A notícia no meio da tarde da última quinta-feira (19) de que Geraldo Alckmin driblou Ciro Gomes e conseguiu um acordo com o “Centrão”, ecoou, naquele instante no intraday, em 3,8% na B3.

Diante dos presidenciáveis, o tucano é o candidato melhor avaliado no mercado quando se pesa o entendimento de que seria um caminho pró reformas, inclusive com maior capital político que o de Meirelles. Lula é o pior cenário, Ciro Gomes não ficaria muito distante do mesmo botão de pânico onde está o petista, Bolsonaro não passa de um fanfarrão representando como “liberal” e Marina não é levada a sério.

Entendo que a B3 se aproximará do fechamento da janela para compras com maior retorno, na medida em que o processo eleitoral possa se direcionar de uma forma menos dramática, e essa “forma” é Alckmin, ganhando mais um fôlego, após oito anos de FHC, 13 de PT e um tampão de dois anos com Temer e a cúpula peemedebista. Fora do tucanato, a Bolsa volatizaria mais, e com viés de baixa, para os adeptos da visão de centro.

Saindo do pragmatismo do mercado financeiro, entendo que Alckmin ainda é o melhor que a esquerda pode ter no jogo do poder, mediante a velha “estratégia das tesouras”, por pertencer a um partido gramcista que sabe se camuflar e driblar investigação, enquanto o lado destro tem se demonstrado incapaz de se organizar com maior força, apesar do impeachment em 2016, para fazer frente a este velho artifício canhoto [1] desde Lenin.

A “estratégia das tesouras” no Brasil está muito bem estruturada com o PT, o PSDB e o PMDB servindo de “contrapeso”, além do “Centrão”, que não passa de um mega leilão de currais eleitorais e tempo de televisão. Foi facilitada no Brasil porque, historicamente, o que se chama de “direita”  está longe de representar valores que são observados desde o surgimento do termo na Revolução Francesa, passando pelos eventos americanos e pela maior evidência na política britânica, os dois últimos onde o rótulo de “conservador” parece ter alguma articulação mais impactante na sociedade, embora esteja deteriorado pelo mito do “estado democrático de direito”.

Não estou aqui me lamentando pela idiotice que domina a política mais conservadora e sim pela miséria ideológica que permeia o cenário. Desde os tempos do golpe da República  em 1889, após a derrota dos saquaremas [2], o que se apresenta como “direita” no Brasil, mergulhou no mais profundo intervencionismo econômico e passou a ter forte inclinação ao populismo e a práticas fascistas e então, o rótulo, de “direita”, acabou ganhando força no imaginário popular apenas pela repulsa ao comunismo, quando se é possível identificar práticas políticas comuns nos dois lados da política.

Não foi à toa que um “direitista”, após o fracasso da descentralização republicana, lançou as bases do estatismo do Brasil de hoje: Getulio Vargas, no “Estado Novo”. Muita coisa no Brasil se explica em fatos entre 1930 e 1945. Penso que, enquanto não forem abandonadas essas bases, digo, o integralismo positivista da União anulando o municipalismo e todas as ações liberais em economia, o fascismo trabalhista (CLT e JT) anulando a liberdade laboral e multiplicando a burocracia patrimonialista dos parasitas, o intervencionismo e o estatismo dos meios produtivos, sob os motes de “a Petrobras é nossa”, “a Eletrobras é nossa”, tudo servindo ao populismo e ao messianismo, o Brasil não terá a menor chance de acumular capital (enriquecer) de maneira que tenha condições de se tornar competitivo.

Nenhum candidato a presidente poderá mudar uma trajetória socialista que se agigantou nos anos 1930, ganhou força no regime militar (1964-1985) e foi sacramentada na CF/88. A estratégia das Tesouras está sedimentada e parece ser indestrutível quando noto que a mentalidade socialista povoa no imaginário popular. Reformas liberais são improváveis. O Novo, um partido que congrega liberais em economia, e alguns que se dizem “conservadores” nos costumes (um termo estranho, a meu ver) não conseguiria executar nem 10% do que diz defender, se chegasse ao poder. Qualquer presidente verdadeiramente liberal seria trucidado em meses; inevitavelmente, seria arrancado do Palácio por uma população apaixonada pelo socialismo, onde a maioria não sabe desse acometimento, e então se clamaria por um Lula (aliás, o petista, parece, ainda é o preferido nas pesquisas).

Acredito que o Brasil só terá alguma chance de mudança, por advento de uma crise fiscal profunda, evento que poderia forçar um novo ordenamento jurídico constitucional; no entanto, algo assim seria trágico e muitíssimo perigoso, pois poderia descambar no sistema político, um regime totalitário socialista bem mais radical, seja de esquerda ou de direita. Parece-me ser este o risco maior de nossas fragilidades.

E assim os quase 100 anos de varguismo seguem como uma maldição, impondo um preço alto demais para a nossa geração, imbecilizada pela estratégia das Tesouras.

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Notas:
1. O teatro esquerdista para inculcar no eleitorado uma pseudo polarização entre forças que, na verdade, são de esquerda em meio às suas linhas auxiliares, alternando entre dois grandes partidos que, no caso brasileiro são o PT e o PSDB, impedindo a visibilidade de candidaturas fora do esquema, onde estaria a direita.
2. Os conservadores do período imperial.

 

 

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