Nada podemos contra a verdade, senão pela verdade, escreveu o apóstolo Paulo aos Coríntios [1].

Passados quase dois anos do acórdão da Ação Penal (AP) 470 que envolveu parte da cúpula do PT, estourou a Lava Jato (2014).  Não importa se são décadas de compadrio, se a máquina da corrupção parece invencível, a verdade sempre estará acima dos mortais.

As vísceras expostas pelo Mensalão não foram suficientes. O PT continuou no poder, com a reeleição de Lula em 2006 e do “poste” Dilma Rousseff em 2010 e 2014, quando a AP 470 estava concluída, como se nada tivesse acontecido, como se o esquema de corrupção que o PT coordenou era apenas parte de uma lenda da política construída pela oposição, sendo uma história entre tantas outras, carente de provas e juízo, me fazendo lembrar uma anedota dita por Chico Anysio de que no Brasil “até o passado é incerto”.

O então relator da AP 470, Joaquim Barbosa, neste recente segundo turno das eleições, curiosamente declarou voto em Haddad, candidato de um dos partidos diretamente envolvidos nos crimes pelos quais qualificou na relatoria do até então maior processo da história do judiciário brasileiro, onde foi condenado a verdadeira mente genial que coordena o PT, José Dirceu, que seria beneficiado depois com novas interpretações do STF, especialmente em torno do crime de formação de quadrilha, frustrando Joaquim Barbosa:

Porém, nada podemos contra a verdade, senão pela verdade… Quando um ex-ministro da suprema corte declara voto em favor da mesma organização que incriminou na AP 470, fazendo parecer que o candidato da oposição ao PT consegue meter mais medo que a quadrilha da AP 470, e quando o candidato de tal organização responde a 32 processos, dá para se ter uma noção do estado deplorável da justiça estatal. Mas isso não quer dizer que não haja outro lado nessa história de esforço pela integridade das coisas do estado: neste intento então, foi necessário que surgisse um outro instrumento, um juiz na desprezada primeira instância, onde políticos costumam zombar, para que a verdade seguisse seu rumo triunfante contra o escárnio da política diante do Mensalão. Um juiz que fez da Lava Jato um capítulo paradoxalmente infame e libertador para muitos, para lidar com práticas de uma longa história da política brasileira. Capítulo infame por ter colocado para fora as vísceras do sistema, em uma espécie de versão expandida do Mensalão, demonstrando como políticos fizeram de chacota a AP 470; e libertador porque fez verdades brotarem, saírem de dentro para fora de muitos indivíduos que assim repensaram a própria crença no estado como poder indiscutível, supremo (ou seria um deus?), quando não, serviu para amadurecer sobre a imprescindível luta para determinar limites ao aparato.

Moro e equipe da Lava Jato: estatistas com grande fé no estado, contribuíram para formar muitos libertários no Brasil…  Dias proféticos para uma sociedade privada de verdades e doutrinada em “pós-verdades” na cultura de estado. Um tempo de sandices politicamente corretas que amaldiçoam quem faz com competência e zelo o trabalho de investigar, julgar e condenar quem fez por merecer. Um magistrado chamado de “golpista” por ter feito bem o seu trabalho,  acusado de “parcial” por não tornar réu tucanos que não foram denunciados por não estarem sujeitos à sua jurisdição, como se o foro privilegiado não existisse, vai entender… Visto com “suspeição”, quando convidado para ocupar um cargo de ministro no aparato estatal, aos olhos da idiotice histérica militante que tem bandido de estimação. O lado que acusa Moro de “golpista”, “parcial” e até “agente da CIA”, não parece se incomodar com o fato de que questionar a liberação do conteúdo de uma delação (no caso, a de Palocci), em um período eleitoral, de um processo envolvendo um partido com muitos da cúpula condenados e presos, banaliza o que se tem de mais importante dentro da visão de mundo baseada na democracia: a lisura dos candidatos e das organizações pelas quais concorrem. O PT do Mensalão e da Lava Jato visa retomar a batuta do estado… Pasmem! Organização criminosa apoiada por 47 milhões de eleitores dentro de um pleito, muitos exigindo sigilo como se não importasse a desavisados saber sobre com o quê estão lidando diante das urnas, o que não me surpreende em se tratando da natureza de coerção, deturpação e compulsão que forja o estado. Viva a democracia!

Não há nada mais destrutivo à sociedade que mente criminosa fazendo política com o que Nietzsche chamou de coisa “degenerada”… Perde-se o menor senso de moralidade quando um aparato soberano sobre todos – o estado – dentro de um monopólio territorial para legislar e policiar, visto para conter o homem que seria “lobo do homem”, é justamente comandado pela mesma natureza humana, tão perversa segundo os que se apegam ao argumento de Hobbes. Muitos não se dão conta que o estado, visto como preço a ser pago pela “civilização” para combater o que entendem por opressão de forças do capital, é a maior de todas as ferramentas de opressão, inclusive convergindo o capital ao aparato (estatal).

Moro e equipe provocaram a ira dos que vivem das violações legais do estado e da demagogia que molda o jeito de fazer política convencional. Violações dos jocosamente chamados de “contribuintes” que bancam a demagogia para instrumentalizar a corrupção, com mecanismos subliminares que desembocam na superficialidade do assistencialismo a incautos, na medida em que camufla relações promíscuas de trocas de favores entre políticos e asseclas. Nesta estrutura de coerção sobre “contribuintes” envidados no “estado democrático de direito”, pouco importa se a corrupção vai gerar “externalidades”, ou seja, prejudicar alguns, quem sabe milhares ou milhões de indivíduos inocentes, quase sempre alheios ao aparato de poder  pelo qual são submetidos; não importa se quem vivem honestamente e sofre para pagar impostos, terá que enfrentar diversas iatrogenias dessa cultura de fazer o “bem” enquanto se pratica a corrupção; para quem vive dessa ignomínia, nada significam os custos e outras incontáveis dificuldades que destroem negócios e empregos, pois o aparato de coerção garante os recursos independente da vontade dos que o mantêm, e tudo se torna politicamente correto nos apelos contra desigualdades sociais, muitas que são produzidas pelas intervenções na economia feitas pelo mesmo aparato estatal, sendo aliás, um dos principais insumos da “arte do possível”.

Em suma, pilhar o livre desenvolvimento da riqueza, tornar os indivíduos cativos do assistencialismo estatal e inculcar o mal dos impostos como um “bem”, servindo de fontes para retroalimentar a corrupção, faz parte de uma narrativa que trata tudo como um pormenor entre cidadãos (ou melhor, servos) que são educados para serem analfabetos funcionais em um sistema de educação obviamente controlado pelo mesmo aparato de corrupção, muitos inclusive multiplicados com diplomas de nível “superior”, facilitando assim o aceite “consciente” das coisas degeneradas pela atividade política que gravita no estado, para que cada maracutaia ecoe como um “bem comum” entre tais imbecis escravizados, e assim todos ficam convencidos de que tudo é feito para se pagar pela “justiça social” em prol da “civilização”, escondendo o principal negócio da política: fazer caridade com o dinheiro dos outros tomado à força e usar desse arranjo para se enriquecer como parasita, seja como governante, parlamentar, globalista, lobista, compadre, artista da Rouanet, agente do marxismo cultural disfarçado de jornalista, professor, “servidor” público ou militante profissional, conquanto  se os benefícios pessoais estão garantidos no modelo e tais podem gozar de suas respectivas bolsas disso ou daquilo, entre outros privilégios, “o resto que se exploda!”, assim se conduzem.

Melhor pensar na  ἀλήθεια [3] inspirando o Mόρος [4], entre tantas lições na história da humanidade, também serve de trocadilho com o tão respeitado e também odiado titular da 13.ª Vara Criminal Federal de Curitiba que será o ministro da Justiça para o desespero de quem quer que muitas caixas pretas permaneçam intactas. De um jeito ou de outro é a ἀλήθεια que vence o mundo, seja no inseparável Κρόνος [5], seja na apoteose do Kαιρός [6], para a alegria daqueles que a prezam e o dissabor dos que tentam enganá-la. Aos desesperados, resta abrir a Caixa de Pandora em algum destino enclausurado que construíram para si mesmos, desmantelados e ao encontro com o Χάος [7].

 

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Notas:
  1. II Coríntios 13.8;
  2. Twitter de  Joaquim Barbosa declarando voto em Haddad.
  3. A verdade ou a realidade na antiguidade grega;
  4. Moros, o deus do destino e da sorte, na mitologia grega;
  5. Kairós, deus do “tempo oportuno” na mitologia grega;
  6. Cronos, o deus do tempo na mitologia grega. O tempo cronológico;
  7. Chaos, na mitologia grega, uma das forças do universo cuja limitação humana associou à desordem e à confusão.

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