Em tempos de dramas eleitorais, o Burger King publicou um comercial sobre o voto em branco. Diz a descrição do vídeo, no YouTube, que “votar em branco é um direito seu. Mas olha o que acontece quando você abre mão do seu direito de escolha”.

A proposta parece inteligente, apenas parece… O apelo contra o “voto em branco”, feito pela rede de fast food, omite o problema básico de todo arranjo baseado em democracia: Imagine uma situação onde o Burger King adotasse uma política de atendimento onde só seria servida a refeição escolhida entre seus clientes através de uma votação a ser feita periodicamente? Então, por um determinado tempo, todos os que adentrassem em um estabelecimento da Burger King teriam que consumir apenas um tipo de comida “democraticamente” definida? Seria bizarro, não?

Imagine você pensando no cardápio e um atendente do Burger King informando que só será servido hambúrguer de frango porque uma eleição entre clientes assim decidiu… É exatamente o que acontece quando se aplicam meios democráticos para intervir na vida em sociedade, algo que se torna proporcionalmente grave na medida que o coletivo, sempre exercido através do estado, atua prioritariamente sobre a vontade das pessoas.

Neste aspecto, o comercial tem uma ironia trágica: “Quando alguém escolhe no seu lugar, não dá pra reclamar do resultado.” Se votar em branco é deixar que os outros “decidam por você”, faltou ao comercial lembrar que todo cliente do Burger King pode decidir livremente o que vai querer no cardápio e que a democracia representa exatamente o contrário; é o não direito de escolha em favor de uma decisão (ditadura) da maioria. A democracia, se aplicada no Burger King, tiraria o direito individual de todo cliente em decidir o que quer comer de acordo com as ofertas do cardápio, inclusive o de não querer consumir nada, após conferir as opções.

É o comercial mais estúpido que já vi.

Ninguém é obrigado a ter que consumir refeições do Burger King, mas imagine que uma lei obrigasse todos a ter que fazer isso… Imaginou? Seria mais uma bizarrice, não é mesmo? É o que acontece quando “políticas públicas” são definidas através do estado, o aparato de coerção, e legitimadas (democraticamente) por “representantes” eleitos para exercer poder de legislar e executar o legislado, e isso significa a imposição de bens e serviços devidamente “regulados”, comprometendo o direito de escolhas econômicas individuais dos assim chamados “cidadãos”.

Você já parou para pensar que, pela democracia, se torna obrigado a pagar por coisas que não quer consumir, além de custear, também por coerção, contas que não são suas? Pagamos pelos SUS, pela escola pública que prestam serviços que muitas vezes não consumimos, pela justiça que não usamos, por regulações que não nos interessam, entre inúmeras coisas que ferem nossa liberdade de tomada de decisões como agentes econômicos.

Pela democracia, pagamos o show de funk na praça ao lado, financiado por alguma verba “pública” alocada por algum órgão do estado encarregado de socializar os custos da “cultura”…

Democraticamente, somos obrigados a financiar um artista via Rouanet, quem sabe, que se apresente nu para o público infantil e promova todo tipo de putaria… É a democracia que dá “legitimidade” às políticas públicas.

Pela democracia então, pagamos por regalias de políticos e funcionários públicos, que sempre recebem acima da média de mercado.

Graças a democracia, arcamos com serviços de transporte que não necessariamente usamos…

Sem a democracia, como seriam legitimados subsídios a empresários, os quais não temos interesse em negociar, mas somos obrigados a bancar?

Democracia NÃO é sinônimo de liberdade.

Democracia é uma consumidora de liberdade.

Na medida em que a democracia se instala, a liberdade do indivíduo é transferida para o âmbito coletivo, que se torna corporativo e compulsivo. A liberdade de expressão na democracia é uma isca para alienar o indivíduo sobre o intervencionismo corporativo que cerceia sua individualidade em ações concretas. Defensores da democracia abdicam de assumir, em um certo grau, o protagonismo da individualidade, pagando o preço com a liberdade em favor da coletividade; no entanto, esse custo é socializado, ou seja, imposto a todos, independente de concordarem com o arranjo político e/ou com a coerção das resoluções democráticas.

Tive que desaprender conceitos equivocados sobre “democracia”, adquiridos quando estava cativo no sistema de ensino dito “superior”. Quando li Ação Humana, em 2006, percebi o quanto era um escravo em faculdades reguladas pelo MEC, e ainda era chamado de “cidadão” e “contribuinte”.

Não foi à toa Gramsci viu na democracia o caminho mais adequado para aparelhar o estado de direito, objetivando o socialismo. A democracia é o principal instrumento para implantar ditaduras de minorias com força política para serem tratadas como maioria. E mesmo que fossem maioria, a minoria teria que pagar pela democracia, com a moeda da liberdade.

Não adianta investir na democracia como instrumento de liberdade. A sua base está na política geral como negação da ação individual: é um instrumento de controle social para caricaturar a realidade, a eficiência econômica e as decisões individuais que forjam o tecido social. A democracia precisa mascarar fatos pelas “políticas públicas”, sempre anulando o indivíduo pelo coletivo. Sem esse engodo, ela perde força.

É pela democracia que os piores chegam ao poder, pois sua base está na coerção do coletivo sobre o indivíduo e quanto mais se investe nela, maior será a desgraça social.

Se tivesse que classificar democracia, liberdade, socialismo e capitalismo por afinidades, em um lado deixaria democracia e socialismo, e no outro, capitalismo e liberdade.

 

.

 

Comentar pelo Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *