Revisado em 05/11/2018 08h16

O que é “viver o que se prega”? Aprendi o significado na dor, lá pelos idos de 2003-2006 no seminário, vendo professores que eram de “mente aberta” desenvolvendo teorias em sala de aula, mas as negando como fundamentalistas no púlpito. Diante dos discentes, se portavam como pensadores empolgados com a liberdade de expressão, mas diante da congregação dominical, se transformavam em ardilosos políticos, condenando o mesmo “livre pensamento” que adotavam entre discentes.

Indivíduos que vivem na “idolatria do abstrato” e não colocam a “mão na massa” sobre o que teorizam ou, adaptando para o que entendo ser “paralaxe cognitiva” segundo Olavo de Carvalho, como o hiato entre o eixo da experiência pessoal e o da construção teórica.

Nada tenho contra o fato de um professor de teologia ser fundamentalista. O problema está em posar de “livre pensador” com toda disposição para construir teorias liberais diante de alunos enquanto se está longe dessa condição no mundo em que exerce teologia pragmaticamente, nas igrejas. A incongruência consiste não coloca a “mão na massa” e negar tacitamente ideias que defende em sala de aula, fazendo de todo desenvolvimento teórico, um engodo. “De Deus não se zomba”, diz o apóstolo Paulo aos Gálatas (6:7). Não por acaso, estão no mesmo time dos que pregam “santidade” à semelhança de livros de auto ajuda naquele bonachão estilo “sete passos para isso ou aquilo”, mas gastam o dinheiro dos “dízimos” com a própria ostentação, em viagens e hospedagens de luxo para fazer “missões” e participar de “conferências” em lugares de forte apelo turístico.

Entendo que o conceito de “viver o que se prega”, ou de uma forma bem mais sofisticada pelo conceito de “paralaxe cognitiva”, é amplo e serve para explicar também porque não me fascina o ensino superior nas áreas de meu maior interesse: economia, administração, sociologia e contabilidade. Não acredito que sirva para alguma coisa produtiva, se dedicar a uma faculdade de economia, administração ou contabilidade. O sistema de ensino está sovietizado pelo Ministério da Educação, a mais nociva instituição que há no estado brasileiro, sendo especialista em “formar” e proteger professores que não “vivem o que pregam”. Tive um professor de “mercado de capitais” nos anos 1990 que nunca tinha operado em uma mesa, tampouco assumido responsabilidades em uma corretora, inclusive com derivativos, onde se declarava “expert” por ter lido várias obras e portar um certificado de pós-graduação em opções. Pensei, como este homem pode contribuir em minha formação na área se não tem vivência de como a coisa é na prática?

Cansei de ver professores de “contabilidade de custos” que nunca desenvolveram um trabalho sequer nesta especialidade em alguma organização, se assemelhando ao famigerado “empreendedor de palco”.  Conheci “administradores” que nunca administraram empresas; porém, dão aulas para futuros candidatos ávidos pelo diploma. Gente boçal que se apresenta como mentora em teorias de administração que nunca aplicaram; jamais assumiram riscos pessoalmente. Vivem dissociadas da realidade, distantes de um sentimento inevitavelmente volátil diante de desafios concretos sobre gestão no “mundo real”, onde entram no fogo várias teorias.

Seriam como (surreais) médicos dando aulas sobre uma determinada cirurgia, sem nunca a terem realizado. Algo improvável, não é mesmo? Quem gostaria de ser orientado como aluno ou, na pior hipótese, operado por “professores” assim?

Em uma palestra sobre um novo sistema soviético do governo brasileiro, o tal “eSocial”, a regra é que o conferencista seja apresentado como grande especialista no tema, mas são frequentes os casos onde o “especialista” não tem experiência concreta sobre o que está apresentando em termo de proposições para alcançar a tal conformidade ou seja, não coloca a “mão na massa”. O ofício de palestrante, neste caso, seria de apenas “falar sobre”, sem necessariamente “viver sob”, aplicando profissionalmente o que propaga de conceitos pessoais no “slideware”. Muitos então, dão aulas sobre leiautes em XML, mas nunca construíram um evento sequer, muito menos que pudesse ser validados. Muitos falam sobre legislação e criam modelos para “compliance”, mas nunca sentiram na pele o que é ser submetido às normas, não sabem o que é ser empregador no Brasil como experiência pessoal para cumprir, rigorosamente, as loucuras do sistema fascista de leis.

Como pode isso? Estaríamos no mesmo caso (surreal) do cardiologista que não opera, do engenheiro projetista que não calcula e não assina projetos onde vidas estarão submetidas diariamente, não assumindo responsabilidades técnicas pelo que exploram teoricamente?

Contadores que não exercem a contabilidade e não sabem sequer aplicar “débito” e “crédito”, mas querem inovar em gestão contábil. Economistas que querem melhorar o mundo com intervenções governamentais e que negligenciam questões elementares sobre escassez, professores de direito que constroem teses mirabolantes e que não advogam, não estão na promotoria ou não se comprometem com juízo de algum tribunal. Administradores cheios de ideias revolucionárias, prontos para um novo unicórnio, mas que não administram… Empreendedores de palco! Vivemos em uma era onde há muitos especialistas sã apenas virtuais dando aulas para futuros especialistas que também serão virtuais. Um tempo difícil onde ser exemplo sobre o que se prega virou detalhe desprezível.

