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Trecho de “2057” em homenagem a Lopes de Sá

Um ser emerge por um “balanço de abertura”. O mistério de uma nova existência faz o primeiro lançamento no livro diário da vida.

Registra-se débito no “ativo circulante”  na conta  “tempo” e credito no “sistema de resultado”, na conta “vida”.

O maior de todos os mistério então acontece: à entidade, o valor do” tempo” é incerto e não sabido.

A cada instante os saldos das contas “tempo” e “vida” vão se atualizando…

Debita-se na conta “vida” e credita-se na conta “tempo”…

Debita-se na conta “vida” e credita-se na conta “tempo”…

Debita-se na conta “vida” e credita-se na conta “tempo”…

Parece interminável…

Tempos edax rerum [1].

Só sabemos que o saldo vai se reduzindo… E a conta “vida” acumulando, lucros e perdas.

Não é mais um dia, mais uma hora, mais um minuto, mais um segundo, mas a cada tique-taque, o mais é menos, no saldo da conta tempo.

Quão espantosa é esta contabilidade!

Haverá um momento em que a conta “tempo” será zerada e não mais receberá lançamento; eis a certeza de toda alma vivente.

No razão da conta “tempo” se registra como foram aplicados os meios por este recurso elementar para todas as coisas que ocorrem na conta “vida” e refletem em todas as demais contas de resultado do ser. Assim que a conta “tempo” foi aberta e na medida em que ocorreram os primeiros lançamentos, sempre rumando ao inevitável “saldo zero”, o “capital inicial” também foi registrado, discorrendo os recursos físicos e imateriais iniciais que gratuitamente foram apropriados em nosso passivo e que serão aplicados ao longo de uma primeira fase da vida, chamada “infância”, onde alguns meios serão integralizados, outros não.

O  tempo e os recursos dispostos a cada indivíduo, além de diferentes, são incontroláveis no sentido de como são distribuídos. A quem os recebeu, primeiro surge o desafio de aprender o que significam e como tratá-los para depois, de forma autônoma, administrá-los; este processo é mais conhecido por “maturidade”.

Por que uns recebem mais recursos que os outros no capital inicial da existência?

Por que somos diferentes desde o princípio da vida, na abertura do balanço do nosso ser?

Quem poderá explicar os mistérios da natureza e da contabilidade do ser?

Longe de qualquer determinismo, o que será feito com os recursos primários materiais e imateriais, será determinante para gerar novos efeitos sobre ativos e passivos no balanço da nossa existência.

Fato é que as coisas se escoam no tempo e a vida segue como contrapartida sob o mistério da continuidade. Na medida em que o tempo passa, e deixamos a primeira fase da existência, somos naturalmente feitos para caminharmos com autonomia e assim transformar a aplicação de outros ativos e passivos físicos e imateriais que recebemos de nossos antepassados. Alguns se tornam, de fato, autônomos, outros não.

E recursos vão sendo aplicados, em infinitas combinações e neste contínuo processo, certamente seremos confrontados com resultados. É quando paramos para fazer um “balanço da vida”; e analisamos nossa caminhada até então.

O que fizemos com o tempo gasto?

Como aplicamos os recursos registrados no escoamento da conta “tempo”?

Como nos comportamos com a abundância e a escassez de determinados recursos?

Fomos capazes de multiplicar meios pessoais em comparação com o que tínhamos no capital inicial ou em outro instante de apuração de nosso patrimônio?

Em cada demonstração de resultado do exercício do nosso ser, nos caberá analisar as contas do nosso balanço. Onde tivemos “lucro” ou seja, onde acumulamos mais recursos para atendermos melhor nossas necessidades? Onde tivemos “prejuízo”, ou seja, onde diminuímos nossos meios diante de atos e omissões de nossa responsabilidade e de efeitos provocados por terceiros? Como anda nosso “fluxo de caixa”, ou seja, os efeitos das variações em nossas contas?

Na parte mais sofisticada destes balanços que porventura faremos ao longo da existência, encontraremos uma conta por demais importante para gerarmos riqueza na conta “vida”: chama-se “capital humano”. Nela se acumulam conhecimentos e capacidades técnicas que fomos capazes de adquirir nessa jornada vital e só há uma maneira conhecida desse processo se tornar factível no livro diário de nossa existência: através de um contínuo e interminável esforço pessoal e intransferível chamado “educação”.

Acontece que alguns procuram “educação” mais que os outros, por diferentes maneiras e causas. Muitas explicáveis, outras nem tanto, e um tanto de coisas imponderáveis acontecem. Basicamente por isso, de acordo com uma complexa combinação de esforço pessoal, aleatoriedades positivas e negativas, imprevisibilidade e organização pessoal no processo da existência, angariamos recursos desta natureza. E como todo ativo, o capital humano pode ser aplicado economicamente, seja em um negócio próprio, quando se empreende, ou seja por empréstimo, e quem “empresta” seu capital humano comumente é chamado de “empregado”; neste ponto, os “juros” do “empréstimo” serão traduzidos na forma de “salários e demais honorários” em nosso sistema de resultado. Então, quanto mais valioso for o nosso capital humano, maior poder de barganha teremos diante de tomadores de nossos recursos, agentes econômicos mais conhecidos como “empregadores”.

A forma como aplicamos o nosso capital humano será determinante para compreendermos os resultados nos balanços de nossa existência. A vida, o tempo, a natureza dos recursos que poupamos e consumimos, nossas transações vitais, e todo o processo de educação que escolhemos na formação e aplicação de recursos, tudo flui pela conta do tempo rumo ao saldo zero, quando então a conta “vida” deixará de acumular resultados, não haverá mais tempo, e o balanço da nossa existência terrena será definitivamente encerrado.

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Descobrindo um pouco de humanidade através de um “robô-contador”. Un mondo in cui il comportamento umano non esiste più e la casualità della vita non è più tollerata. (2057)

Nota:
  1. “O tempo devora tudo”, do poeta latino Ovídio, em Metamorfoses.

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