Tornou-se parte de meu cotidiano ver os assim chamados de “empresários de contabilidade” se queixando sobre os preços de mercado, especialmente praticados em serviços  “online”.

O fenômeno da “contabilidade online” está apenas começando. Com o desenvolvimento de tecnologias onde o processamento de dados é realizado de forma cada vez mais intensa, rápida e segura, fica cada vez mais evidente de que muitos serviços de contabilidade, especialmente ligados ao fisco, funcionam como commodities no mercado, sujeitos a lei de oferta e demanda, e quando se tem a combinação de muita oferta em um mercado de livre precificação, com ofertantes usando recursos cada vez mais dotados da capacidade de fazer mais por menos tempo e recursos, é normal que os preços tomem um viés de baixa pela competição de mercado.

Observei alguns contadores defendendo intervencionismo por tabelamento de preços mínimos [1] para serviços, maior rigidez na fiscalização, para evitar o que consideram ser “exercício ilegal” da profissão e regulamentação para serviços via internet, obviamente, sob a reserva de mercado imposta pelo Conselho Federal de Contabilidade (CFC).

Trata-se de algo normal no Brasil, onde a crença no socialismo está na base da formação educacional e assim, o apelo ao planejamento central na forma de regulações e preços se torna comum, da mesma forma que se ignoram lições básicas de economia sobre efeitos (iatrogenias), inevitavelmente danosos.

Quando se fala em “preços de mercado”, é comum ver uma enganosa restrição de problema, como se fosse apenas algo relacionado a preços ao consumidor final. O “mercado” envolve inúmeros mercados na cadeia de produção e tentar regular preços de ponta de consumo, objetivando resolver algum problema em favor de uma das partes envolvidas (ofertantes ou demandantes), é algo que fatalmente será contraproducente pela simples verdade de que a cadeia de custos opera sob diversos mercados, precedentes ao de consumo final.  Fixar arbitrariamente um preço x para um serviço y, não tendo (e não tem mesmo) como determinar preços de fatores da sempre complexa cadeia  de custos que resultam no serviço em questão, iniciará um processo de travamento e destruição da cooperação produtiva com base na divisão do trabalho.

Cabe ressaltar que a analogia do “tabelamento” de preços que o governo Sarney impôs nos anos 1980, sem dúvida, é algo impróprio ao caso do tabelamento de preços mínimos. O que era atribuído à antiga e extinta Sunab estava em função de um limite (teto) para preços ao consumidor e no caso de serviços contábeis, a ideia consiste em fixar pisos para honorários. No entanto, ambas as medidas são grotescas. O tabelamento de Sarney serviu para enriquecer manuais de economia com casos práticos sobre receitas socialistas que provocam o desastre chamado “desabastecimento”. Quando uma autoridade central determina preços, agentes econômicos se voltam a reavaliação de custos e a viabilidade de manter a produção e a distribuição. Como o planejador central não tem como saber todas as variáveis que formam os preços na “microeconomia” e entre os múltiplos fatores de produção, pois são seres humanos e não deuses capazes de saber o que tomadores farão, compondo uma imensa matriz de preços sob oferta e demanda do início da produção até chegar na ponta de consumo, não dispondo assim do “cálculo econômico” feito em “tempo real” em cada etapa. Então, os agentes ofertantes ficam desnorteados com a informação do preço final tabelado que impacta todo o processo de avaliação e tomada de preços de insumos, e sem ver sentido para o negócio, tendem a interromper investimentos, cessando a produção, temendo por prejuízos, quando não, buscam outros mercados onde os preços são livres. Tais agentes se comportam assim porque visam retorno econômico de seus negócios (em meio a cooperação baseada na divisão do trabalho), pois caso contrário, destruirão patrimonialmente a si mesmos. A falta de preços nas relações de oferta e demanda, inviabiliza o acesso a um conhecimento essencial sobre custos em cada elemento da cadeia produtiva. A falta dessa referência vai inviabilizando o cálculo das margens de lucro, de maneira que resulta em falta de agentes dispostos a ofertar insumos na suficiência da demanda de produção, e então o processo descamba na ponta de oferta ao consumidor final, ocasionando desabastecimento, forçando o fenômeno vulgarmente conhecido por “inflação” (preços em viés de alta), dado o aumento da escassez de bens de consumo, selando finalmente o ciclo de fracasso do tabelamento.

