Coraticum, do latim cor (coração) e aticum, sufixo que indica ação relacionada ao termo (radical) anterior. Da etimologia à epistemologia, coragem definida em imagens transmitidas da Praça Celestial, em 1989, na forma nua e crua.

Não se sabe do paradeiro do incrível homem que desafiou uma fila de tanques guiados para intimidar estudantes que protestavam contra o governo, na China. Meus heróis da Marvel perderam a graça.

Coragem, uma coisa humana, demasiadamente humana.

Anos depois, aquela cena me veio ao pensamento quando ouvi falar de um “Super Homem” sem super poderes. Ouvi um tal de “übermensch” [1], uma forma de entendermos a encarnação da coragem pelo “além-do-homem” de Nietzsche, termo vulgarmente traduzido por ‘Super Homem”. O “übermensch”  quer voar sobre um abismo; não desiste de atravessa-lo enquanto olha para si mesmo e compreende as dificuldades [2].  Em um “übermensch”, não há espaço para dissimulação, subterfúgios e meias verdades. Não se tem apego por “autoajuda”. Nada de “sete passos para isso ou aquilo”. É preciso se conhecer, temer e superar. O medo está nas entranhas em um mergulho no “mundo da vida” e o “além-do-homem” não parte de um pressuposto de superioridade física, moral, cultural ou racial, mas, sobretudo, para abrir  caminhos além de coisas óbvias moldadas por meio da “supremacia das massas”. O “Super Homem” de Nietzsche está no desbravamento de si mesmo, no enfrentamento da vida, das próprias debilidades enquanto louva fazer parte da natureza e  age sem ser um conformista, sabendo lidar com as coisas como se apresentam. O “Super Homem” sem super poderes, segue para romper fronteiras.

Não se é corajoso enfrentando algo que não esteja além de nossas forças. Não se tem coragem sem que a própria pele esteja em jogo. O nível de coragem é diretamente proporcional ao risco que se corre no enfrentamento de algo. Então, quanto maior for a ameaça, quanto mais profunda for a angústia, maior será a coragem necessária ao  enfrentamento.

Anos se passaram e fui percebendo mais significados para coragem. Percebi que a disposição para correr riscos, em si mesmo, não atesta coragem. Ser frio no agir, subestimando perigos e fragilidades de uma situação dramática, não avaliando riscos, agindo com temor anestesiado, pode ir da irresponsabilidade até uma forma de loucura; não passa de psicopatia. Um louco não é corajoso na medida em que age desprezando o perigo,  sem ter a sensação de medo. Fui entender isso no mercado de ações, pois os bons investidores têm que sentir medo quando estão negociando e combinam esse sensor natural da nossa espécie com a razão, o conhecimento técnico e a intuição, para amadurecer decisões.

Sentir medo é um indicador de sanidade mental essencial no ajuste de processos, nos deixando cientes dos perigos.

Em suma, quem tem coragem tem que sentir medo. Quem tem coragem tem ciência das próprias limitações e decide agir em meio às incertezas, calculando riscos, em temor e tremor, angústia e dor, traumas do passado e anseios no horizonte.

Há quem fale com grande sabedoria sobre a coragem, mas nada fala profundamente sobre o seu significado ao experimenta-la em si mesmo. Não há como compreender mais a fundo a coragem sem tê-la na própria vivência pessoal em meio a fragilidades, na certeza de que em todo enfrentamento envolvendo grandes desafios, haverá dissabores, enganos, derrotas, danos, para que se tenha a vitória. Não existe coragem sem desgaste pessoal, sem que algo precioso esteja ameaçado. Não se pode ser corajoso sem ter o que perder diante da ação de enfrentar o que nos provoca.

Coragem para questionar, duvidar, denunciar, tudo dependerá do preço que se dispõe a pagar pela liberdade de ser corajoso. Ser corajoso é um ato de liberdade e o preço da liberdade está na responsabilidade de assumir as consequências dos atos. Agir sem estar disposto a enfrentar os custos da liberdade é uma negação da coragem.

Muitos confundem a coragem em grandes acontecimentos de poder, quando grandes líderes se apresentam como redentores, mas estão blindados, cercados por um grande aparato corporativo. Não há coragem por trás de escudos de grandes corporações. Antigos reis quando iam para a primeira fila de batalha, encarnavam a coragem para inspirar seus súditos. Alexandre, o Grande, era assim chamado também porque era visto ao lado dos soldados e não dando ordens à distância, como muitos líderes “corajosos” fazem atualmente. Alexandre viveu pronto para morrer ao lado de seus comandados, e não foi por acaso que morreu por um fermento de batalha.

A coragem tem muitos inimigos. O mais comum (e reverenciado) é o politicamente correto, e acontece quando não se questiona o que precisa ser questionado; não se enfrenta o quê ou quem tem poder para oprimir ou fazem imposições, seja por conveniência, omissão ou mero conformismo. Outro grande inimigo da coragem é a política. Vale a provocação em tempo de eleições, pois a política é um negócio onde quem a explora, vive de gastar o dinheiro dos outros e depois, quando dá errado, e quase sempre isso acontece, facilmente se esquiva para colocar a culpa na sociedade. 

Há um outra manifestação de coragem que muito me fascina; é a que vive entre pequeninos, anônimos, que acordam cedo para trabalhar; está na mãe que tem filhos, trabalha fora e ainda encontra tempo para estudar. A coragem está em empreender no país da CLT e da Justiça do Trabalho. É, tem que ter muita coragem para ser empregador no Brasil…

Se a coragem em Nietzsche nos provoca diante do deslumbramento com o sobrenatural, a de Sócrates é radical e está em se expor ao maior de todos os danos: a morte. O cálice de cicuta simboliza até que ponto pode se estar disposto a agir para pagar o preço por algo que amamos. Sócrates foi um amante da sabedoria e por ela enfrentou a morte [2]. Coragem por coragem, nada se compara ao que enfrentou Jesus de Nazaré, o Cristo do Deus Vivo; a coragem encarnada no Getsêmani; momentos antes da prisão e do flagelo:

“E, posto em agonia, orava mais intensamente; e o seu suor tornou-se como grandes gotas de sangue, que caíam sobre o chão”, Lucas 22:44.

Foi a mais profunda angústia que um ser humano enfrentou, pelo testemunho da fé, sabendo o que o aguardava; a morte de cruz, e tudo isso para exercer a mais sublime forma de expressão da coragem: a do perdão. Sim, para perdoar é preciso dar um passo adiante, em favor de quem nos prejudicou.

Quem tem coragem tem medo, fé e, sobretudo, manifesta o que nos torna verdadeiramente humanos: o amor.

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Notas:
  1. Assim falou Zaratustra;
  2. No contexto das críticas de Nietzsche à filosofia clássica, pontuada pela rejeição à metafísica, seria a coragem de viver abdicando de idealismos, de ídolos e quaisquer arranjos abstratos sobre a existência.
  3. Apologia de Sócrates;

 

 

 

 

 

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