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Estudar é um impulso primitivo que faz a espécie animal humana ser diferente das demais.

A atividade intelectual é um fenômeno de liberdade e sendo assim,  não pode ser contida institucionalmente.

Intelectualidade, aqui vertendo às ciências econômicas, só me parece ter algum sentido se estiver amalgamada com a sociedade, termo que aqui utilizo no sentido dado por Mises [1], embora há outros que considero igualmente relevantes.

Evidentemente, intelectualidade está longe de se limitar ao sentido que vejo para a economia. Vivo entre a razão e a intuição e desta constatação, não me vejo como um “economicista”, “racionalista” ou “objetivista”.

O que me menciono neste texto como “ambiente acadêmico” se aplica, especialmente, ao âmbito do ensino superior regulado pelo estado [2] em áreas ligadas às ciências políticas, sociais e econômicas. Antecipo minhas escusas por algo que possa soar ofensivo, pois entendo que, para muitos, o referido “ambiente acadêmico” representa realização pessoal, algo que cabe meu respeito.

No “ambiente acadêmico”, conheci professores extraordinários… Os melhores não eram mestres ou doutores.

O que penso sobre o “ambiente acadêmico” é relevante apenas para minha própria condução e sempre que vou à faculdade onde frequentemente deixo minha esposa, discente em psicologia, o faço com satisfação, respeitando o propósito dela em obter mais uma graduação, enquanto o mesmo ambiente não tem importância para mim, de maneira que hoje me faz olhar para o diploma que tenho, em economia, como coisa sem valor.

Quando alguém diz que é professor, mestre ou doutor, só me vem um… “E daí?” A hierarquia do sistema não me interessa; o que me fascina é a intelectualidade sendo praticada, sem o peso de rótulos ou honrarias. Posso passar horas ouvindo ou lendo alguém, não porque se trata de um doutor ou mestre em alguma coisa, e sim porque o conhecimento apresentado me fascinou.

Não raramente, vejo o “ambiente acadêmico” sob um vazio, isolado da sociedade, parecendo estar confinado em uma redoma de vidro, com professores blindados por algum monopólio ideológico. Quase não se vive o que se estuda em sala de aula. Por sinal, não vejo mínima utilidade hoje investir em faculdades convencionais de tecnologia, economia, contabilidade ou administração com a necessidade profissional que tenho. Repito, o que escrevo aqui é algo que se aplica ao meu contexto, apesar de que cursos formais parecem estar em processo de caducidade, na dinâmica de aprendizado de uma sociedade cada vez mais dispersa com a internet e as tecnologias que surgiram alheias ao “sistema”, impactando duramente o que se entende por competitividade. Não é à toa que doutores e mestres, do “ambiente acadêmico”, são comumente vistos servindo cafezinho ou “fazendo bicos”, pois o sistema formal se tornou anacrônico em muitos casos.

Ressalvando-se exceções, instituições de ensino superior no Brasil, sejam públicas ou privadas, muitas vezes não conseguem preparar adequadamente seus alunos para uma visão mais objetiva, digo, produtiva com a sociedade e, mediante esta questão, docentes costumam reagir agressivamente a críticas nesse sentido, como se pertencessem a uma classe superior e auto sustentável. Olham para a sociedade produtiva como se estivessem diante do ignaro.

É evidente que academia não se restringe a uma visão em favor do meio produtivo, mas não deve desprezar o fato de que o mesmo ambiente só existe porque há um meio produtivo que o sustenta.

Muitos acadêmicos no sistema convencional vivem presos à crença de que se algo não for embasado, a priori, por uma teoria, não deve ser levado a sério, como se a natureza dependesse da ciência segundo os homens, e não o contrário. Considerar o que diz o “mercado”, ou seja a natureza manifesta economicamente, é algo raro; aliás, mercado é um termo anátema à formação (socialista) dessa trupe. Nada disso foge da curva quando se tem diretrizes planificadas em grades curriculares voltadas a interesses do estado corporativo no sistema de ensino e que, quase sempre, em propósitos que se chocam com as necessidades que espontaneamente emanam da sociedade.

Apesar de ter uma visão tão restritiva, por convite de um amigo que desde 1994 mantenho relacionamento profissional, em novembro do ano passado, falei sobre a “reforma trabalhista”, com um enfoque econômico, a uma turma de ciências contábeis. Voltei à mesma faculdade este ano para participar de um evento para estudantes de ciências contábeis. Em um ambiente que tanto tenho indiferença, pesavam-me tão-somente o tema, os ouvintes e a responsabilidade de apresentar uma visão diferente da oferecida pelo mainstream.

Vejo o “ambiente acadêmico” como uma aberração antiacadêmica. Penso assim pesando a mentalidade de planejamento central, exercida pelo estado mediante o Ministério da Educação, anomalia que persiste no Brasil devido a  uma sociedade culturalmente moldada em controles centrais do governo e que demanda sempre mais planejamento central, mais hierarquização, mais verticalização, mais intervenção e tudo o que diz respeito a mais políticos e mais burocratas boçais legislando e definindo mais regras que afetam infinidades de ocorrências que não podem dar conta [3], de forma que volto a insistir no que Hayek chama de “dispersão do conhecimento” [4] que afeta toda estrutura estatal regulatória. Por mais bem intencionada que sejam as premissas dos reguladores, nada compensa o entrave sobre a anarquia de coisas impostas “de cima para baixo”; o saber, não raramente, se manifesta como um fenômeno de agentes horizontais e/ou  verticais inversos (baixo para cima), se desenvolvendo no caos para amadurecer; é um movimento dado a incertezas, aleatoriedades, que provocam perturbações muitas vezes politicamente incorretas sobre coisas consagradas na academia formal, por estar radicalmente aberto a colocar em dúvida coisas consagradas, provocando quase sempre soluções empíricas, via de regra, mal recebidas, por ser base de tentativas e erros, demandando um mundo de espontaneidades e “amadorismos”.

Muitos não param para questionar a legitimidade do “ambiente acadêmico” pela crença de que ele faz parte de uma ordem social estabelecida e garantida por meio de instituições do “estado de direito”, fazendo com que a intelectualidade seja vista como coisa comportável em determinados espaços controlados pelo estado, e o que se entende por “liberdade de pensamento” seja algo naturalmente refletido em instituições que assim são concebidas como centros de excelência em intelectualidade, formalmente reconhecida pelo estado, cujo ápice está sob o rótulo de “ensino superior”. Neste visão, as regulações do estado sobre o ensino em geral, são vistas como fundamentais  mediante a crença coletiva de que promove (o estado) a tal “ordem social elementar”, sobretudo pelo viés da “democracia”, que no imaginário popular é enganosamente concebida como sinônimo de liberdade. Nem democracia, tampouco a liberdade são princípios, ou seja, não garantem uma ordem inalterada de valores comuns na sociedade que beneficie a condição humana de ser, pensar e se expressar. A liberdade é uma condição determinada pela “política”. Evidentemente, o conceito aplicado como “soberania do indivíduo”, na visão do professor Walter Williams [7], a meu ver deve ser sempre uma importante referência, mas ficará apenas no discurso vazio, longe de encerrar o problema da sua relação com a política, sobretudo quando se verifica que a democracia, em termos práticos, funciona como um arranjo para legitimar uma “ditadura da maioria” e assim, a liberdade em espaços “democráticos” se torna por demais relativizada, quando não inimiga de qualquer inovação que não esteja no cabresto da política.

Acontece que a liberdade é uma condição essencial para se ter uma autêntica educação como fenômeno humano de busca do conhecimento. A democracia, na formação de arranjos políticos, tem também uma importância relativa, e aqui penso em pequenos espaços de poder, quem sabe em “cantões suíços”, em comunidades acadêmicas, com modelos institucionais sob relativa autonomia. Entretanto, a democracia tem se mostrado uma ferramenta estatal para degeneração  social na medida em que serve a projetos concentradores de poder, tornando assim subterfúgio para explorar as “regras da multidão”, canalizadas em corporações estatais que, na medida em que cada vez mais se agigantam, centralizando mais processos decisórios, se tornam hostis a “soberania do indivíduo” e sufocam processos de livres pensamentos e inovações, que são fenômenos de ordem espontânea, onde liberdade e educação vivem em simbiose.

Tirando exceções do meio privado, não me admira então que no “ambiente acadêmico”, policiado pelo estado planificador, ficam em evidência arranjos políticos hostis a movimentos de pensadores e empreendedores autônomos, descentralizados, em parte porque a essência do estado implica em uma configuração incompatível com este tipo de dinâmica, cuja política é feita para anular a tudo que não dependa de intervenções do planejador central, se chocando com relações de saber mais próximas entre agentes, temperados com idiossincrasias que  burocratas do Ministério da Educação não podem sequer imaginar que estão ocorrendo. Por isso, o “ambiente acadêmico” não estará livre o bastante para considerar a mais sublime minoria, apontada pela filósofa-romancista Ayn Rand [5]: o individuo, agente fundamental na “cataláxia” [6]. 

