Compartilhar

 

Entre os presidenciáveis, Ciro Ferreira Gomes é, a meu ver, o que mais se aproxima da tradição fascista brasileira debutada por Getúlio Vargas nos tenebrosos anos do “Estado Novo” e que opera  fortemente no imaginário popular mediante a crença no estado corporativo.

No entanto, se pode questionar, por um purismo ideológico ingênuo, que Ciro Gomes e sua sigla deixam a desejar como sucessores do getulismo, mediante ligações estreitas do PDT com o Partido Comunista da China (PCCh) [1], pois quando se fala em Getúlio Vargas, logo se faz alusão ao histórico anticomunismo do ditador do “Estado Novo”. Fato é que o PDT atua com o PCCh inclusive nas bases da “Juventude Socialista” [2].

Para quem passou por vários partidos e tem o oportunismo como principal característica na trajetória política, nada mais natural de que onde Ciro Gomes estiver, o que predomina na agenda da esquerda, estará ao seu lado. Mesmo assim, vejo muitos eleitores dele surpresos quando descobrem a aliança pedetista com comunistas da China. Isso significa que Ciro Gomes é apenas mais do mesmo dentro do paradigma atual dos movimentos de esquerda mais relevantes, e isso pode ser compreendido quando se considera que o comunismo do século XXI está distante do comunismo da era Vargas.

A arte do possível fez o comunismo se tornar parte de uma agenda fortemente arraigada no capitalismo de estado. Ciro Gomes e o PDT estão dentro dessa agenda, voltada a uma visão do capitalismo em favor do globalismo do século XXI: Eis o mínimo que é preciso saber. Se é fundamental ter ciência em quem e em quê realmente se está votando, digo, o  “deus que falhou”, aquela coisa degenerada chamada democracia,  vive da ingenuidade de muitos vão às urnas cheios de esperança com velhas ideais de intervencionismo, que fracassaram inúmeras vezes, em torno de projetos políticos que escondem outras intenções, bem distantes do discurso corporativo, inclusive o nacionalista.

[1]

 

 

[2]

Os tempos são outros, mas o getulismo, onde Ciro Gomes tem seus apelos no programa de governo, lhe serve de excelente guarida. O fascismo está no DNA: Vargas bebeu na fonte de Mussolini dos anos 1920, chegou ao poder no fim da Republica Velha no Brasil, na década seguinte, e estabeleceu várias bases do estado brasileiro que resistem até nossos dias; a CLT, o sindicalismo, o paternalismo, a Justiça do Trabalho, as grandes empresas estatais e a cultura de regulações do estado sobre a economia. Apesar de adotar políticas de controles sociais similares às de regimes socialistas mais extremos em seu tempo, sendo o nazismo outra derivação bem mais radical do socialismo [3], Vargas acabou sendo aclamado como um grande líder de uma política menos dramática que o fascismo e o nazismo, que protagonizavam em um cenário bélico, porém o getulismo não deixou de ser totalitário. Igualmente anticomunista, a ditadura de Vargas soou como um canto de patriotismo para um povo vulnerável. Foi o “pai dos pobres”, do protecionismo, do estatismo e das regulações, sobretudo em setores considerados estratégicos, tais como os de energia e mineração.  Ciro Gomes é seguidor dessa tradição política, poderosa no Brasil, compondo uma esquerda que gosta de chamar de fascista todos os defensores da liberdade do indivíduo, entre conservadores, libertários e liberais clássicos em economia.

Voltando ao anticomunismo nazifascista dos anos 1920-1940, de onde também se explica a repugnância de Vargas aos comunistas, tal fenômeno ocorreu por uma divisão entre marxistas e simpatizantes de ideais do socialismo. No lado comunista não cabiam nacionalismo e se pregava a coletivização dos meios de produção, enquanto havia dissidentes por uma visão contrária, sobretudo, após o observado na Primeira Guerra, onde o proletariado lutou seguindo a nacionalidade e não a visão comunista, um fato que impactou fortemente dois jovens socialistas que entrariam para a história: Hitler e Mussolini. No entanto, comunistas e socialistas nacionalistas tinham a mesma visão política de planejamento central, o cerne do socialismo marxista. Então, o que sobrou da utopia comunista foi a Alemanha nazista, a Itália fascista e a URSS, para muitos comunista, sem dúvida socialista pelo forte planejamento central da Nova Política Econômica (NEP) com a estatização dos meios de produção, mas que também estava em meio a uma economia com propriedades privadas em pequena escala de produção [4].

Em termos pragmáticos, fascismo e socialismo são visões comuns dentre intervencionismos e que hoje são mais facilmente percebidos quando comparados sem a bipolarização que se deu em evidência no século passado, entre URSS e EUA, fenômeno geopolítico que ocasionou em enorme confusão de entendimento sobre as relações íntimas entre fascismo e socialismo o que, por sinal, serviu para a disseminação da “estratégia das tesouras” nos regimes democráticos de economia de mercado.

Entendo o fascismo como uma adaptação pragmática de ideias coletivistas organizadas no socialismo marxista. Foi o socialismo possível, não mais pautado  na extinção da propriedade privada dos meios de produção e sim em meticulosos controles sociais, virtualizando a posse privada de meios produtivos, enquanto promotora de privilégios entre determinados agentes econômicos (empresários “amigos do rei”) por um jogo de trocas de favores, forjando o “capitalismo” estatal, também chamado de “compadrio, “laços”  ou de  “terceira via”; termos que me remetem à definição de “metacapitalismo” [5], feita por Olavo de Carvalho que, no artigo “A vitória do fascismo” [6] sintetiza essa relação simbiótica mais comum do que muito imaginam, ao afirmar que “não espanta que toda tentativa de fusão entre capitalismo e socialismo resulte numa contradição ainda mais funda: quando os socialistas desistem da estatização integral dos meios de produção e os capitalistas aceitam o princípio do controle estatal, o resultado, hoje em dia, chama-se “terceira via”. Mas é, sem tirar nem pôr, economia fascista”. Olavo de Carvalho ainda menciona neste artigo que “ideologia”, já definia o velho Karl Marx, é um “vestido de ideias” em torno de objetivos que nada tem a ver com ideias” [7].

A relação estreita do PDT de Ciro Gomes com o PCCh é apenas mais uma evidência de que os objetivos de poder não são pautados por qualquer purismo ideológico. Da mesma forma se pode entender a relação do partido e do próprio Ciro Gomes com uma organização internacional de extrema-esquerda, pensada para ocupar o poder na América Latina e promover a integração socialista: o Foro de São Paulo.

Se  o comunismo não passa de um discurso para imbecilizados que acreditam em Marx, o fascismo é o caminho; está vivo e operante. É uma grande congregação que se apropria de estados nacionais, formada por socialistas assumidos, magnatas e de outros grupos de poder mais comedidos que preferem ser chamados de “sociais democratas” ou até mesmo “liberais”; muitos aprenderam antes, outros tantos durante a queda do Muro de Berlim e no fim da URSS, sobre uma verdade simples: não dá para bancar projetos socialistas com uma economia planificada, ou seja, sem um ambiente produtivo relativamente de mercado, capaz de viabilizar o “cálculo econômico” pelos preços. O que no socialismo fica impossível de ser feito, se trata de um problema suscitado de forma inédita por Mises [8] ainda em 1920, antes do nazismo e do fascismo chegarem ao poder na Europa.

O que o fascismo do século XXI tem de diferente em relação ao fascismo que nasceu no pós Primeira Guerra é a convivência com comunistas que se renderam ao fato de que o capitalismo é a economia, ou seja, uma ferramenta essencial que deve ser preservada para viabilizar a política; o socialismo, desde que o econômico seja “regulado”, claro, para atender a interesses (sempre espúrios) de poder a ser perpetuado entre as elites financeiras e políticas. Então, não me admira que um partido de esquerda que se ufana fazendo teatrinho  em torno da deificação de Vargas, como é o caso do PDT, esteja em uma aliança com comunistas de uma China que entendeu o problema levantado por Mises há quase 100 anos. Tais parcerias são mais atualizadas  quando se pensa em extremos com Cuba e Venezuela.

Então, a dialética entre o capitalismo e o socialismo é o fascismo. Entendo que a melhor síntese sobre esta comovisão não está na famosa frase, atribuída à Mussolini, “Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado”. Embora seja uma excelente síntese, para se entender a base da mentalidade fascista e os políticos da atualidade que estão em evidência, prefiro uma outra usada por Hayek, na abertura do capítulo quatro de “O Caminho da Servidão”. O erudito economista austríaco cita uma declaração de Mussolini que explica bem o significado da doutrina que o ditador italiano chamou de “fascismo” [9]Fomos os primeiros a afirmar que, quanto mais complexa se torna a civilização, mais se deve restringir a liberdade do indivíduo”, resumindo uma visão de mundo onde a condição de indivíduo vira alvo do coletivo através do estado, o aparato de compulsão e coerção como instrumento de poder puro.

Não me surpreende então que as ideias de Ciro Gomes sejam extremamente fascistas, centrando radicalmente a economia privada no estado, vendido como o principal motor para relações sociais e econômicas, sob velhos apelos para “retomada do investimento público”. Não me admira que Ciro Gomes tenha em mente fortalecer ainda mais o maior vetor da corrupção no capitalismo de laços operante no Brasil – o BNDES – tendo “papel preponderante no financiamento do desenvolvimento” [10], como afirma seu plano de governo, que se resume a uma só coisa: intervencionismo, intervencionismo e intervencionismo. É um grande resumo de velhas práticas da política brasileira dentro da tradição getulista, maquiado para ser apresentado como se fosse uma alternativa inovadora para um público que não sabe o quanto foi educado no fascismo.

Sobre a proposta em torno dos negativados no SPC, se trata de uma transferência de uma dívida de subprime, que diz respeito ao setor privado, para bancos públicos. Uma aberração que vai favorecer os bancos privados na recuperação de um crédito muitas vezes duvidoso e expor os estatais; parece-me um caso de reflexão sobre moral hazard onde indivíduos podem fazer de um programa de resgate em massa, subsidiado via contas públicas, o que significa mais custo tributário sobre o meio produtivo, podendo gerar uma cultura de estímulo ao calote premeditado, para forçar uma troca de “perfil de dívida” com o custeio socializado, além de se pautar o problema nos sintomas do endividamento e não nas causas. Para uma população onde é comum encontrar quem pensa que o saldo disponível no cartão de crédito e no cheque especial é recurso próprio, confundindo crédito com riqueza pessoal.

Ciro Gomes é o típico caso que me proporciona uma grande “utilidade” para identificar, entre seus entusiastas:

  1. Um indivíduo totalmente ingênuo (para não dizer “idiota útil”), muito bem condicionado ao getulismo, sem ciência do quanto é socialista e se acha um “diferenciado” por não votar em Lula, e combater o PT dentro da “estratégia das tesouras”. Envolve também um tipo comum no Brasil, até bem intencionado, muitas vezes romântico, quase sempre nacionalista, adorador do estado, crente que a prosperidade privada fica melhor através de controles sociais do governo, por meio do aparato político. O PDT servirá tão-somente como “instrumento” dentro de uma imensa cadeia de manipulação encabeçada pelo PT-PSDB-PMDB;
  2. Um profissional da política, normalmente um candidato ou militante de olho nas mamatas do poder. Um tipo canalha que quer viver à custa dos outros. É aquele sujeito bon vivant, simpático, de imensa lábia, muitas vezes universitário bem versado em falar sobre “políticas públicas” que, traduzindo, é, “quero meter a mão no seu bolso e é pela democracia que vou conseguir!”.

Outro ponto é que não se deve levar a sério um sujeito, como Ciro Gomes, que fala de uma forma onde se confunde passivo com despesa, quando se refere ao serviço da dívida pública. Essa ignorância contábil propagada pelo pedetista é um desserviço à sociedade em torno do entendimento sobre o orçamento público e o sistema de financiamento da máquina estatal. Tenho minhas dúvidas se ele propaga essa sandice por ignorância pessoal ou, sabendo da verdade, o faz por pura maldade para manipular a massa.

Por fim, pela educação fascista em que se encontra predominantemente a sociedade brasileira, o discurso de Ciro Gomes sempre terá fácil aceitação. Pode até mesmo ser interessante a outros eleitores com visões coletivistas; refiro-me aos aficionados de Bolsonaro que se dizem anticomunistas e defendem pautas nacionalistas que contradizem o discurso em favor da economia de mercado, assim como eleitores de Lula, pois todos estão acometidos de uma epidemia nacional, o fascismo do século XXI, inaptos à compreensão do significado do termo, enquanto são manipulados nas velhas e sempre eficientes “tesouras” do globalismo.

______________

Notas:
  1. Ver PDT e Partido Comunista da China debatem candidatura de Ciro e fortalecem parceria e PDT assina convênio com Partido Comunista da China (PCC)
  2. e Ver JS visita Embaixada da China, em Brasília, e aprofunda relação de parceria e amizade
  3. Sobre as similaridades do fascismo com os regimes socialistas, ver “O Caminho da Servidão”, de Friedrich August von Hayek.
  4. “Também era permitida a empresa privada numa produção em pequena escala, bem como a venda a varejo. As empresas estavam passando para o sistema de contabilidade de custos.” Mikhail Gorbachev, em Perestroika, na nota 2, página 126, se referindo a implantação da Nova Política Econômica (NEP) em 1921. A NEP foi implementada para um período longo
  5. Ver artigo “Os amigos da onça”, de Olavo de Carvalho, publicado no Diário do Comércio em 01/10/2007.
  6. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Ed. Record. 2017, página 133.
  7. Na obra mencionada na nota anterior, página 134.
  8. O cálculo econômico em uma comunidade socialista, de Ludwig von Mises. ED. LVM, 2017. Foi originalmente publicado em 1920, em alemão.
  9. Do italiano, fasci, significa “feixe” que remetia a uma antiga tradição romana do feixe de lenha amarrado como símbolo de união, força. O fascismo se apropria de um senso comum de que “juntos somos mais fortes”, como o feixe que resiste muita mais que apenas um galho sozinho, para canalizar os sentimentos coletivistas à  formação de um estado forte, expansionista, absoluto sobre os indivíduos.
  10. Ver 12 passos para mudar o Brasil

 

Comentar pelo Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *