenas um “probleminha” matemático de menor envergadura perto do que o estado é também gestor e regulador dos serviços, não é mesmo? Por isso, muitos liberais enxergam a política de voucher como menos ofensiva, quando deveriam ver o lado operacional da coisa.

Discordo da política de voucher porque tem potencial para virar estratégia de mais intervenção cultural nas mãos de esquerdistas que aparelharam o estado, sob o pretexto do repasse de recursos, “justificando” mais intervenções regulatórias sobre as entidades privadas, servindo de pretexto para mais controles sociais sobre empresas educacionais.

Ser austrolibertário para mim não tem nada a ver em sair por ai tentando convencer as pessoas a seguirem minhas doutrinas. Sou do tipo Nietzsche neste aspecto: não quero crentes. Não penso em um “Novo libertário”. Pessoas se descobrem como libertárias e a visão da EA se torna um caminho comum. Ser austrolibertário, entendo, significa estudar formas para se viver por livres trocas, sem dependência e/ou interferência de governos públicos (estatais), sem adotar uma lógica binária e auto excludente de que se você não for mesma turma  ideológica, não será recebido em minha “sala de estar”.

Não tenho a pretensão de ser inspiração política para ninguém mediante minhas ideias libertárias. Por essa linha, prefiro conviver em discordâncias com estatistas/socialistas do Novo ou qualquer outro partido que se proponha a tentar ser “liberal”, tendo disposição para entender seus posicionamentos em um mundo cheio de alternativas, evitando me fechar em um determinismo onde muitos libertários costumam adotar, por sinal, análogo a militância marxista e muitas vezes, de forma infantil.

O que considero óbvio, porém necessário sempre de ser mencionado: se o que quero para mim,  pode não ser válido para os outros, valores comuns devem ser identificados e trabalhados; tal constatação me impõe a busca de uma ética para interagir com realidades múltiplas além de minhas convicções, em um esforço que deve ser exclusivamente pessoal.

Como austrolibertário, estou no Novo para defender ideias antissocialistas e fazer oposição a todo tipo de pauta globalista e progressista. Contribuir com um partido não significa estar de acordo com todas as ideias propagadas pela instituição. Defender o papel do indivíduo e da liberdade, que todos devem ser tratados sem privilégios (no âmbito das regulações estatais não passam de coisas ingênuas, a meu ver), além da defesa do livre mercado, tema que me é caríssimo, são bandeiras que me atraem a uma agenda com a instituição “Novo”.

Ao ser um contribuinte do Novo, não me sinto ofendido em ser chamado de “gradualista” por quem não oferece experiências que indiquem amadurecimento das teses que defende. Minha vida profissional foi construída como autônomo e crítico das intervenções do governo em meu ambiente laboral, e isso por si só me serve de referência.

Em outras palavras, o Novo pode me ser útil diante do mal que o estado me causa; neste aspecto, filiei-me pelo mal afamado egoísmo, tão inerente à minha espécie, que nos mantêm vigilantes nas coisas fundamentais da existência, e para quem acha que essa evidência exclui o altruísmo, a caridade, a compaixão com nossos semelhantes, sempre me parece oportuno pensar em como posso me oferecer para cuidar dos outros se não dou conta de mim mesmo?

_______________

Notas:
  1. Teoria da Economia de Mercado. Ver Ação Humana, de Ludwig von Mises.
  2. Partido Novo. Site Oficial: http://novo.org.br/
  3. Ver vídeo do Bernardo Küster: PARTIDO NOVO, AGENDA VELHA. 
  4. Entrevista completa: https://www.youtube.com/watch?v=FFGbHl95MG
  5. Ver artigo de Fernando Chioccha quando fazia parte do Instituto Mises Brasil.

Comentar pelo Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *