Filiei-me ao Partido Novo [1] em novembro de 2015. Foi um ato sem esperança. Para entender o sentido, sugiro Nietzsche.

Não contribuo com o Novo porque espero que o partido mude a política. Não acredito no “vota que muda”, no sentido de que a política pode evoluir eticamente. A política costuma mudar, para pior, sempre.

A fé na coisa degenerada – democracia – sobretudo, sob grandes arranjos políticos é para os que acreditam na transformação do mundo pretendendo gastar bem – “democraticamente” – o que é tomado à força dos outros, diga-se de passagem, “outros” que são tratados como retardados, incapazes de cuidarem de si mesmos, mas “habilitados” para escolherem, através da democracia, quem os tomará conta, acerca de quase tudo que pretendem se conduzir na vida, submissos a um aparato de coerção.

Para quem crê em um mundo melhor, com mais altruísmo social, recomendo um centro espírita, uma ONG, uma igreja; espaços bem mais apropriados quando se pensa em ações coletivas onde o amor à nossa condição humana é coisa sagrada, e não cabe coerção; é a vontade de fazer o bem que move as pessoas.

O Novo tem uma visão um tanto diferente em relação ao coletivismo fascista operante no Brasil quando trata de priorizar o indivíduo, e isso foi o que me atraiu; e só isso.

Não é de se admirar que a realidade do “mundo da vida”, que ser entendida pela cataláxia [2], e as “velhas raposas” politiqueiras, vilipendiam de tais amantes da “coisa degenerada”. A cataláxia porque trata da natureza que impiedosamente está nos homens. Já a economia, para as “velhas raposas”, é o viés daquela “condição” nefasta;  saber economia para essa gente é apenas um recurso para se ter melhor desempenho no exercício pleno da política, entenda-se por política, demagogia, a arte de se conhecer bem uma verdade para poder manipular visando interesses moralmente espúrios, bem camuflados pela democracia.

Respeito quem tem esperança pela política e crê na democracia, mas, na minha visão, pelo âmbito estatal, se trata de uma atividade onde a liberdade é confundida com uma “ditadura da maioria”; é na verdade uma oclocracia e dessa condição se torna uma larga via para explorar problemas em uma base moral deturpada, quase sempre propositalmente inviáveis, porém tratados como se fossem exequíveis por quem tem como ofício, vende-la sem correr o risco do empreendimento sobre o próprio patrimônio. A política é uma forma de se fazer negócios onde o agente operador não coloca sua pele em jogo, como acontece no genuíno “capitalismo”. 

O Brasil percorre um caminho socialista muito difícil de ser revertido, sobretudo através da política, como um inferno de Dante; é tenebrosa, podre, corrupta e promíscua. Isso não quer dizer que o Novo não tenha potencial para fazer parte de forças liberais que possam retardar certas iatrogenias de uma cultura socialista de economia fascista. É algo do tipo “pior é não fazer nada” quando olho para o cenário que representa uma constante exposição a ameaças contra a civilização, pela forma como o estatismo se entranhou na cultura brasileira e pelo mundo. Não se então, o Novo, de uma iniciativa para transformar a política; o conceito é impróprio, penso, mas é por demais necessário para marcar resistência. Isso está longe de significar meu endosso a determinadas ideias do partido. Desejo assim que o Novo perturbe a política, a deixando instável, agoniada, ridicularizada, com vísceras expostas.

 

Em uma mentalidade de investimentos em derivativos, o Novo faz parte de minhas “opções”. Fundado em 12 de fevereiro de 2011, obteve o registro definitivo no TSE em 15/09/2015. Trata-se de um partido que defende algumas ideias liberais em economia. A priori, dizem, se situa à destra da cultura política brasileira; não penso assim. Para ser de direita, o Novo teria que ser um partido com viés conservador nos costumes; não percebo essa pretensão. O único movimento de direita brasileiro bem definido, não é um partido e não tem a principal liderança estabelecida no Brasil; está em torno do filósofo Olavo de Carvalho e dos seus alunos, intelectualmente bem preparados. O resto não faz diferença. Olavo não gosta de libertários, mas eu gosto dele…

