Um sujeito que se diz conservador me diz que não aprova (moralmente) a homossexualidade. Eu, que me vejo também como um conservador, devolvo entendendo que a homossexualidade é uma questão de cunho estritamente pessoal, de foro íntimo, e requer uma melhor reflexão conservadora acerca de implicações com a liberdade e a propriedade. E se um gay for conservador?

Ao fazê-lo, percebi que, a priori, a categoria de ser “gay” não me diz muita coisa; em termos humanos, vale tanto quanto a de heterossexual que pode ser alguém tão anormal, perigoso, depravado, promíscuo, desleal, perturbado psicológica e sexualmente, quanto um homossexual. O fato de se preferir sexualmente homem e/ou mulher é coisa irrelevante; não me interessa, fora de minha intimidade, saber preferências sexuais de alguém, muito menos fazer juízo antecipado de tal pessoa em sociedade, partindo de um dado dessa natureza.

No entanto, entendo que, embora eu não concorde com a posição de um sujeito louco pelo 17, que afirma ser “conservador” e não aprova a homossexualidade em seu senso de moralidade, também entendo que o mesmo sujeito deve ter sua autonomia respeitada para expressar esse tipo de opinião, desde que não a aplique para agredir ou incentivar a agressão sobre quem não atenda a seus padrões, invadindo assim uma privacidade, ou seja, indo além de espaços de valores em intimidade, a violentando ou a impedindo de um terceiro viver a vida (sexual) que deseja, acreditando ter legitimidade para restringir uma liberdade. Até mesmo em ambientes compartilhados que acatem uma determinada conduta de teor sexual, não cabe, a priori, qualquer censura se todos (sendo adultos) concordam na forma como utilizarão seus corpos para uma determinada relação no espaço em questão, se bem que é por demais complicado saber em que grau de liberdade um sujeito se encontra. Estou me referindo a pessoas adultas, com nível mínimo de discernimento sobre o que estão fazendo consigo mesmas, e ainda suscetíveis a erros, tendo assim o compromisso de assumir as consequências de seus atos, sejam héteros ou não.

Ofender alguém tomando como base um entendimento (quase sempre superficial), sobre uma conduta enquanto agente sexual, não passa de uma forma de preconceito e nada me sugere que tal indivíduo entenda o que é ser um conservador ao encerrar o assunto sobre a homossexualidade. Mas, o que seria uma ofensa? Afirmar que não gosta moralmente de uma coisa se enquadra nesta categoria? Para muitos educados na cultura progressista/socialista do “vitimismo” e do “mi mi mi”, sim. Por essa burlesca visão de sociedade, o que restaria senão uma geração de melancólicos e fragilizados bocós, incapazes de enfrentar o “mundo da vida” repleto de alternativas e responsabilidades? Eu mesmo sendo libertário e conservador, poderia me desenhar como um condenado a um confinamento depressivo, entendendo estar cercado por “haters” que me “ofendem” por não gostarem do que é (ignorantemente) chamado de “ultra liberalismo”, por supostamente defender a “supremacia do capital”.  As pessoas têm o direito de me ofender, penso, e claro que posso sentir um ataque, me entristecer, faz parte, no entanto, em uma sociedade formada por pessoas vocacionalmente acéfalas com o significado da liberdade,  do tipo “não me toque”, ter pública opinião contrária a algo que se tornou um “tabu” é ato criminoso de ofensa. Certa vez estava em um evento com mais 300 advogados e uma dezena de economistas. Um sujeito ao lado, comentou com um colega de escritório, que “não suporta nordestinos”. Depois, começamos a conversar e ele notou meu sotaque pernambucano, e logo percebi nos olhos dele o constrangimento. Tive que dizê-lo que não me importava pelo fato dele não “suportar nordestinos”; estar em diálogo, naquele instante, tão amigavelmente, representava um grande avanço.

Discriminar alguém pela preferência de vida sexual pode custar muito caro, e não digo isso considerando apelos para leis contra a “homofobia”, tão em moda hoje em dia. Um profissional que seja bem qualificado, ao ser ofendido pessoalmente em uma relação de negócio por ser gay ou lésbica, certamente não ficará apenas em lamentos, pois a vida exige que cada um busque seu espaço ao sol, e então poderá ser aproveitado por quem deseja demandá-lo profissionalmente, sem qualquer outro interesse acerca de sua sagrada intimidade, mesmo se o contratante for reticente à homossexualidade que o contratado aparenta ou confirma, o tomador age assim por saber separar as coisas, de negócios à vida pessoal, se pautando no respeito a relações sociais e contratuais, aliás, outra característica de ser “conservador” em um mundo onde se confunde esta nobre visão da sociedade com coisas como “fascismo” e/ou “extrema direita”. Um autêntico conservador olha para o passado para discernir de onde veio, suas raízes, como chegou até onde se situa, se preparando melhor para as inovações, não desprezando os movimentos dinâmicos na sociedade onde conceitos e fenômenos precisam ser compreendidos. Outro aspecto conservador, de alguém que leva a economia a sério, racionalmente, embora tenha um lastro de moralidade que proporciona o maior sentido, está no juízo que outros interessados farão sobre uma discriminação, pois se um responsável por um estabelecimento comercial destrata alguém, sob forte indício de conotação sobre o que julgou acerca da conduta sexual, correrá riscos mediante potenciais juízos de outros observadores, digo, clientes, que podem reagir positiva ou negativamente ao ato discriminatório. Em uma sociedade onde o ativismo em prol do respeito a LGBTs se tornou intenso, e isso pode ser bom, entendo [1], quem lida com negócios deverá sempre avaliar processos internos em relação a falhas nos relacionamentos profissionais para evitar que questões discriminatórias comprometam o bom andamento das atividades econômicas.

Em termos sucintos: entendo que um sujeito que afirma não aprovar a homossexualidade não deve ser criminalizado por leis civis, mas deve estar pronto para assumir os custos, muitas vezes intangíveis, de sua posição crítica. Afirmar uma posição moral sobre algo considerado polêmico é uma coisa, agredir a quem é visto como agente do fenômeno que supostamente gera a polêmica, é outra. Quem não concorda com a reprovação moral pode simplesmente não dar crédito a quem a promove; talvez possa repudiá-lo, ou que sabe tentar uma aproximação, diria, um diálogo (é sempre bom cogitar tal hipótese em um mundo de neuroses), assim como pode simplesmente evitá-lo de diferentes maneiras, mas impedir que o indivíduo expresse seus valores de moralidade contrários à homossexualidade, usando algum aparato de coerção, especificamente por legislação, é um crime contra a liberdade.

Por isso entendo que padres e pastores têm todo o direito de exercer crítica à homossexualidade em seus espaços comunitários, assim como em vias públicas laicas, embora pessoalmente não concorde com o juízo em si, especialmente quando carregado de um certo radicalismo em função da leitura literal que costumam fazer das Escrituras Sagradas e dos demais códigos de referência moral acerca do problema. Impor censura nisso é outro crime contra a liberdade. No entanto, em um espaço “público”, “pau que dá em Chico, dá em Francisco”; ora, se alguém externa reprovação em relação a algo imaterial, provocando polêmica e/ou constrangimento a quem estava até então quieto e se sentiu ofendido com a opinião, deve estar preparado também para reações, que inclusive podem ser entendidas como resultante de uma agressão. Estar disposto a lidar com reações e consequências da crítica é uma qualidade essencial que cabe a todo indivíduo disposto à atividade crítica. Se um  padre ou pastor faz um sermão com base em Romanos 1:28 ou em sentenças do Apocalipse para condenar gays ao inferno, deve estar pronto para ser taxado de intolerante, assim como receber ofensas; o púlpito é sagrado e a liberdade de expressão como forma de reação, também.

Remeto-me ao dito “casamento” gay. Não me interessa aqui a aplicação do termo, em si, demandar a existência de sexos distintos. O que me ocupa é o fato de que duas pessoas do mesmo sexo, ao formalizarem uma união por afetividade, assumem compromissos que demandam claramente uma demarcação de responsabilidades e posses pessoais, dentro de um padrão de propriedade privada, inclusive sob potencial efeito sucessório, seja no falecimento de uma das partes envolvidas na união, seja na herança que se vai para o(s) dependente(s), ou seja, quase sempre filho(s) adotivo(s) ou concebidos de forma mais planejada, por inseminação artificial (ou não), com a participação de uma terceira pessoa. Percebo uma família sendo formada dentro da liberdade e da propriedade como fatores intimamente ligados, me remetendo a outro aspecto conservador. Homossexuais que são jogados na classificação (sempre preconceituosa) de instrumentos da ofensiva cultural, como indivíduos contrários à família e aos “bons costumes”, se portam como autênticos conservadores quando se dedicam a uma ordem familiar, mantendo certos padrões que são comumente combatidos (na via econômica) no progressismo socialista que almeja coletivizar bens violando ou dificultando a organização de propriedades privadas, sobretudo as famílias.