A ideia de um “tabelamento” de preços partindo de pisos para serviços, embora diferente da ideia do socialismo de Sarney nos anos 1980, é também uma forma de tentar subverter a cataláxia [2], onde preços se formam em ordem espontânea de uma sociedade baseada na divisão do trabalho entre agentes econômicos que cooperam visando os próprios interesses. Preços funcionam como termômetros da economia ou seja, sinalizadores na oferta e na demanda; são faróis em um imenso oceano de negócios para empreendedores e demandantes de bens e serviços tomarem decisões ou “exercerem opções”, em uma linguagem de mercado financeiro.

Um “tabelamento” por preços mínimos no mercado contábil estimularia um “mercado paralelo” de serviços, o que aumentaria as tensões entre profissionais, assim como o próprio empresariado tomador de serviços. Também implicaria em  graves eventos degenerativos na cadeia de custos no setor produtivo, na busca por excelência em serviços e na própria formação de “valor”. Ao determinar um piso x para um serviço y, os ofertantes, acomodados no preço mínimo, quando não afetados pelo “mercado paralelo”, não ficarão estimulados a buscar novas formas mais econômicas de prestar o serviço. Isso impossibilitaria que o setor produtivo se voltasse a influir na contínua busca no mercado contábil por redução de custos com a burocracia e serviços atrelados ao fisco. Em suma, manteria custos com a burocracia, repassados ao setor produtivo, quando um mercado desobstruído possibilita reduções.

Não se deve confundir o que aqui aponto em relação aos processos de precificação com a ideia de “valor”, pois este segundo elemento se forma na visão do tomador de recursos em analisar e estimar a capacidade de retorno se consumir determinado bem ou serviço, onde a competição por preços é um componente à parte.

Muitos concebem o “mercado” como se fosse uma divindade em um “ser pessoal que se revela”, interpretando equivocadamente a “mão invisível” de Adam Smith tomando decisões que seriam tão arbitrárias quanto às de planejadores centrais de um governo ou órgão regulador; quem assim pensa, não consegue entender que o mercado é sempre volátil, um tanto imprevisível, sendo produtor de momentâneos resultados de infinitas combinações de interesses entre agentes econômicos em igualmente infinitas situações.

Em suma, o mercado nos diz, instante a instante, em cada local de negócios, como estão as coisas econômicas através dos preços praticados. Acontece que no meio contábil essa situação exposta via mercado vem trazendo muito incômodo a muitos profissionais. Por quê? Primeiro, saber as causas é fundamental para que não haja confusão com os efeitos.

Digamos que a empresa de contabilidade x realiza para seus clientes, rotinas de recuperação econômica, diversas consultorias, análise de sistemas, avaliação de finanças e cálculos de retorno de investimentos, além de serviços comuns,  enquanto outra empresa contábil y se pauta mais em preencher guias de recolhimento do fisco e emitir demonstrações (isso também é uma raridade, pasmem!). O tomador, analisando a capacidade de retorno da empresa x, ao aceitar um preço maior  em relação ao que y oferta, reflete uma subjetividade que consolida agregação de valor aos serviços de x; o demandante prefere x porque vê em seus serviços maior potencial para aumentar a eficiência de seus negócios e, obviamente, gerar mais lucros. É evidente que x, para ser o que é, tem que ter mais capital humano acumulado em relação à y, e nesse aspecto reside a sua capacidade de acumular valor no mercado.

Há, de fato, uma persistente queda nos preços de determinados serviços contábeis. Digo “determinados serviços”, porque se trata de um fenômeno que não é genérico. Há outros serviços que, observo, estão em viés de alta na precificação. Na minha vivência de desenvolvedor e ofertante de sistemas contábeis, percebo que no bojo da questão dos preços em queda, está a massificação de tecnologias que reduzem a necessidade de recursos humanos, sobretudo às de baixa demanda de capital (humano); refiro-me às atividades que se concentram em tarefas onde há muita repetição, tais como escrituração de registros fiscais, contábeis e trabalhistas, elaboração de arquivos digitais ao fisco, emissão de guias de recolhimento, cálculos de impostos, folhas de pagamento, e até relatórios gerenciais por meio de algoritmos. Os ganhos de escala são formidáveis quando se tem sistemas integrados captando dados em múltiplas plataformas, possibilitando que mais serviços sejam realizados com menos recursos financeiros, humanos e de tempo. Então, combinando o avanço tecnológico com um mercado relativamente livre de interferências diretas nos preços, cuja concorrência mesmo sendo comprometida com a reserva de mercado dos conselhos regionais, levando em conta a grande oferta de empresas e profissionais de contabilidade, se torna possível começar a compreender certos elementos que implicam na tendência de queda de preços.

Insisto em frisar “determinados serviços” porque não se deve colocar todos no mesmo pacote. Há profissionais, percebo, cujos honorários estão sob alta de preços. Tratam-se de experts que podem ser encontrados em consultorias para gestão tributária, assessoria econômica, análise  de dados, integração de sistemas por diferentes banco de dados, além do outro lado da Contabilidade, por sinal pouco praticado; a interpretação de peças produzidas (demonstrações) que aproximam bastante o contador do economista. Tais profissionais que conheço (pessoalmente trabalho com alguns nesse perfil, em parceria), passaram longe da crise 2015-2017 e planejam mais retorno de suas empresas contábeis nos próximos anos. Então, o lado que opera em preços sob viés de alta, forma uma oferta escassa, o que explica boa parte da valorização, composta por profissionais com maior volume de capital humano em contabilidade para fins de gestão e TI, em serviços que dão muito mais retorno na visão de empresários mais sofisticados como administradores, que tendem a reconhecer com mais facilidade o valor de commodities consultivas. O contador que reclama é aquele popularmente chamado de “darfista” ou entregador de declarações ao fisco.

As queixas então se concentram entre ofertantes de commodities fiscais e trabalhistas que estão no lado de uma farta oferta, lidando com tecnologias cada vez mais redutoras de custos, voltadas para serviços de pouca relevância para o setor produtivo em um cenário mais competitivo: refiro-me às demandas do fisco. Os que reclamam, não percebem que estão em um mercado inflado, onde recursos humanos estão em processo de substituição por automação de sistemas e Inteligência Artificial (IA), executando serviços de baixo valor econômico, inibidores de ações inovadoras, porque derivam de uma burocracia incessante que só interessa a quem vive do aparato estatal. A tecnologia está sendo aplicada para amenizar danos provocados pelo fisco e isso está reduzindo rapidamente a necessidade de mão de obra que explora tais serviços.

Resumindo: o lado dos preços baixos consiste em profissionais que abdicaram de oferecer o que a Contabilidade tem de melhor e certamente, insistindo nesse tipo de oferta, muitos desaparecerão no mercado, lembrando aqui o famoso estudo de Oxford (setembro/2013) que estimou (Gaussian process) em 99% [3] a total substituição de operadores humanos por métodos de automação computacional em serviços de preparação de guias de impostos (tax preparers).

Contadores foram estimados sob 98%. Os assistentes contábeis que operam com documentação, planilhas e bancos de dados, também foram estimados em 99%. Fatalismo dos autores do estudo (Carl Benedikt Frey e Michael A. Osborne)? São estimativas, nada além de probabilidades que devem ser consideradas sempre com as devidas ressalvas de que vivemos em um mundo altamente sujeito a aleatoriedades, no entanto, servem de alerta para os que estão deslumbrados com a TI e o aparato criado pelo fisco, enquanto ignoram a contabilidade voltada ao meio produtivo.

Outro ponto que merece uma reflexão profunda de profissionais de contabilidade: Enquanto no mundo desenvolvido e altamente competitivo (EUA, Ásia e Europa ocidental), é razoável imaginar mais contadores estudando projetos de integração de dados em coisas como blockchain e atuando como analistas econômicos, por aqui, muitos não passam de instrumentos para o estado, o aparato de compulsão e coerção que tem como tradição atrapalhar o setor produtivo, e o processo de descontentamento do empresariado no Brasil, com as dificuldades criadas pelo estado, precisa ser analisado sob a perspectiva de quem empreende e paga os honorários dos contadores. Ignorar tais ocorrências e simplesmente adotar a ideia de tabela de preços mínimos para honorários, tão-somente me remete ao velho problema de se tratar sintomas como causas.

Fixar preços mínimos, em qualquer hipótese, tirará o “norte” [4] para agentes econômicos decidirem quanto, onde e como investir em processos de bens e serviços da maneira mais eficiente possível, e o setor contábil não é diferente. Ofertantes operam na busca incessante para se produzir mais por menos, visando ter mais competitividade e lucros, almejando preços melhores aos seus objetivos econômicos. Demandantes desejam preços cada vez mais acessíveis, e nesse confronto tenso (e salutar), reside a eficiência de uma economia de mercado. Qualquer fixação de preços por intervenção, tira esse referencial e afasta os agentes do conhecimento da escassez (e da realidade), tornando o sistema perigosamente avesso à busca da eficiência.