Certa vez, conversando com um doutor em ciências políticas, ele me confessou que só veio a conhecer, com profundidade, as “maravilhosas” (assim se referiu) obras de Hayek, por uma indicação de um amigo fora da universidade. Isso me diz muita coisa sobre a alienação de professores e alunos no “ambiente acadêmico” brasileiro. E quem acha que me refiro apenas a algo doméstico, não é bem assim. Não me admira que grandes disruptores catalácticos, como Bill Gates e Steve Jobs, se desenvolveram à margem do formalismo universitário e que grandes homens de negócio se formaram longe do tal “ambiente acadêmico”. Voltando ao Brasil, como a coisa por aqui é muito mais planificada, estatizada, problemas de distanciamento da sociedade me parecem ser mais evidentes, e se não ocorrer uma mudança profunda nessa condição, passando pela desestatização e extinção do planejador central, o Ministério da Educação, o que se entende por “ambiente acadêmico” correrá sério risco de não ser mais levado a sério pela sociedade produtiva.

Não consigo me imaginar atualmente formalizado em um sistema que produz pensadores que não costumam colocar a “pele em risco”, normalmente não sabem o que é exercer a profissão que se relaciona com a área de conhecimento, não se submetem a pressão de se expor ao mercado; via de regra, nas vezes em que procurei o “ambiente acadêmico” me deparei com um sistema de catedráticos que não sabem como lidar com dilemas concretos da vida econômica e ficam em uma posição muito confortável para falar de suas teorias, ensinando pássaros a voar, com formulações de criticas sociais que não resistem a uma boa volta pela “selva” da cataláxia. Professores universitários de economia, e áreas afins, na maioria, são assim porque espelham a mesma mentalidade de planejamento central do sistema em que foram educados; são competentes para o “sistema” e só para o “sistema”. Atuam como produtos genuínos de um modelo arcaico, falido, obsoleto, rodeado de coisas vencidas, feitas para multiplicar idiotas, assim serão influenciadores de alunos que são castrados de ir além do que o “sistema” costuma determinar. Não me refiro a pobreza de repetir literatura, tomando um religioso cuidado com as normas da ABNT, ficando acima de qualquer outra coisa, além de citar autores renomados de forma descontextualizada com os objetos de “estudo”; trata-se de algo muito mais dramático. O “ambiente acadêmico” me parece algo devotado a produzir o “antiacadêmico” de maneira que possa ser um militante formador de barreiras eficientes contra a livre intelectualidade visando proteger a cultura antiacadêmica ou de estado.

E eis que a partir do momento em que o tão desejado diploma é obtido e a “vida real” se apresenta além da redoma universitária, muitos saem das faculdades sem o menor preparo para o tão mal afamado mercado, ou quando permanecem para a “carreira acadêmica”, entram de vez em um universo de esquizofrenia. Tornam-se engenheiros de mundos paralelos, fazendo uso indiscriminado de modelos teóricos e métodos quantitativos para “traçar o futuro da sociedade”, em uma estrutura de ensino decadente, doentia, de docência hierarquizada na base de trocas de favores, politizada partidariamente, extremamente boçal, pautada na busca de títulos, honrarias e privilégios em um jogo de tramoias e invejas que supera até o que vejo entre tubarões do mercado financeiro.

Pois bem, onde muitos veem sinal de prestígio (ser “professor de faculdade”), vejo um seríssimo problema de “custo de oportunidade” em função de projetos e afazeres profissionais que deveriam estar integrados à vida acadêmica, na visão que tenho sobre os estudos. Assim, ter aceitado o convite para ser “professor” teria sido um equívoco em vários sentidos, além de que dar aulas requer um nível de qualificação e maturidade com o “sistema” que não tenho (e nem quero ter).  Seria uma perda de tempo quando aprender “fora do sistema” me tem sido mais útil para fomentar  “antifragilidade” no sustento moral e material.

No meu cotidiano, vejo muita gente “formada” e sem condições de exercer profissão relacionada, no mercado, simplesmente por não ter o domínio de conhecimentos que deveriam ter sido aprendidos no  “ambiente acadêmico”. E se no tal ambiente  mais vale o diploma do que o “saber de fato”, para o mercado, nas áreas onde atuo, o conhecimento tem significados pragmáticos, não importando o diploma na “hora da verdade”, quando problemas precisam ser resolvidos, e a competência se sobrepõe ao registro regular no Ministério da Educação.

Diante do que vejo, o sentido da vida acadêmica para mim consiste em uma íntima relação entre o que é estudado em sala de aula com o que se pratica profissionalmente, abrindo espaço para que realidades do “mundo da vida” em sociedade, sejam fontes de alta relevância para a elaboração de teorias.

No mais, passou o tempo em que tinha a ingênua crença de que o “ambiente acadêmico” poderia ser um lugar em paz com a diversidade de ideias. Entendo o heroísmo de poucos liberais que trabalham nessa crença, mas a estrutura em que estão firmados sempre tenderá para vícios onde serão prioritárias determinadas visões de mundo dentro do escopo favorável à natureza política do estado, à cultura de planejamento central. O resultado desse controle pode ser visto em centros de graduação transformados em núcleos de preparação de idiotas úteis, militantes político-partidários, sob uma ordem que pretende revolucionar a sociedade com base na mesma “redoma de vidro” de seus professores também alienados, ávidos para implodir instituições que representam o capital humano acumulado por nossos antepassados. E nessa neura revolucionária, no lugar de um meio que deveria zelar pela intelectualidade e pelo livre pensamento, se estabelece um clima de “seita religiosa”, cuja “confissão de fé“ está em se manter obediente ao que o predomínio político exige. Não é por acaso que universidades estatais, bancadas com o dinheiro tomado dos “contribuintes”, ficam mais evidentes no sentido de serem os maiores centros de formação de positivistas, intervencionistas, progressistas, marxistas, freyrianos, keynesianos, desenvolvimentistas, quase não produzindo pensadores liberais, enquanto privilegia fidalgos, “mauricinhos” e “patricinhas” que estudam bancados tributariamente pelos mais pobres, formando uma elite que se prepara, não por coincidência, para ingressar em outras estruturas parasitas do estado, nos melhores escalões de órgãos públicos e empresas “públicas”, percebendo salários acima da média do mercado.

Por fim, aprendi a ter prazer como um informal empreendedor intelectual, o que também me inspira a crer que um dia posso me vincular a alguma instituição que seja verdadeiramente aberta, apta para abraçar estatistas, socialistas, liberais, comunistas, progressistas, positivistas, ateus, religiosos, anarquistas, conservadores, austrolibertários e tantos outros tipos ideológicos dentro de um mínimo suporte moral que a civilização demanda (alguns chamariam isso de “estado”, no entanto, prefiro chamar de “respeito às leis naturais”), livre dos grilhões do nefasto Ministério da Educação, que seja autônoma, de governo privado, singela diante da liberdade e da nobre conquista da educação, destemida diante de qualquer iniciativa coercitiva e compulsiva para monopolizar a atividade intelectual.

 

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Notas:
  1. Cooperação ou “ação concertada” entre indivíduos que se ajudam mutuamente visando seus próprios interesses. A sociedade é “divisão do trabalho e combinação de esforços”. Ação Humana. Ludwig von Mises, página 183. 3.1a. edição;
  2. Utilizo a grafia estado começando com e minúsculo e não o E maiúsculo. Concordo com o editor do Instituto Ludwig von Mises Basil (IMB), ao se referir ao argumento da revista Veja em 2007: “se povo, sociedade, indivíduo, pessoa, liberdade, instituições, democracia, justiça, são escritas com minúscula, não há razão para escrever estado com maiúscula”. Também acho coerente o argumento austro-libertário de que estado é uma discreta provocação contra a ideia de uma entidade que está acima dos indivíduos;
  3. Novamente me refiro ao sentido dado por Mises em “Ação Humana”;
  4. Ver “The Use of Knowledge in Society”, de F.A. Hayek. Há uma outra obra recentemente reeditada em português, onde se pode conferir as principais ideias de Hayek: Os erros fatais do socialismo;
  5. Filósofa nascida da Rússia e que obteve a cidadania norte-americana. Desnevolvedora do objetivismo, sua obra que mais me impressionou foi “A Nascente”;
  6. Teoria da economia de mercado, acerca das relações de trocas e de processos de formação de preços. Conceito foi amplamente trabalhado por Ludwig von Mises, Friedrich August von Hayek, entre outros pensadores da Escola Austríaca de Economia;
  7. Professor honorário de economia da Geroge Mason University e tem colunas semanais lidas em mais de 140 jornais americanos

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