E quanto a economistas, tenho que ser mais específico: os do mainstream, não servem para nada além de referência “técnica” ou melhor, charlatã, no diabólico aparato político estatizante. Economia é um curso sem sentido, do ponto de vista do que é a “ciência da escassez” diante de influências keynesianas que dominam a maioria dos professores. Por quê? Porque tais “economistas” são, não raramente, os primeiros a promover a ignorância com este objeto da ciência, a tão negligenciada escassez, e isso ocorre quando abraçam desenvolvimentismos, seja lecionando ou na mais inútil de suas atividades: formulando planos de governo. Liberais no discurso e keynesianos na prática. Enaltecem Adam Smith, e até consideram Mises, mas vivem sob as ordens de Marx. Arrisco-me a dizer, claro, ressalvando-se pouquíssimas exceções, que professores de economia no mainstream são seres mórbidos de um mundo degenerado; uma espécie acadêmica das mais viciantes e destrutivas, um caso para moral hazard, bem mais perigosos que professores de história daqueles comuns, quase sempre marxistas em interpretações de fatos enquanto asnos em cataláxia [1], fazendo a cabeça de pobres coitados em busca de um diploma, todos forjados no sistema freiriano tupiniquim. Prefiro um comunista autêntico a um “liberal” acadêmico brasileiro que se diz defensor da liberdade, mas vive amarrado com arranjos do estado.

Fato é que o sistema soviético de ensino em economia se consolidou no Brasil com a predominância de mestres e doutores esquizofrênicos, vivendo em uma redoma de vidro chamada “universidade” diante da sociedade produtiva que os sustenta. Docentes costumam agir como se pertencessem a uma casta superior, formando opinião e fazendo política em sala de aula sem ter que pagar pelas consequências de seus atos e sem estarem sujeitos a cobranças de resultados pelas coisas que propagam.

Não estou aqui me referindo a um problema restrito à academia brasileira. No quarto capítulo da mais recente obra de Thomas Sowell [2], o ilustre acadêmico americano discorre sobre o que define como “fatos e falácias acadêmicos”, entre os quais está o problema de que “os interesses dos professores superam as necessidades educacionais dos alunos” [3]. Tais interesses estão na separação que há no meio acadêmico em relação à lógica de mercado, pelo fato de que a relação de consumo é afetada pelo desconhecimento do aluno (consumidor) sobre o produto vendido (formação), enquanto que, em um mercado, normalmente, atender aos interesses do vendedor e desvalorizar o do comprador pode significar maior risco de perder o cliente, na faculdade o professor (vendedor) está em uma posição onde se é em mais complicado para o aluno (comprador) avaliar se foram bem transmitidos os conteúdos previstos no contrato de ensino. Aqui no Brasil eu diria que o problema se torna bem mais complexo quando se coloca na equação as intervenções do estado por meio do infame Ministério da Educação, fundamentando um corporativismo onde a política se sobrepõe à realidade que vem do mercado e serve de escudo para que professores incompetentes continuem destroçando mentes.

Essa estrutura diferenciada para com o mercado comum, típica da atividade de ensino, ajuda professores a construírem uma blindagem contra questionamentos acerca do que estão, de fato, oferecendo a seus alunos em termos de conteúdo. Então, usar a avaliação do “viver o que se prega” ajuda a desmascarar charlatões.

O professor tem experiências profissionais diretamente relacionadas com o que ensina em sala de aula? Se tem, quais os resultados obtidos ou seja, qual o conceito que tem no mercado do ponto de vista da aplicação? O que propaga em sala de aula foi experimentado pelo professor?

Quando um professor “não vive o que prega”, não coloca sua intelectualidade em ação, não se submete às aleatoriedades que a ciência deve se pautar, não testa na própria vivência as teorias que “ensina” em sala de aula, certamente não passará de uma fraude. “Viver o que se prega” é assumir responsabilidades na propagação do conhecimento; significa colocar a própria “pele em jogo” [4], como sugere Taleb. “Viver o que se prega” implica em correr riscos de afetar a própria credibilidade junto com interesses materiais. 

Não se deve dar ouvidos a quem dá opinião e está imune a resultados. Quem não tem o que oferecer além das próprias análises “despretensiosas” ou “isentas”, atuando só na base da epistemologia, tratando o conhecimento apenas como algo que se inicia por teoria até a prática, subestimando o valor do empirismo e, sobretudo, sem assumir ganhos e perdas no exercício do saber, sem reconhecer erros e acertos, não tem genuína autoridade.

Aqui encerro com uma breve síntese de São Tomás de Aquino, marcante desde o dia em que a conheci em um livro surrado na biblioteca do STBNB, em 2005:

Al ioquin si nudis auctoritatibus magister quaestionem determinet, certificabitur quidem auditor quod ita sit, sed nihil scientiae vel intellectus acquiret , et vacuus abscedet  [5].

P.S.: Ouvindo Nuvole Bianche, de Ludovico Einaudi.

_______________
Notas:
1. Teoria da economia de mercado. Bastante difundida na Escola Austríaca de Economia.
2. Fatos e Falácias da Economia. Ed. Record, 2017.
3. Obra da nota 2. Página 128.
4. Ver Antifrágil de Nassim Nicholas Taleb.
5. “Se o professor resolver a questão somente por meio de argumentos de autoridade, quem o escuta ficará, sem dúvida, convencido de que as coisas são assim, mas não adquirirá nada em ciência e intelecto, e irá embora vazio”. (Tomás de Aquino, Quodl. IV a. 18.).  Esta tradução consta na introdução da obra “À escuta do outro”, do teólogo italiano Bruno Forte.

 

Comentar pelo Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *