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Friedrich Engels em  “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado” [1], se referindo ao período imediatamente anterior à “revolução neolítica”, com base na obra “A sociedade primitiva”, de Lewis Morgan [2] e em notas de Karl Marx, discorre sobre a vida em poligamia entre homens, e poliandria entre mulheres. Foi uma era da humanidade onde toda mulher estava sujeita a relações sexuais com todo homem, e vice-versa. Afirma Engels que “os filhos eram considerados como pertencente a todos”.

Antes do surgimento da família, o paradigma era o do “amor livre” por relações grupais. A humanidade foi abandonando o que entendo ter sido uma forma de “comunismo de relações sexuais”, até que surgiram formas de organização tribal mais baseadas em vínculos de sangue, com a determinação de parentesco sendo feita através da mãe.  Cabe aqui citar Roland de Vaux, no Capítulo I da obra “Instituições de Israel no Antigo Testamento”, onde o erudito afirma que “o matriarcado é um tipo de família muito mais comum nas sociedades primitivas” e que “a criança (no matriarcado) pertence à família a ao grupo social da mãe” [3].

Por que ocorreu essa gradual transformação nas sociedades primitivas, em formas distintas de matriardado, fatriarcado e patriarcado, chegando ao conceito de família, como o conhecemos atualmente?

Hoppe em “Uma Breve História do Homem”, parte da essência do problema malthusiano para desenvolver uma teoria sobre o surgimento da família. O instinto humano sexual de reprodução teria se relacionado economicamente com o instinto da sobrevivência. Trata-se de uma abordagem com base no “princípio da população” [4] em Malthus, quando a taxa populacional cresce em progressão geométrica, enquanto os meios de subsistência, em proporção aritmética, provocando colapso. Se Malthus foi desacreditado depois, pela era da revolução industrial, o princípio por ele apresentado serviu de referência para Hoppe em tempos primitivos onde o agente humano estava em uma relação exclusivamente passiva com a natureza, como nômade coletor e caçador, enquanto o crescimento populacional era uma constante ameaça à vida comunitária. Naturalmente foi se tomando ciência de que o “tribalismo sexual” se tornou insustentável. Afirma o filósofo e economista libertário que “do ponto de vista puramente econômico, então, a solução para o problema da superpopulação deveria ser imediatamente aparente. A propriedade das crianças, ou mais corretamente, a administração das crianças, deve ser privatizada”. [5].

Voltando ao trabalho de Roland de Vaux, cabe mencionar a “solidariedade familiar” (“go’el”) na organização que se tornou evidente, levando em conta o contexto bíblico israelita; o conceito é de que membros da família devem “uns aos outros ajuda e proteção” [6].  Na cultura se evidencia o “go’el”, o protetor; o termo em hebraico vem de uma raiz que significa “resgatar, reivindicar” ou “proteger”, de forma mais fundamental.

O surgimento da família foi uma consequência da falência de um primitivo modelo social comunista onde as crianças ficavam aos cuidados de todos na tribo, com as responsabilidades de subsistência socializada ao extremo, porém, a explosão populacional teria forçado um modelo de controle de natalidade e de atribuições de uma nova ordem social, que seria privada para a responsabilidade para com os filhos. Um núcleo de gestão menor, descentralizado, pautado em responsabilidades por laços de sangue. Surgiram então lares independentes, com as crianças derivadas da nova organização com ênfase matrimonial, aos cuidados de genitores, iniciando assim as famílias com base no referencial da mãe em um primeiro momento, e depois, de modo ainda mais restrito, sob poligamia até se chegar na monogamia, a forma mais “privativa”, digamos, de organização familiar patrimonial, quebrando o paradigma do lar unificado tribal, por outro delimitado, privado. Esse processo se deu na transição do nomadismo para o sedentarismo, com o desenvolvimento de tecnologias que deram origem à agricultura, até o desenvolvimento da vida urbana em formas rudimentares de manufatura.

Em outras palavras, a família é a mais antiga forma de propriedade privada socialmente convencionada, dando as bases para o surgimento de “terras privadas”, assim sugere Hoppe [7]. Sem família, não haveria o que se chama de “capitalismo”, como o conhecemos. Foi o caminho que a humanidade trilhou para a civilização.