Perdoem-me o trocadilho: fixar preços mínimos é tentar resolver o problema da desvalorização na base da “marretada”.

O “caminho das pedras” para a tão desejada valorização entre contadores está na constante busca por tecnologias que agilizem processamento de dados e na formação de capital humano voltado a prestar serviços consultivos ao setor produtivo. Desconheço outra forma de se obtê-lo senão através de dedicação ao conhecimento de onde e como operar no mercado, busca de excelência no atendimento ao público especificado e comprometimento total com uma visão patrimonialista da Contabilidade.

Não será atuando apenas como instrumentais do fisco, penso, que contadores terão um processo valorativo mais favorável se quiserem ser diferenciados no meio produtivo. Lidar com a burocracia é o básico do básico; fazer da contabilidade um atrativo para a gestão é o “plus” que viabiliza agregação de valor.

No mais, imagino que defensores do “tabelamento” e outras formas de intervenção no mercado, ignoram o fato de que o declínio em preços de determinados serviços contábeis, beneficia consumidores de segmentos que exploram a burocracia fiscal, por um fenômeno de mercado livre que favorece  o meio produtivo, o mesmo que paga por todo o aparato legalista do estado e, obviamente, rende honorários a quem presta serviços de contabilidade. Também imagino que tais articulistas confundem “preço” com “valor”, quando olham para os sensores do mercado e ao se depararem com o derretimento dos preços, enxergam “desvalorização” do profissional, sem olhar o contexto das atividades e o processo de tomada de decisões dos demandantes (tomadores), porque empresas nascem não no intuito, a priori, de pagar impostos, declarar dados ao fisco e manter uma estrutura burocrática parasita, como ocorre com o estado, e sim para servir à sociedade consumidora, cujo prêmio no mercado – pela eficácia e pela eficiência – é o lucro, a punição é o prejuízo, sendo a valorização de profissionais prestadores, um fenômeno dentro da visão de quem toma serviços contábeis (e não apenas de quem oferta), submetendo sempre os prestadores a avaliações de retorno, por maneiras diversas, simples ou sofisticadas, objetivas e subjetivas.

______________________________

Notas:
  1. “Tabelamento” dos Honorários Contábeis!
  2. Teoria da economia de mercado, acerca das relações de trocas e de processos de formação de preços. Conceito foi amplamente trabalhado por Ludwig von Mises, Friedrich August von Hayek, entre outros pensadores da Escola Austríaca de Economia;
  3. Ver THE FUTURE OF EMPLOYMENT: HOW SUSCEPTIBLE ARE JOBS TO COMPUTERISATION?∗
    Carl Benedikt Frey†and Michael A. Osborne‡ September 17, 2013;
  4. É comum a crença de que “regulação” sob mercados pode ser algo benéfico quando preços “não administrados” se tornam voláteis e/ou passam por forte valorização ou desvalorização. E tal intervenção é feita por alguma autoridade (agência detentora de monopólio regulatório concedido pelo estado), supostamente em benefício da “sociedade”, em função de agentes com poder de influência no elemento que pode conceder tal monopólio, seja no lado da demanda ou da oferta. Se há alguma “regulação” no mercado, está nos preços, que são indicadores da realidade momentânea, servindo de referência para tomadas de decisões de vendedores e compradores, e tais tomadas influenciarão na cataláxia, gerando novos processos de precificação. Intervir nos preços é tirar uma visão objetiva concernente à realidade, algo essencial para a economia se desenvolver de forma natural e melhor sustentada; atacar os preços é impor confusão entre agentes no sentido de dinamizar tomada de decisões sobre fornecimento e consumo, gerando comodismos que podem comprometer até a oferta e a qualidade de bens e serviços. Se os preços são impróprios para um determinado tomador ou conjunto de agentes, os fatores que causam o desconforto pela precificação devem ser estudados e tratados por agentes que buscam a satisfação no próprio contexto, na subjetividade, onde uma autoridade central nada pode fazer de forma eficiente.

Comentar pelo Facebook

One thought on “%1$s”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *