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No antigo Egito, o supremo governante, mais conhecido como “faraó”, era considerado um “deus”, sob o mito da filiação com Osíris. Isso pode soar ridículo ao nosso tempo, mas, se pararmos um pouco para pensarmos, a política e o que se espera dos políticos são coisas que, de fato, estão na esfera do intermediário entre o humano e o divino, ou até mesmo, do próprio divino, como se tomassem a forma humana para salvar a sociedade de suas mazelas.

Atribui-se muitas vezes a políticos, capacidades sobre-humanas. Uma crença que opera de forma quase imperceptível no imaginário popular, acerca de uma ordem superior de redentores capazes de entender e lidar com o que Hayek chamava de “dispersão do conhecimento” na sociedade. Seriam capazes de administrar, por ferramentas públicas, mediante o aparato estatal, incontáveis anseios de uma imensidão de agentes sociais e econômicos, sob uma infinidade de combinações, cada um com seus interesses, subjetividades e idiossincrasias. E políticos se aproveitam dessa crença bestial para viver à custa dos incautos.

Bolsonaro não foge da regra que forja os “messias” (desculpem-me pelo trocadilho) da política, muito embora tenha, pontualmente, ofendido a própria classe que compõe, por um marketing de esperanças encabeçadas em outros tipos fascistas como Lula e Ciro Gomes, além da própria crença que observo em torno dele, formando agrupamentos empolgados em “consertar o Brasil” com uma suposta superioridade moral. Contudo, Bolsonaro quer ser visto como um político “diferente”; de fato o foi quando não se envolveu com o Mensalão e o Petrolão, pelo menos é o que consta nos autos. Em segundo ponto, admite algumas ignorâncias, coisas que políticos costumam fingir que são imunes, sobretudo, em relação à economia. Tudo isso pode ser bom, aparentemente…

Entendo que Bolsonaro “ofende” um pouco o orgulho de políticos porque, além de uma certa sinceridade com a própria ignorância,  seu histórico de conduta não registra casos de corrupção. Então, me concentro na possibilidade dele ser apenas mais um sob “efeito Dunning-Kruger” [1]; supostamente bem intencionado e que, tirando a parte da ignorância assumida, ainda se julga capaz de cuidar de questões por demais complexas, claro, alegando contar com um aparato de técnicos bem versados, diria, cientistas em engenharia social certamente sob minimizado “Dunning-Kruger”. Caso contrário, Bolsonaro e sua equipe estariam exclusivamente na maioria, formada por “profissionais” da política que apenas representam na linha em que discorro no primeiro parágrafo e assim, não passam dos mais infames tipos massificados pelo marketing político, vendidos como “deuses” a incautos, para o enfrentamento de problemas que o agente humano não pode conter, munidos de uma  fé em um sistema de poder coercitivo e centralizador que lida com o aleatório produzindo volatilidades e conhecimentos que fluem sem qualquer chance de controle humano que possa ser minimamente eficiente.

Bolsonaro, no último debate na GloboNews [2], demonstrou, pelo discurso, ter certa humildade quando fala de suas conversas com Paulo Guedes e outros profissionais de economia. Outra coisa que pode ser boa. Confessa que não domina a área e estar disposto a ouvir. Estaria também aberto para aplicar as sugestões de Guedes? Digo “pelo discurso”, porque na minha visão, político falando não vale absolutamente nada; é preciso ver a conduta efetiva sobre o discurso para crer, e essa regra que uso vale sempre. Todo político é culpado até que se prove o contrário…

No entanto, o mesmo Bolsonaro que diz ter certa disposição para ouvir e se orientar sobre áreas que não tem o mínimo saber, e são muitas, incontáveis, também é o mesmo que mantêm a mentalidade estatista do aparato governamental regulando setores diversos da sociedade, onde está a educação, apenas para mencionar um dos pontos “sagrados” de todos os candidatos. Ninguém abre mão do Ministério da Educação, ou seja, não há a menor chance de algum candidato que se apresente como “novo”, propor extingui-lo. Todos são socialistas, cada um conforme suas conveniências. Ninguém quer discutir a Constituição de 1988, a extinção do SUS, o fim da CLT; não vejo candidato propondo cortar regalias no funcionalismo público e no Congresso, também não observo propostas para acabar com o BNDES e o FGTS, entre tantas outras aberrações que só a política impõe, com seus redentores paupérrimos de uma ética que possa fazer com que não se passem por coisas que não são.

É o mesmo Bolsonaro que se apresenta como um líder cujo governo pode “tirar o Brasil do buraco”; pois foi essa expressão que ele usou para se referir à situação do país. O Brasil está no “buraco”? Muito cuidado com esse tipo de expressão: Qual Brasil o candidato Bolsonaro se refere? O Brasil real ou o oficial? O Brasil de indivíduos trabalhadores e criativos, ou o Brasil burlesco, arcaico, da “ordem e progresso” positivista na Bandeira, de declaração à Receita Federal? Na verdade, sendo mais do mesmo, nada me surpreende que Bolsonaro ignore que o grande “buraco” do Brasil esteja centrado na política e no estado, e não na sociedade em geral, onde está o outro Brasil, que vive constantemente ameaçado. Trata-se de uma sociedade que consegue produzir, pelo agronegócio, comida para quase uma China (1,3 bilhão), além de abastecer a si mesma, não pode ser confundida com o tal buraco onde Bolsonaro diz que o Brasil está. Quem acha que o Brasil está no “buraco”, não sabe que temos uma pujante economia dita “informal” crescendo em paralelo a “desocupação” nas estatísticas do governo federal. Há trabalho para todos os níveis de capital humano no Brasil fora do alcance da formalidade estatal, mas o mesmo não posso dizer sobre o Brasil da “compliance” com o fisco.

Também é o mesmo Bolsonaro que não consegue se desligar do mito que o Brasil era próspero e sustentável com os militares entre 1964-1985. A verdade que constrangeu os jornalistas da Globo, de que Roberto Marinho apoiou o “golpe” de 1964, foi o ponto mais elevado da sabatina que entrará para a história dos vexames jornalísticos no ponto eletrônico. No mais, se tirarmos a farda dos  presidentes deste período, não tenho dúvida de que poderiam facilmente ser vistos como petistas moderados (ou tucanos) antes do PT; sim, eles foram exatamente isso na horripilante “política econômica” de intervencionismo regulamentador, provocando ciclos de expansão, endividando empresas estatais, preparando o pais para a hiperinflação dos anos 1980, nos governos de Sarney e Collor, uma geração de oportunistas com o “legado” da expansão da máquina estatal e dos direitos positivos aprofundados, que atuaram no nível estatista de Getúlio Vargas. Ambos engrandeceram as bases para o fortalecimento do capitalismo de laços, Vargas nos primórdios da estatização, e os militares com a ampliação de coisas como o BNDES, além da criação do FGTS, “obras” de planejamento central muito mais impactantes que as estradas e as usinas hidrelétricas que tanto se ufanam.

O pulso do “Brasil real” está forte. O Brasil que agoniza é o que se relaciona com as coisas do estado, onde está o centro nervoso dos controles centrais do fisco e da decadente sociedade legalista e litigante onde Bolsonaro quer ingressar no topo do poder para tirá-lo do “buraco”.

Estar bem intencionado não é o suficiente. E o suficiente é humanamente impossível. Bolsonaro reconhece que não entende de economia, mas nem por isso escaparia do “Dunning-Kruger” acreditando ser capaz de tirar o Brasil do “buraco”. Penso, o drama da fé na política de estado está  em  tentar resolver problemas com a mentalidade estatista, embora muitos tentem algum êxito no liberalismo. O estatismo é a fonte dos maiores problemas, com a massa apegada a candidatos que só tem alguma chance de sucesso nas urnas se estiverem acometidos do efeito “Dunning-Kruger”, ou possam ser bons atores, no sentido do convencimento da massa ignara; só não conseguem abrir mão do fascismo e nem precisam saber que são fascistas…

Em outras palavras, se políticos fossem predominantemente tratados como seres humanos, certamente não haveria Lula, nem Ciro Gomes, nem Bolsonaro, nem qualquer outro tipo “salvador da pátria”, não haveria postes bem sucedidos como Haddad, talvez existissem vários “Amoêdos” não prometendo tanto o impossível, todavia sempre presos ao socialismo, sonhando com baboseiras redistributivas, ainda tratando os pobres como retardados, não sendo grandes catalisadores de um eleitorado de idiotas que retroalimentam mitos, mentiras, fraudes, e tudo o mais que consiste na fé fundamentalista de que políticos podem resolver grandes problemas da humanidade.

Mas a humanidade está sempre olhando para o além, e assim os “salvadores” surgem a todo instante. Entre Haddad e Bolsonaro, se coloca um binarismo entre o Brasil que caminha para se tornar uma nova Venezuela (o que é verdade), e a “salvação” da “venezualização”  (o que não é verdade). Bolsonaro está mais para um plano de contingência com prazo curto de validade. Se tivesse que escolher entre os dois (não tenho fé no estado suficiente para votar), não tenho dúvida que ficaria com Bolsonaro e, obviamente, isso não tiraria minha perspectiva de que tal escolha, caso fosse um democrata convicto, seria uma ilusão; o problema brasileiro é bem mais profundo e me remete à Constituição de 1988, o maior instrumento em favor da dominância socialista, a mesma que Bolsonaro, como todo coletivista, defende. O aparelhamento está sedimentado e o que José Dirceu falou sobre “tomar o poder”  se relaciona com estruturas esquerdistas dominantes no estado.  A construção petista se deu no regime militar, e se tornou viável na “reabertura” dos militares, que muito contribuíram para a “sovietização” do Brasil. Então, uma ilusão em torno de Bolsonaro é achar que ele é um defensor da liberdade e do indivíduo. Se vencer, poderá ser um paliativo para retardar a “venezualização” (assim como foi o impeachment de Dilma Rousseff) e então baterá de frente com o estado petista corporativo. Neste inevitável (e necessário) confronto, considerando seu perfil, fatalmente poderá conduzir o país a um regime de exceção. Já a vitória de Haddad representaria uma caminhada para um regime fascista. Seria um socialismo extremo como uma tragédia anunciada. Em ambos os casos, um destino tenebroso para o Brasil me parece selado. Desejo estar equivocado.

Se o petismo é uma patologia social que resiste a tratamentos quimioterápicos, a idolatria em torno de Bolsonaro não deixa de ser alarmante. Crenças imbecilizantes que multiplicam devotos de Lulas, Ciros, Bolsonaros e afins: Eis o grande mal que há na esperança em torno da política e dos políticos.

 

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Notas:
  1. Sobre o “efeito Dunning-Kruger”, ver Kruger J1, Dunning D: Unskilled and unaware of it: how difficulties in recognizing one’s own incompetence lead to inflated self-assessments.
  2. 03/08/2018. Ver Jair Bolsonaro, candidato do PSL à presidência, participa da Central das Eleições

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