A família está para a propriedade privada e então, não é por acaso que comunistas modernos a têm no alvo, assim como todas as instituições que a defendem. O que esquerdistas querem é destruir a organização familiar, para atacar o núcleo do capitalismo em sua mais importante base de organização social que dá sustentação ética e econômica à propriedade privada. A família representa delimitações claras, objetivas, de direitos e deveres, que implicam em responsabilidades contratuais com base em ligações por parentesco, ou afetividade em tempos modernos, não sendo necessariamente uma junção pelo vínculo de sangue, mas de afinidades sempre remetendo indivíduos às responsabilidades contratuais, envidando vetores que definem a preservação de meios privados, bens de capitais, através de um desdobramento inevitável da organização: a herança que os pais deixam para seus descendentes, o ponto crítico que comunistas querem erradicar da face da terra.

Porém, e este “porém” é por demais importante de ser compreendido, o fato de comunistas estarem determinados a destruir a prática da organização familiar que preserva a propriedade privada, não significa que pensem assim quando estão tratando de seus próprios interesses e de suas próprias famílias. Comunistas sabem que acima do poder econômico está o político, ou seja, a capacidade de dar ordens às massas e de tais ordens serem cumpridas. Para isso, precisam dominar a lógica no jogo de poder, e a família que é o alvo, vira instrumento essencial entre eles, pois é preciso ter a preservação de uma ordem dinástica, tanto do ponto de vista político, assim como de natureza econômica, mantendo a regra da herança para si mesmos, e apenas a si mesmos. Não é à toa que líderes de regimes políticos mais impactantes e grandes agentes econômicos aliados às maiores pautas socialistas e globalistas, estabelecem estruturas muito bem fixadas em uma ordem um tanto familiar de sucessão da herança. Basta observar a dinastia socialista na Coreia do Norte, o poder preservado pelos irmãos Castro em Cuba e as tradições de filhos de políticos em inúmeros culturas pelo mundo. Não é surpreendente que elites políticas querem arruinar células familiares no intuito de implodirem estruturas de propriedade privada, mas apenas dos outros, digo, da massa de seus governados, e não as deles, obviamente. Neste intento perverso de degeneração social, tudo o que provoca abalos na organização familiar é incentivado, sobretudo através de “políticas públicas”, em nosso tempo de estado democrático de direito, por legislação e, sobretudo, pelo aparelhamento do judiciário, envolvendo reconhecimentos jurisprudenciais para “novas” formas de relações (que são, na verdade, primitivas) envolvendo poliandria e poligamia, o que atualmente ganhou o rótulo de “poliamor”, e o que me parece recente, como “ideologia de gênero”. Na guerra cultural, socialistas ocupam espaços no judiciário, como promotores e juízes, dispostos até mesmo a legislar quando percebem o engessamento do legislativo em função das pautas de destruição familiar que estão determinados.

O estímulo ao “sexo livre”, mais uma vez, consiste no diversificado leque socialista na guerra contra a propriedade privada. Ocorre que prover desarranjos familiares em massa envolve um problema crítico por uma relação direta dessa apologia com a militância em favor do ponto que considero mais importante nesta breve reflexão: a militância de esquerdistas na defesa do aborto.

Permitam-me voltar ao trabalho de Hoppe, citando Ludwig von Mises: “mesmo que uma comunidade socialista traga o “amor livre”, ela não tem de maneira alguma como trazer “nascimentos livres” [8].  Ou seja, o “amor livre”, o “sexo sem compromisso”, tem consequências naturais em nossa espécie, implicando no problema da procriação e seus custos, suscitando questionamentos na essência malthusiana, o que foi, em tese, a causa da falência do comunismo primitivo em torno de um super povoamento nas comunidades tribais, questão que não deixa de ser um tanto contemporânea em economias subdesenvolvidas, podendo atrapalhar o processo de manutenção de poder por crises econômicas relativamente evitáveis, mas o que pesa mais, a meu ver, consiste na resistente cultura de responsabilidades mediante a prática da herança que se origina da prática familiar.

Família significa uma ordem de responsabilidades e mútuo cuidado entre membros coligados moral e economicamente; são células que dão a base do tecido social a partir da “revolução neolítica”. Aqui me lembro de um termo que me chamou bastante atenção nos tempos de seminarista: A família, no contexto bíblico israelita, requer o “go’el”, ou seja, o líder protetor, “pai” ou o “chefe” para assumir a gestão e as responsabilidades compartilhadas por uma instituição de descendentes, ou seja, remete a uma forma de ordenamento social com base em responsabilidades individuais e coletivas que se perpetuarão por filiação parental; trata-se de uma cosmovisão que se choca com a ética socialista da coletivização, seja em torno de um aparato estatal, seja na forma de “comunas”.

Não é fácil destruir, mesmo entre governados regidos por um processo de imbecilização tão acelerado como observo, a prática de uma instituição tão arraigada desde os tempos primitivos quando o homem se organizou como agente econômico privado, como é o caso da família, ainda mais quando há instituições (cristãs) que, mesmo aparelhadas, resistem fortemente ao processo e então, em meio à  “guerra cultural”, qual seria o procedimento “legal”, através da principal ferramenta de controle social – o estado democrático de direito – para reforçar o êxito do processo de degeneração da sociedade a partir da contaminação da “célula mater”, de maneira que se encontre um jeito politicamente correto, na ótica estatista, para descartar o maior efeito de relações sem base no compromisso da família; refiro-me aos desdobramentos naturais do “amor livre”, fora das responsabilidades que os tradicionais vínculos familiares estabelecem. Que instrumental seria esse? Resposta: a disseminação do aborto, deliberadamente banalizado para fazer com que a irresponsabilidade se torne massiva e degenerativa na sociedade.

A militância pelo aborto, na mentalidade revolucionária, não se trata de um esforço “humanitário” ou “médico”, de almas caridosas supostamente preocupadas com a figura da mãe, especialmente quando diante de dificuldades para se ter a criança, em meio a diversos problemas, sejam de ordem econômica ou de saúde; abortistas querem a banalização do aborto para estimular o desapego generalizado por responsabilidades que a cultura de família significa na organização da sociedade. Abortistas querem forjar uma geração de indivíduos irresponsáveis e insensíveis ao que significa o aborto, operando pela eliminação da consequência do hedonismo que apregoam; querem uma base para o “amor livre” ser intensificado como ferramenta de degeneração de células familiares, e se legalizar o assassinato de bebês, não haverá qualquer constrangimento em nome da “causa” no subterfúgio do “direito” da mulher escolher o que fazer com o seu próprio corpo, como se a vida que segue no ventre fosse uma coisa totalmente desprezível.

A vida é um mero detalhe descartável na mentalidade dessa gente. Chame um abortista de abortista e, quase sempre, ele ficará irritado por ser chamado do que realmente é: um criminoso contra a humanidade. Além do aspecto moral, bioético, penso que quando quebramos o ciclo natural da vida nos seus ambientes nativos, ficamos sujeitos às consequências. Quando poluímos rios, mares, desmatamos florestas… Muitos chamam consequências de tais intervenções humanas de “desequilíbrio ambiental”. É um termo técnico para designar o resultado do homem agindo indiscriminadamente sobre o meio natural. Isso ocorre porque a natureza é um sistema de partidas dobradas; em toda ação, há reação.

Embora muitos sejam vistos concomitantemente defendendo pautas ecológicas, abortistas agem como se o ser humano não fizesse parte da natureza. O aborto é uma violação de uma ordem natural que está em nós; é um ato infeliz, impróprio, de quem se porta como se fosse Deus, se achando no direito de decidir soberanamente quem deve viver ou morrer e isso traz inevitáveis consequências materiais e imateriais. Mulheres que abortam sofrem danos físicos e psicológicos. Somos pequeninos diante de tais reações enquanto variáveis dentro da lógica da natureza. Todo abortista comete o erro fatal de banalizar uma relação profunda com o grande mistério que nos torna humanos, filhos de um milagre chamado vida.

A solução para evitar que se chegue ao aborto está posta na história da civilização: a família, núcleo de organização essencial para uma sociedade de indivíduos determinados a assumirem suas responsabilidades como seres humanos sujeitos às leis da  natureza, servindo para conter danos sociais que se estabeleciam com o “comunismo sexual” dos primitivos. Quando o “estado democrático de direito” serve de instrumento para disseminar o aborto, se torna evidente como elemento para decadência da humanidade.

Por fim, a militância do aborto é um esforço de engenharia social para desconstruir responsabilidades tradicionais da privatização advinda da cultura familiar, visando inserir em seu lugar um relativismo humanamente inaceitável, em favor do estabelecimento de um projeto político e revolucionário de poder.

 

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Notas:
1. Der Ursprung der Familie, des Privateigentums und des Staates. Página 38;
2. Etnólogo e evolucionista americano (1818-1881;
3. Instituições de Israel no Antigo Testamento, Ed. Teológica, 2003. Página 41.
4. Apresentado por Thomas Malthus (1766-1834) na obra “Ensaio sobre o princípio da população”.
5. Uma Breve História do Homem. Ed. LVM, 2018. Página 70.
6. Na obra mencionada na nota 3, página 43.
7. Na obra mencionada na nota 5, página 71.
8. Na obra mencionada na nota 5, página 69.

 

 

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