“A casu” (latim) é o que se aplica a algo sem causa aparente, fato sem explicação conhecida. Pela dispersão das causas, não raramente, muitas envolvendo fatores fora do controle de quem observa um determinado fenômeno.

Normalmente se associa o fenômeno volátil à “aleatoriedade” como se fosse algo sem razão. Ocorre que o desconhecimento sobre a lógica de um fenômeno volátil não significa que não houve lógica sobre o evento em questão. Não se deve confundir a ausência de evidência com evidência de ausência.

Uma imagem breve concluindo a leitura de Taleb [1]: Um fato que nos surpreende, de maneira que aponta nossa incapacidade de  reagirmos adequadamente ao volátil é o aleatório perturbando a sistematização que seguimos, as ideias organizadas como se o universo seguisse um script que controlamos; crença torpe de que do passado se estima o futuro com robustez, sobretudo quando há modelo econométrico e demais arranjos matemáticos, projeções, com chancela probabilística, fomentando uma ilusão de conhecimento que nos mostra sob perda de sentido quando surge uma derivada da aleatoriedade, a volatilidade como objeto ativo e implacável no cotidiano.

A ideia de “opções” em investimentos está longe de ser algo apenas do mercado financeiro. Na vida em geral, a aleatoriedade é a regra que corre muitas vezes “silenciosamente”, contando com nosso excesso de confiança em coisas sistematizadas, “estáveis”, e saber identificar as fragilidades que nos cercam, ou seja, nossos “pontos críticos”, é o primeiro passo para nos confrontarmos melhor com “opções” em um mundo inevitavelmente volátil, e assim, abrirmos caminho para a “antifragilidade”.

Estar endividado é um elemento de fragilidade. Não ter planos de contingência para ocorrências que envolvem o básico da existência e subestimamos, também. Não se preparar para o pior, quando o melhor parece ser “certo e garantido”, idem, assim como evitar certas instabilidades necessárias ao aprimoramento de processos, cujas falhas ocultas vão se acumulando. Quando o “pior” acontece, na volatilidade, podemos nos beneficiar também?  Quem se pauta na mentalidade de “opções”, começa a ver a lógica binária de “isto” ou “aquilo” um tanto assimétrica, “fora da caixa”; passa a ver em “lados” tão aparentemente antagônicos, oportunidades para se fortalecer no Cisne Negro.

O caos pode ser favorável.

Pondera-se tomar algum proveito, até certo ponto, da volatilidade pendendo em duas situações opostas e aparentemente auto excludentes, do ponto de vista dos impactos que podemos projetar e, especialmente, sobre o caos? Se estimamos que A pode acontecer com maior probabilidade do que B, e se entendemos que A nos parece estável, mais favorável em termos pragmáticos, seria mesmo possível trabalharmos fora da “lógica binária” ou bipolar de A versus B, por condições para que B, ocorrendo, também seja potencialmente benéfico, mesmo que em uma linha de tempo sobre outra dinâmica, talvez maior e ainda considerando por demais equidistantes em nossa capacidade de maturação?

Se invisto na expectativa de A ocorrer como evento mais provável e A significa uma situação mais vantajosa, poderia me favorecer também em B? Se A ocorrer e tomo proveito pela comidade que representa, mas se B ocorrer, também tenho potencial maior retorno de benefício sobre os efeitos colaterais, ou iatrogenia, então me encontro em antifragilidade com A e B. Como mencionei, isso está muito além da tomada de vantagens quando se tem em mente a diversificação de ativos no mercado financeiro, de tal maneira que a não ocorrência de algo que parecia mais provável, e aparentemente mais vantajoso, também retorna mais efeitos de ganhos do que perdas, compensando em termos gerais.

Um negócio que sofre um revés em um determinado segmento de mercado e que ao mesmo tempo, obtém ganhos maiores com a volatilidade que provocou a brusca mudança de cenário até então aparentemente mais favorável? Isso é realmente possível? Claro, se houver compreensão sobre o significado da aleatoriedade que resulte em ações que mapeiem com mais eficiência as fragilidades do negócio, de maneira que a volatilidade, combinada com ações redistribuídas pela maturação das coisas aprendidas com a aleatoriedade no cotidiano, possam criar condições para que o imprevisto também nos seja mais favorável do que desfavorável. Não se espantar com o imprevisto, de maneira que se possa entender algumas nuances e aprender com ele, é uma chave nesse processo.

Um sistema mais aberto a interações quase sempre imprevistas com agentes, pode estar suscetível a instabilidades ou falhas que ficam, muitas vezes, ocultas, imperceptíveis, em sistema mais rígidos, estáveis, controlados por um modelo centralizador, anticíclico. Quanto maior for a exposição às aleatoriedades em status distribuído, mais volatilidade (e correções) poderá receber e assim, se tornar potencialmente capaz de sair de fragilidade, passar pela robustez, até chegar à “antifragiidade”.

Se aplico em papeis onde estou exposto mais agressivamente, aplicando no “pozinho” [2] com recursos que posso me aventurar,  em cenários onde a manada está distante, enquanto obtenho ganhos consideráveis no outro lado, seguindo determinadas regras mais conservadoras no maior volume, então… Se opero sob algo fragilista, enquanto sou forçado a esse “algo”, concomitantemente, posso (e devo) também operar contra esse “algo” em outras vias e nessa dinâmica, combati fragilidades. Opções são caminhos que devo percorrer aparentemente auto excludentes.

Envolver-se com “algo” coercitivo não significa que eu esteja de acordo com ele [3]. Se não observar e executar o mínimo que devo fazer para cumpri-lo, estarei aumentando minha fragilidade diante do agente agressor que pratica a coerção. Mas isso não significa que devo acatá-lo passivamente. Devo operar então em duas linhas de trabalho diante desse “algo”, em processos paralelos que me fortalecerão. Caso contrário, estarei transformando a robustez que posso  produzir neste “algo” que me envolve,  em fragilidade, por simplesmente aceitar uma opressão, sendo conivente com o opressor, até que se chegue ao ponto de que a vantagem de trabalhar neste “algo” produza mais iatrogenia (efeitos colaterais negativos) que benefícios econômicos. Isso ocorre quando o “algo” impõe riscos e custos potenciais superam os benefícios correntes [4]

Em outras palavras, envolver-se com algo coercitivo, obviamente, não se relaciona com concordância. Lógica binária não se aplica onde não há, a priori, opções primárias, e sim secundárias, como desdobramentos de circunstâncias derivadas de imposição [5]

Acaso, opções e “antifragilidade” são forças conectadas de forma muito mais íntima do que posso imaginar.

 
 

 

 

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Notas:
  1. Antifrágil;
  2. Compra de papeis em opções valendo poucos centavos;
  3. É neste ponto que entendo minha relação com o projeto eSocial.
  4. Quando o governo impõe regras de “compliance” a negócios que se tornam por demais complexas, elevando custos a ponto de solapar o negócio de atendimento em si; então, para entender o que estou argumentando, sugiro perguntar a um membro de uma TI que trabalha com “obrigações fiscais” o que está ocorrendo com o suporte nesses dias de eSocial… ;
  5. Esse “algo” pode ser visto como “imposto”, “obrigações acessórias do fisco”, “democracia”, enfim, tudo que é coercitivo e exige posicionamentos dinâmicos, em múltiplas vias. Se eu agir assim, estarei dando mais chances ao acaso sobre mim, aumentando minha probabilidade de ser “antifrágil”. 

 

 

 

 

 

 

 

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