Nordeste Independente
Composição: Braulio Tavares / Ivanildo Vilanova

Já que existe no sul esse conceito
Que o nordeste é ruim, seco e ingrato
Já que existe a separação de fato
É preciso torná-la de direito
Quando um dia qualquer isso for feito
Todos dois vão lucrar imensamente
Começando uma vida diferente
De que a gente até hoje tem vivido
Imagine o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

Dividido a partir de Salvador
O nordeste seria outro país
Vigoroso, leal, rico e feliz
Sem dever a ninguém no exterior
Jangadeiro seria senador
O cassado de roça era suplente
Cantador de viola o presidente
E o vaqueiro era o líder do partido
Imagine o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

Em Recife o distrito industrial
O idioma ia ser nordestinense
A bandeira de renda cearense
“Asa Branca” era o hino nacional
O folheto era o símbolo oficial
A moeda, o tostão de antigamente
Conselheiro seria o inconfidente
Lampião, o herói inesquecido
Imagine o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

O Brasil ia te de importar
Do nordeste algodão, cana, caju
Carnaúba, laranja, babaçu
Abacaxi e o sal de cozinhar

O arroz, o agave do luar
A cebola, o petróleo, o aguardente
O nordeste é auto-suficiente
O seu lucro seria garantido
Imagine o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

Povo do meu Brasil
Políticos brasileiros
Não pensem que vocês nos enganam
Porque nosso povo não é besta

 

Não me importo de ser ofendido por ser nordestino ou qualquer outra coisa. Já tive minha competência profissional questionada por um indivíduo que preferiu me chamar de “um caboclo ignorante lá do fim-de-mundo chamado Pernambuco”, cujo sotaque, as vezes objeto de chacota, é uma das coisas que tenho orgulho. Existe preconceito? Claro, e daí? Há preconceito entre nordestinos. Baianos e pernambucanos que o digam…

Há preconceito com gaúchos, chineses, americanos, paulistas, argentinos, judeus e visigodos.

E eis que o poste do presidiário Lula só chegou ao segundo turno, levando em conta que houve “lisura” nas urnas eletrônicas, por conta do eleitorado nordestino e esse fato serviu de pretexto para explodir ofensas na internet, entre possíveis perfis fakes para confundir agressores com “bolsonaristas”.

Repito, e daí? Pior que o preconceito é a ignorância de quem o propaga.

Pela bela interpretação da obra de Braulio Tavares e Ivanildo Vilanova, feita por Bráulio Bessa Uchoa, passo distante para defender uma secessão. Essa visão romântica de um “nordeste independente” terminaria, penso, em um choque de realidade com uma população que é mais pobre em comparação com o sul-sudeste-centro-oeste-maravilha, cuja condição econômica é retroalimentada pela política de caciques locais que a exploram e assim tratam de preservá-la. Quando se confunde recursos naturais com capital, causas com consequências; quando servir de curral eleitoral não se trata de uma coisa de nordestino em periferias pelo mundo onde a esperança se esconde na Pandora de governos e líderes tratados como redentores divinos.

Apesar do risco de agravar o “coronelismo”, melhor é a secessão. Caciques políticos ficam mais poderosos pelo “hub” de Brasília, ou seja, pelo sistema atual de estado que concentra riqueza para mantê-los viáveis na demagogia de cada dia. O que seria de um Renan Calheiros sem os recursos redistribuídos via “pacto federativo”, advindos de centros mais desenvolvidos, para fazer graça com um povo bestializado? Um cacique custa caro; Renan, a família de Ciro Gomes, a dinastia Campos em Pernambuco, e tantos outros “donos do poder”, assim estão porque há um financiamento ostensivo através do modelo de estado gigante, concentrador e redistributivo. Secessões cortariam a fonte, um “Nordexit não seria atraente aos coronéis socialistas tão pragmáticos com o cordão umbilical da riqueza no Sudeste; os sufocaria rumo a um desconhecido mundo de transformações pela dureza da realidade.

Se o Brasil de Canudos seria um reduto lulista,  o  “Brasil do Sul”, o “Brasil de São Paulo”, seriam diferentes? Pode ser, e certamente não deixariam de ser “fabianos”. Uma onda de secessões no Brasil poderia resultar em alguma versão sul-americana das Coreias? O “sul” mais capitalista e o norte mais fascista (socialista de estado)? É possível. Ou vários países menores e dois “Brasis” maiores? Outra possibilidade ainda mais interessante. O nordeste seria um sério candidato a ser uma Venezuela tupiniquim ou uma “Cuba do Sul”?  É possível. São Paulo representaria o que se tem de melhor em desenvolvimento econômico, podendo ser um país europeu classe A na América Latina? Certamente. Não precisa pensar muito para imaginar isso, considerando o capital acumulado. Nenhuma secessão seria garantia do surgimento imediato de um estado de raiz brasileira mais próximo do estilo de Hong Kong.ou da Singapura, mas seria um começo nesse sentido.

Sou favorável a secessões por questões pragmáticas sobre o crônico problema do federalismo que gravita em torno de um imenso poder central desde os tempos da monarquia, sedimentado por Vargas e consagrado no regime militar (1964-1985). Então, se não dá pela agenda formal, ou seja, de cima para baixo, pode ser por um processo de baixo para cima, e quanto mais divisões ocorrerem, melhor.

Um governo público central menor territorialmente tende a ofender menos por estar mais próximo dos governados, sem um Congresso do porte de Brasília, que se conserva inchado e propositalmente distante (não apenas fisicamente) dos eleitores.

Por fim, seja no “Brasil do Sul” ou no “Brasil de São Paulo”, secessão abre o leque de possibilidades de pulverização de poder e reformas estatais mais abrangentes do ponto de vista da valorização da liberdade econômica.

Imagino e desejo o Brasil ser dividido e o nordeste ficar independente…

 

 

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