Então, mesmo aquém de minhas expectativas libertárias e conservadoras, resolvi contribuir com o Novo. Aos que salientam as raízes do partido com banqueiros em mais um “projeto de poder”, isso não me comove. Quem quiser esse tipo de santidade, precisa se alienar da matéria, se filiar a algum partido progressista para tentar implantar um paraíso na terra. Se almejo um mundo melhor, me cabe esforço pessoal a partir de minha condição como indivíduo, assumindo responsabilidades e defendendo a liberdade que a completa. Compreender e ajudar o Novo são coisas cabíveis nesse contexto.

O Novo tem boas pautas, outras tantas que precisam ser melhor avaliadas. João Amoedo cresceu nas pesquisas, mas algo merece maior atenção: sua ingenuidade com as coisas do globalismo [3]. Outro ponto que lamento é que ele ainda se mostra distante de propor uma séria discussão na sociedade em torno da Constituição de 1998. Porém, em meu “balanço de riscos”, vale a pena insistir em uma instituição que combate, mesmo que de forma rudimentar, um tanto atabalhoada, formas de estatismo; o Novo ainda merece ser tratado naquele adágio de se tomar cuidado para não jogar “o bebê com a água do banho”.

Libertários do brutalismo jamais compreendem essas coisas.

Não tenho o perfil de me conformar com discursos corporativos. Reprovo certas ideias de Amoêdo que não passam de práticas socialistas. Então, vai um exemplo:

 

 

[4]

Costumo brincar dizendo que um autêntico austrolibertário é aquele que consegue unir eleitores de Lula, Ciro Gomes, Amoêdo, Alckmin, Marina e Bolsonaro em torno de uma causa. Para isso, basta chama-los de “socialistas” e… Prepare-se para ser trucidado!  Todos ficarão furiosos com a associação direta entre estado e socialismo. Fiz alguns experimentos e atestei que esta insana teoria funciona. Direitistas, liberais e neoliberais se sentirão ofendidos com o conceito de “estado mínimo” sendo tão deturpado, e a turma da esquerda se irritará porque prefere o rótulo, embora conheço esquerdistas que também têm vergonha de serem chamados de socialistas. Já a turma do centro finge que não é com ela, como de costume.

Todos são socialistas, de acordo com suas conveniências… Minha insanidade sincera diz que toda ideologia que propõe modelos de tomada de recursos para redistribuição, ensejando planejamento central, onde inevitavelmente se situarão as políticas de vouchers e renda básica, não é outra coisa senão defensora de uma modalidade de socialismo, apesar dos velhos eufemismos como o que se apela ao conceito de “imposto negativo”, do tão estimado Milton Friedman, o mesmo liberal que deu a ideia do imposto de renda na fonte. Sim, o Friedman tão badalado em nosso tempo.

Entendo que tudo não passa de tentativas de mascarar algo simples de ser identificado: O estado democrático de direito funciona para operar muito além do que os clássicos pensadores entendiam sobre o liberalismo, sendo o paradigma do planejamento central, um instrumental socialista. Embora Adam Smith entenda o estado como indispensável para manter a ordem e preservar a propriedade privada, assim como o maior referencial da Escola Austríaca (EA), Ludwig von Mises que, o definindo como “aparato de compulsão e coerção”, também o entendeu ser necessário para preservar a ordem, protegendo a propriedade privada de pilhagens. Nunca é demais lembrar que esta polêmica em torno do estado agindo sobre a economia de mercado, provocou enormes desgastes dentro da própria EA, envolvendo Hayek e Rothbard [5].

