A conversa com um analista de negócios de uma grife de TI estava cansativa. Perdi as contas de quantas vezes usou a expressão  “temos a melhor cloud do mercado”, como se fosse um mantra. Encerrado o show, fui ao “pé do ouvido” e o lembrei que ele dizia exatamente o mesmo, e na mesma intensidade, quando estava na outra empresa de TI, agora sua concorrente. Com o senso de humor que lhe é peculiar, ele sussurrou: “o deles (do concorrente) é o melhor, desde que eu esteja lá para anunciar” (risos).

Procurando uma bomba-hidro em uma loja de materiais de construção, fui atendido por um promotor de vendas que tentava me convencer, com aquela empolgação da primeira venda do dia, de que a empresa que representa “oferece a melhor opção do mercado em termos de qualidade e potência”. Questionei o rapaz sobre opiniões contrárias de profissionais especialistas em instalar esse tipo de equipamento, que me apontaram a outro fabricante. Ele então argumentou, falando discretamente, que “a outra é mesmo a melhor, tanto quanto a minha”. Então, soltou um discreto sorriso ao notar o meu sarcástico “compreendo” a tamanha contradição.

Um advogado e professor universitário, conversando sobre a “reforma trabalhista” do ano passado, concordou com as evidências que apresentei e até achou espirituosa a minha afirmação de que a CLT “protege tanto” o trabalhador que o deixa sem emprego. No entanto, contra argumentou que a CLT é “insubstituível”, por ser um “preço a ser pago” pela sociedade em favor do que chamou de “civilização” diante dos “problemas do capitalismo sem freios”. Então, repliquei sobre o que significaria a tal da “civilização” na concepção de um trabalhador com baixo capital humano, produtivamente fraco, alijado do mercado pela incapacidade de atingir uma cota mínima de qualidade face aos custos impostos pela CLT, tendo que sobreviver por programas sociais, obviamente, bancados pelo meio produtivo que acaba ficando encarecido, afetando a mesma sociedade com os custos da ineficiência na alocação de recursos. Questionei se era mesmo uma coisa civilizatória tentar resolver o problema por legislação, como se tenta há mais de 70 anos no Brasil. Ele rebateu dizendo que a CLT “deve ser preservada, de todo jeito, pois protege o trabalhador, apesar de prejudicá-lo”.

Em uma argumentação atribuída pelo portal G1 [1] ao presidente da Fenacon, Sérgio Approbato Machado Junior, sobre o projeto eSocial, ele afirma que o projeto é “bom”, mas está descrente de sua eficácia.

Como um projeto pode ser bom e ineficaz? Pareceu-me mais um ato falho do presidente da Fenacon. O eSocial deve ser bom para o aparato político e para eSocialites e tão-somente para tais, e ineficaz para quem vai usá-lo por coerção.

Os exemplos acima não são exatamente casos onde o “duplipensamento”, elaborado por Orwell no romance “1984”, foi aplicado com eficiência. “Duplipensamento” consiste em aceitar duas opiniões que se anulam uma à outra, contraditórias, autoexcludentes, em um exercício que recorre à lógica para questionar a lógica [2]. Trata-se de um instrumento para discurso corporativo, dissociado da realidade.

Mas tem um “detalhe”: se fossem “prendados” na prática do “duplipensamento”, o analista de TI e o promotor de vendas me diriam, sem demonstrar qualquer hesitação ou ar irônico, em favor de uma das “verdades” que lhes fosse mais apropriada no sistema de “duplipensar”. Eles demonstraram conflito e falta de firmeza; faltou-lhes aquela fé inabalável de que “2+2=5”, como se conta no romance. No caso do advogado, é possível algo trazer benefícios e danos, cabendo analisar se os ganhos compensam as perdas. Já no dito do presidente da Fenacon, a falha foi grave no discurso corporativo. Ele não foi minimamente zeloso no uso do “duplipensamento”. O conflito lógico não deve ser externado; apenas uma opção deve explorada e externada na narrativa, de acordo com a conveniência.

O duplipensar é um discurso político, de palanque, a ser feito com firmeza e determinação. A aplicação do “duplipensamento” é um instrumental para forjar uma crença inabalável em fraudes políticas, como arma de doutrinação, tão poderosa quanto a de cunho religioso, de acordo com uma determinada ocasião, não importando, de fato, o que seja verdade e o que seja mentira, tampouco se há evidências contraditórias sobre um entendimento conclusivo sobre o objeto em discussão. É uma prática onde o discurso depende do público que vai ouvi-lo. Então, o presidente da Fenacon teria adotado um “duplipensamento” de forma eficiente, se tivesse construído a narrativa dizendo que o eSocial é bom, não deixando margem à interpretação contrária na narrativa quanto à descrença em sua eficácia. No entanto, em outro ambiente, poderia construir outro discurso, totalmente contrário, caso se sentisse mais favorecido em adotá-lo. No processo de “duplipensar”, evidências contrárias, por mais óbvias que sejam,  não representam qualquer valor para uma “verdade” exposta a ser trabalhada  em uma narrativa. Sua prática requer um rigoroso “programa de treinamentos” para inviabilizar todas as formas de pensamento que não interessam na ocasião, mesmo sabendo que estão lá, presentes nas entrelinhas do juízo.

Na nossa linguagem mais próxima, a “doutrinação” feita em escolas e universidades para fazer com que os estudantes parem de pensar livremente, se tornando reprodutores acéfalos de narrativas em favor de um determinado projeto de poder, reconhecendo determinadas verdades de acordo com a ocasião. No contexto de “1984”, seria totalmente centrado no que o “Partido” define como “verdade”, sob o invólucro coletivista moldado pela crença na infalibilidade do “Grande Irmão”, o supremo líder amado pelos governados, adestrados pelo medo de um sistema de vigilância contra qualquer evidência de “pensamento-crime”.

A obra de Orwell, escrita em 1949, provoca um mundo onde não se consegue mais pensar logicamente.  Doutrinados no “duplipensar” vivem cativos de um controle ideológico que monopoliza opiniões e criminaliza quem tenta construir crítica além da cartilha dominante. Considerar duas ideias antagônicas, contrárias, conflitantes ao mesmo tempo, aplicando contextualizações para ter uma “verdade” que seja conveniente conforme a situação, e ser capaz de demonstrar lealdade absoluta ao que se está argumentando, embora seja algo tão-somente ridículo, não é algo tão distante da realidade quando observo militantes partidários, não importando o lado

Quando um representante de um partido de extrema esquerda associa o deputado Jair Bolsonaro ao totalitarismo ou coisa do gênero, consegue conciliar no pensamento tal conceito com o contraditório apoio que dá ao regime desumano imposto pelo socialismo de Maduro, na Venezuela. Quando um  militante de Bolsonaro se torna agressivo contra ideias liberais em economia e defende privilégios no serviço público, formas de protecionismo e intervencionismo extremos, consegue se conciliar com as mesmas ideias que todo partido de esquerda costuma defender, mas se vende como politicamente diverso, antagônico, moralmente superior. De fato, cada lado procura a “verdade” por “dulipensamento” que mais lhe favorece, muitas vezes para parecer diferente e melhor, sendo igual em ideias de “Socing” que convergem a desejos acerca do que o personagem O´Brien define como “poder puro”.

A curiosa união na denominação “Socialismo e Liberdade” de um partido político é um outro bom exemplo de “duplipensamento” na política brasileira, que em termos de “Novafala, não deixa a desejar para a imaginação de Orwell.

Os mestres do “duplipensar” não hesitam em construir discursos aparentemente bem embasados de lógica, mas sob factoides, dissimulações, meias verdades. O mérito de Orwell foi ter organizado algo tão corriqueiro na desonestidade intelectual em um conceito. A obra “1984” nunca perderá a conexão com a atualidade.

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Notas:
1. G1: Empresas relatam dificuldades e despreparo na implantação do eSocial;
2. 1984. George Orwell. Página 48.

 

 

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