Estava como Dante caminhando em uma selva tenebrosa e eis que um “Virgílio” [1] me apareceu, de repente, para me fazer pensar em dois reinos que constantemente ocupam meu cotidiano.

O primeiro é o reino do Brasil formal, do estado, conduzido por legislações bizarras produzidas pelo igualmente bizarro Congresso Nacional, um inferno dantesco em tolices progressistas, engodos positivistas que perduram há mais de 100 anos; o Brasil primeiro é o demagógico, caricato, que existe em planejamentos centrais de ministérios, por decisões sempre estúpidas advindas do tenebroso Palácio do Planalto; é o Brasil de julgamentos indecorosos no STF, da burocracia destruidora de sonhos em repartições estatais e de normas patológicas da Receita Federal e dos demais entes fiscais.

O Brasil onde comumente a contabilidade gira em torno do fisco e é obra de ficção versus o segundo reino, o do Brasil que produz, o Brasil que acontece, o país de fato, que não está alienado pensando apenas na narrativa de que é do “futuro”, mas é o do agora e com um passado de orgulho, formado por indivíduos desbravadores, que criam coisas que transformam a economia em algo mais eficiente. O segundo Brasil é o dos que inovam, quebram barreiras, apanham e se levantam, surpreendem a tudo e a todos e muitas vezes procuram viver alheios ao primeiro Brasil, o que me parece ser um equívoco, pois é no primo reino onde reside a política, e aqui penso na essência de algo que muitos reclamam no segundo reino, o socialismo, que na visão de Olavo de Carvalho, é uma “atenuação ou eliminação  das diferenças de poder econômico por meio do poder político” [2].

O que mais aflige o segundo Brasil é uma carência de saber o que representa o primeiro, o que move a política, quando não, muitos do segundo reino se aliam ao primeiro em laços de compadrio. No mais, permanecem dois reinos, dois Brasis; o primeiro, é socialista, o segundo, tem que ser capitalista. O primeiro é do “faz de conta”, o segundo diz “vamos falar sério”. O primeiro é o “oficial”, o segundo, as vezes, é mais “oficioso”, tudo aos olhos policialescos de quem só vive no primeiro, nada produz e dita as regras.

Acontece que muitos confundem o segundo Brasil, onde está a força vital e o trabalho vigoroso, com o primeiro, o Brasil onde moram os sanguessugas de toda a sociedade, o Brasil de muitos que se vangloriam nas próprias maldades em nome da boa fé do imbecil coletivo que faz o segundo; é o Brasil de burocratas do estado que querem determinar os rumos sociedade e quando esbarram na sempre inevitável ignorância sobre aquela coisa inconveniente chamada “realidade”, cheia de elementos subversivos, incontroláveis, de volatilidades, o Brasil de primeira ordem pela arrogância tão bem chancelada no aparato estatal, se manifesta em seus mentores que apelam criando formas para manter no cabresto o segundo Brasil, enquanto criminalizam os que não conseguem cumprir seus caprichos, fazendo assim engrossar as fileiras da dita “atividade econômica informal”.

O segundo Brasil então sempre padece nas mãos do primeiro, porque ainda não amadureceu o conceito de que o poder político suplanta o poder financeiro.

Mas o Brasil segundo segue resistindo ao primeiro… Até quando? É bravo, sobretudo em pequenos negócios que servem à sociedade e demandam 52% do emprego formal no país [3], porém, não raramente, dado o que representa o poder do primeiro Brasil na necessidade de se impor pelo medo ao seu aparato e às suas “leis”, as famigeradas normas que produzem o manicômio tributário, seus mentores fazem uso do poder de coerção para eternizar a sina do Brasil de segunda ordem, em interferências de uma burocracia forjada para dar aparência de necessidade ao imenso estado corporativo, que só interessa ao parasitismo de quem legisla, e quando no Brasil segundo não se consegue cumprir as tais exigências, resta ser um  “fora-da-lei”, um homo economicus sem “compliance” com a ordem do primeiro.

Ah, o primeiro Brasil, aquela republiqueta medonha e sem-vergonha que se esconde em um fim de mundo, mais conhecido como “Brasília”, controlada por gente da pior espécie, que não tem noção de como as coisas realmente funcionam, com seus “especialistas” em inutilidades, engravatados cheios de pós-graduação em ações contraproducentes, onde sobram palestras e programas econômicos de empreendedores de palco querendo ensinar os pássaros a voar. Eis o Brasil de especialistas em viver à custa dos outros e que são chamados ingenuamente de “amadores” por quem espera, também ingenuamente, por excelência de gestão nas coisas públicas onde só há desejo por corrupção.