Sobre as propostas de voucher, do Novo, quando me vem à mente a ideia, penso imediatamente no problema comum de todo planejamento central derivando em torno do “cálculo econômico”. Como definir o valor do voucher mediante as características de cada (micro) região, levando em conta de que se trata de algo análogo ao “bolsa família”, no entanto, restrito a um tipo de consumo? Quais os impactos desse processo na formação de preços entre os agentes ofertantes de bens e serviços no mercado? Seria apenas um “probleminha” de menor envergadura perto do que o estado é também gestor e regulador dos serviços… Por isso, muitos liberais enxergam a política de voucher como menos ofensiva, quando deveriam ver o lado operacional e mercadológico em ermos de efeitos microeconômicos. Discordo da política de voucher porque tem potencial para virar estratégia de mais intervenção cultural nas mãos de esquerdistas que aparelharam o estado, sob o pretexto do repasse de recursos, “justificando” mais intervenções regulatórias sobre as entidades privadas, servindo de pretexto para mais controles sociais sobre empresas educacionais. O pessoal do Novo que defende a ideia, parece ignorar isso.

Ser austrolibertário para mim não tem nada a ver em sair por ai tentando convencer as pessoas a seguirem minhas doutrinas. Sou do tipo Nietzsche neste aspecto: não quero crentes. Não penso em um “Novo libertário”. Pessoas se descobrem como libertárias e a visão da EA se torna um caminho comum. Ser austrolibertário, entendo, significa estudar formas para se viver por livres trocas, sem dependência e/ou interferência de governos públicos (estatais), sem adotar uma lógica binária e auto excludente de que se você não for mesma turma  ideológica, não será recebido em minha “sala de estar”.

Não tenho a pretensão de ser inspiração política para ninguém mediante minhas ideias libertárias. Por essa linha, prefiro conviver em discordâncias com estatistas/socialistas do Novo ou qualquer outro partido que se proponha a tentar ser “liberal”, tendo disposição para entender seus posicionamentos em um mundo cheio de alternativas, evitando me fechar em um determinismo onde muitos libertários costumam adotar, por sinal, análogo a militância marxista e muitas vezes, de forma infantil.

O que considero óbvio, porém necessário sempre de ser mencionado: se o que quero para mim,  pode não ser válido para os outros, valores comuns devem ser identificados e trabalhados; tal constatação me impõe a busca de uma ética para interagir com realidades múltiplas além de minhas convicções, em um esforço que deve ser exclusivamente pessoal.

Ao ser um contribuinte do Novo, não me sinto ofendido em ser chamado de “gradualista” por quem não oferece experiências que indiquem amadurecimento das teses que defende. Minha vida profissional foi construída como autônomo e crítico das intervenções do governo em meu ambiente laboral, e isso por si só me serve de referência.

Em outras palavras, o Novo pode me ser útil diante do mal que o estado me causa; neste aspecto, filiei-me pelo mal afamado egoísmo, tão inerente à minha espécie, que nos mantêm vigilantes nas coisas fundamentais da existência, e para quem acha que essa evidência exclui o altruísmo, a caridade, a compaixão com nossos semelhantes, sempre me parece oportuno pensar em como posso me oferecer para cuidar dos outros se não dou conta de mim mesmo?

Como austrolibertário, estou no Novo para defender ideias antissocialistas e fazer oposição a todo tipo de pauta globalista e progressista. 

Contribuir com um partido não significa estar de acordo com todas as ideias propagadas pela instituição. Defender o papel do indivíduo e da liberdade, que todos devem ser tratados sem privilégios (no âmbito das regulações estatais não passam de coisas ingênuas, a meu ver), além da defesa do livre mercado, tema que me ocupa intensamnte, são bandeiras que me atraem a uma agenda com a instituição “Novo”.

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Notas:
  1. Partido Novo. Site Oficial: http://novo.org.br/
  2. Teoria da Economia de Mercado. Ver Ação Humana, de Ludwig von Mises.
  3. Partido Novo. Site Oficial: http://novo.org.br/
  4. Ver vídeo do Bernardo Küster: PARTIDO NOVO, AGENDA VELHA. 
  5. Entrevista completa: https://www.youtube.com/watch?v=FFGbHl95MG
  6. Ver artigo de Fernando Chioccha quando fazia parte do Instituto Mises Brasil

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