Gays formam famílias quando se unem como “casais” demonstrando apreço pela propriedade privada (onde reside o papel elementar da família enquanto instituição de ordens moral e econômica) e pela sucessão de bens (mais uma vez a família em processos de herança dando sequência à propriedade privada elementar), assumindo responsabilidades pelo(s) dependente(s), inclusive com conotações previdenciárias (novamente uma demanda tipicamente familiar), além de se portarem como “casais convencionais” também quando juram lealdade (fidelidade) e mútuo respeito na relação afetiva, como ocorre em uma família dita “tradicional”. Gays em união estável, em um espaço privado compartilhado, assumindo responsabilidades de provisionamento com dependentes, compondo um ambiente mais conhecido como “lar”, devem ser respeitados por isso, como toda união heterossexual. Certamente não é uma família dentro da cosmovisão cristã tradicional, e tal entendimento deve ser também respeitado [2], mas do ponto de vista do processo civilizatório, firmado na célula familiar, que tirou o homem da barbárie comunista, sem dúvida é uma ordem privada tanto quanto a de base heterossexual.

Estaria aqui em um pueril relativismo, tentando agradar a todos como mais um “isentão”? Entendo que tudo tem limite dentro de uma ordem natural, considerando que somos seres em constante aprendizado sobre as implicações da liberdade, entre as quais destaco como fundamental, a responsabilidade. Um sujeito que defende e/ou pratica pedofilia, apenas para exemplificar, jamais deve ser tolerado, até mesmo no espaço privado em que pratica tal ignomínia [3], da mesma forma se outro sujeito faz apologia e/ou pratica estupro, ou outrem que agrida (viole a integridade física) de alguém por conta de saber ou estimar acercar da intimidade sexual fora da heterossexualidade, ou seja, atente contra o corpo e a honra de alguém pelo fato da vítima ser ou aparentar ser gay, lésbica, LGBT e demais situações consideradas fora de seu padrão de moralidade, o fato de agir agressivamente em um espaço próprio, nada ameniza ou justifica a gravíssima violação que cometeu. Em todos os casos que mencionei, o crime cometido é de violação a propriedade privada (corporal e mental), uma agressão independe do ambiente (privado ou coletivo), e assim deve ser duramente penalizado pela sociedade mediante uma ordem natural de valores e costumes observados e em sincronia com a extrema relevância do respeito ao que é santificado (separado), privado, inalienável e que vai muito além de posses materiais.

A sociedade que tolera e/ou banaliza a violação da vida, enquanto salutar propriedade santa, privada, especialmente a família e de contratos dela derivados, inevitavelmente se desintegrará.

A homossexualidade não é, per si, um fator que opera contra  o processo civilizatório que se deu da saída do comunismo sexual primitivo, onde os filhos da tribo pertenciam a todos, até às formas de propriedades separadas (privadas) onde a “célula mater” é, sem dúvida, a família, com os descendentes “privatizados”, ou seja, os filhos aos cuidados dos pais ou responsáveis específicos. Quem associa a homossexualidade à destruição da família, per si, ou está desorientado do significado moral e econômico de “família” e o que representa o conservadorismo, sem ponderar  os fatos, não se deixando cair em preconceito sobre os agentes envolvidos, ou age como um (desonesto) militante de direita que se julga (indevidamente) detentor de uma visão conservadora sobre o mundo. Em outras palavras, perdoem-me os ofendidos e os mais puritanos, não vejo nenhuma incompatibilidade, a priori, em um indivíduo ser “gay” e “conservador”.

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Notas:
  1. O ativismo liberal em prol do respeito a LGBTs é importante para a sociedade e não deve ser confundido com o ativismo feito nas vias do estado, que procura impor uma visão de mundo, inclusive em favor de censura a grupos que reprovam a conduta homossexual.
  2. Gays podem procurar organizações religiosas quer reconheçam a união, assim entendo, mas seria uma agressão, impor às igrejas o reconhecimento por leis civis, pois se trata de algo que pode ferir a autonomia de fé, o que é presumível em organizações tradicionais. A fé é um elemento que sempre deve ser respeitado, dentro da ordem civilizatória.
  3.  Se chegar ao meu conhecimento que um indivíduo esteja praticando pedofilia em um espaço privado, é meu dever denunciá-lo imediatamente. Toda argumentação em cima da privacidade do espaço e da intimidade fica relativo à violação a outra propriedade humana que é violada (física e/ou psicológica) contra um indivíduo incapaz de se defender, ainda em formação de personalidade, sem condições de minimamente compreender, muito menos lidar com consequências de um ato que fere sua estrutura pessoal.
  4. Na foto, Russell Kirk.

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