Grandioso é o Brasil que muitos pensam não existir e nada depende do Brasil que vem da política para se manter… O Brasil que precisa descobrir a sua força para fazer política com o realismo de que sempre haverá corrupção e o caminho menos ofensivo é diminuir o “poder estatal”, sempre.

Se no primeiro, a regra é a ignomínia, no segundo Brasil se pode ver decência em indivíduos que não desistem de viver por seus próprios méritos, que não deixam escapar a honra enquanto perdura suportando o Brasil dos canalhas institucionalizados, “democraticamente eleitos” por multidões de um inferno cheio de boas intenções. O Brasil que segue sem ter vergonha do que faz; este é o país real, de grandes centros onde muitos não sabem que dependem, muitas vezes, de cidades pequenas, interioranas, onde a produção agrícola flui para manter uma imensa cadeia produtiva; o segundo Brasil é das cidades esquecidas, com um povo simples, ordeiro, conservador, singelo, sereno, que vive do suor de cada dia no campo, que vai ao chão de fábrica. O segundo Brasil também é o dos ambulantes, das bancas de camelô, que não emitem nota fiscal, assim como também é o Brasil da TI, contado em linhas de programação. Um Brasil de empreendedores impossíveis de serem controlados totalmente pelo primeiro Brasil.

Há quem pense que esse Brasil já era, mas ele está lá, pulsando, por aqueles que acordam cedo, de anônimos que vão construindo a economia de cada esquina, seja a formal, seja a dita “informal”, que a cada instante se volta ao fruto do trabalho. Viva o Brasil de muitos que saem às feiras livres, aos parques industriais, aos centros de tecnologia, envidando esforços para fazer mais com menos; de gente que estuda de verdade. Penso também no Brasil dos centros de assistência social, de igrejas, centros espíritas, e tudo quanto é mantido com recursos voluntários.  Penso no Brasil do agronegócio que consegue produzir para 1/6 da população fora do Brasil, ou 1,3 bilhão de pessoas [4]. Também é o Brasil de investidores de todos os tipos e portes, de startups que ousam enfrentar o Leviatã.

Este Brasil é o que renova minha fé quando vejo apenas o outro Brasil e preciso me corrigir; viva o Brasil que me desperta das dissimulações da política em favor de um mundo fantasioso, de um Brasil podre, imundo, indigno, o Brasil de raposas que reinam em currais eleitorais.

De “A Divina Comédia”, fui até o mestre Ariano Suassuna, que falou sobre o Brasil “oficial” e o Brasil “real”, dentro do contexto de sua luta em prol da cultura popular brasileira, tendo como referência uma antiga citação de Machado de Assis, que disse “o país real é bom, revela os melhores instintos. Mas o país oficial é caricato e burlesco” [5]. Relendo Machado de Assis, Suassuna inseriu uma crítica à imposição de uma cultura globalista, de fora, denunciando uma tentativa de moldar um Brasil que ele concluiu ser de “segunda ordem”.

O conceito sobre os dois Brasis, que Ariano considerou não fica restrito, a meu ver, ao âmbito cultural [6]; é uma concepção útil para se compreender efeitos similares na sociedade, mediante a política e a economia. Então, quando escuto alguém dizendo que “o Brasil não tem jeito”, penso, qual “Brasil” a pessoa se refere? O primeiro Brasil sim, não tem jeito mesmo, pois pertence aos crápulas. Já o segundo, prova a tudo e a todos, a cada momento, que teve, tem e terá jeito.

Os dois Brasis seguem e quem sabe, um dia, o segundo acorde para dar um basta no primeiro.

 

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Notas:
1. Em “A Divina Comédia”, Dante está em uma selva tenebrosa quando Virgílio lhe aparece o convidando a visitar os “reinos eternos” e assim começa a famosa obra de Alighieri;
2. Que é ser socialista. Jornal da Tarde. 28/10/1999. “O Mínimo que você deve saber para não ser um idiota”, edição de colecionador, 2017. Página 121;
3. Ver Pequenos negócios em números (2018), do SEBRAE;
4. Ver matéria do estadão. A crise da Embrapa. 22/04/2018;
5. Ver no Diário do Rio de Janeiro, de 29/12/1861, em relação a uma polêmica sobre um “crédito suplementar” aberto pelo Ministério da Fazenda “Aqui hão de me perdoar. De um ato do nosso Governo só a China poderá tirar lição. Não é desprezo pelo que é nosso, não é desdém pelo meu país. O país real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco. A sátira de Swift nas suas engenhosas viagens cabe-nos perfeitamente. No que respeita à política nada temos a invejar ao reino de Lilipute“);
6 Ariano Suassuna via a cultura local sendo atacada por interesses políticos e econômicos (mercado), como forma de colonização.

 

 

 

 

 

 

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