Considero-me bastante cético diante de toda grande tentativa de transformação social e, concomitantemente, me flagro aberto a inovações. Chefe de família que hoje tem o (redundante) rótulo de “tradicional”. Não abro mão da autonomia do lar em todos os aspectos, com papéis bem definidos, embora se alternem de acordo com as circunstâncias.

Sempre me policio para enxergar as coisas como são, e não como eu gostaria que fossem. Sou libertário e conservador.

Não tenho o menor interesse em converter as pessoas ao que penso. Cristão de raiz ocidental e contumaz consumidor da lógica formal, da filosofia clássica, cada passo adiante que dou aumenta minha vontade de melhor conhecer minhas origens, saber de onde vim, destrinchar minhas raízes e os valores que cultivo.

Kant (no tocante a epistemologia), além do (perigoso) existencialismo, estão no meu cardápio intelectual. Tenho certo interesse por ler Sartre, muito em parte devido ao seminário meditando sobre obras de Paul Tillich e Kierkegaard que conheci a partir de Lutero e a Agostinho. A teologia foi um saber entre tantos saberes. Todavia, não recomendo um mergulho no existencialismo e no relativismo que se deriva, antes sem uma boa base de conhecimento em conservadorismo. Isto posto, reconheço (e enfrento) a questão de que o homem não pode escapar da subjetividade, algo tão óbvio quando se estuda a cataláxia, e não apenas em termos filosóficos.

O conservadorismo é o meu norte e me sinaliza que devo estar vigilante ao máximo para não me perder na subjetividade, que é um largo caminho para a degeneração moral, tanto pessoal, como social. Preciso e devo zelar por um referencial ético e penso que o grande perigo das desconstruções que se deram durante e no pós Nietzsche (outro pensador que aprecio com moderações)  está na desconexão dos valores, os bens imateriais deixados pelos antepassados, descambando em um processo pernicioso que se traduz na perda da objetividade e do senso mínimo de moralidade.

Sobre o aborto, vejo como uma grave violação da propriedade separada (privada) no gracioso alvorecer da condição humana: a vida, maior dádiva divina. Aborto é assassinato de inocente, atentado contra a natureza sob um mistério que nos torna humanos. Assim entendo que pratica-lo é uma auto desumanização. Entendo que ninguém deve decidir quem deve ou não nascer, entenda-se “nascer”, continuar a viver a partir do momento da concepção.

Herdei da educação seminarial batista um profundo respeito à liberdade religiosa, muito embora não a tenha visto com frequência em congregações que frequentei. Desapontou-me, certa vez, um renomado pastor batista usar o púlpito para atacar outras religiões, durante alguns domingos seguidos. Fiquei com as quatro frágeis liberdades.

Foi na biblioteca do seminário que me vi mais íntimo do que imaginava acerca de uma visão conservadora do mundo, lendo Edmund Burke. Ainda não me via como libertário, porém, o interesse pela liberdade e pelo princípio da não agressão que descobriria mais tarde em Rothbard, começaram a ganhar espaço sem que eu tomasse ciência do libertarianismo austríaco mediante uma reflexão sobre a responsabilidade,  de onde tomei por empréstimo uma (pasmem!) abordagem de Sartre, e então passei a considerar uma visão filosófica como pleno exercício da liberdade que só tem legitimidade se eu aplica-la a partir do meu contexto existencial, até a uma ética para a vida em sociedade, como cooperação entre indivíduos livres e desimpedidos. O papel que me cabe é pensar e agir por soluções baseadas em voluntarismo, sem a coerção e as maldições hereditárias de dívidas de servidão impostas pelas relações com o estado. A promoção das livres trocas e a contestação de tudo que é coercitivo. Uma ética orientada pela liberdade sob o contrapeso da responsabilidade; uma ética individualista e contratualista: por isso sou libertário. Não há nada a ser explicado sobre o imposto além do que é: roubo! Pode-se até paga-lo, mas jamais respeita-lo.

Para mim, apreciar um autor ou uma filosofia não significa ser um “aficionado”, muito menos militante de determinada linha de pensamento.  Vejo a militância libertária no Brasil sem qualquer interesse; parece-me imatura, infantil, pouco articulada para promover valores na sociedade. Tirando os esforços dos irmãos Chiocca na disseminação de textos libertários, no antigo site do Instituto Mises, que muito me ajudaram, o que aprendi de libertarianismo na sequência foi por muito esforço por uma busca de literatura ainda a ser traduzida.

Libertarianismo e conservadorismo são valores para estudar, avaliar e tomar em minha própria experiência de vida referenciando ações e, se necessário, com palavras, como diria São Francisco de Assis.  Apesar de me definir como “austro-libertário”, não sou chegado a  fazer parte de “turmas”, “grupos”, “movimentos”, sobretudo os que têm uma visão de mundo única, onde quase tudo tende a um debate enviesado, teatralizado, que não passa de uma idolatria do abstrato entre indivíduos que fingem ter algumas discordâncias. Tal problema está longe de ser exclusividade de esquerdistas, imagino. Minha filiação ao Novo é um sinal da indiferença que sinto aos apegos ideológicos dos que não conseguem sair do mundo das ideias, e da mesma forma, me preocupo com problemas envolvendo o estado e dos impactos gravíssimos que uma abrupta insolvência estatal provocaria, especialmente entre os mais pobres. Vejo com pesar, libertários que desejam o caos social por força de desejos ideológicos avessos ao estado. Entendo que a luta contra o estado deve ocorrer no plano civilizatório, pois, caso contrário, estaria dentro de uma visão análoga à marxista em relação a rupturas institucionais.

Em minha mesa literária, frequentemente, estão Olavo de Carvalho e Hans-Herman Hoppe, e os tenho em bom convívio. Muitos desavisados me chamam de “anarquista” e outros tantos de “ultraliberal”, e ainda uns outros tantos de “ancap”, alguns mais desprovidos de delicadeza , de “lunático”: a estes últimos, ofereço minha compreensão e ao que for ou soar ofensivo, têm o meu perdão. Enquanto isso, vou lendo (ou relendo) obras clássicas do socialismo dito “científico” com o mesmo vigor que tenho em apreciar autores do liberalismo clássico (econômico). Ludwig von Mises tem um peso maior na minha formação como “liberal” em economia. Mises é um pensador muito mais interessante que Adam Smith; em minha visão, o famoso liberal foi mais um repetidor que um pensador genuíno de economia, embora a “Riqueza das Nações” tenha um lugar especial em minha biblioteca. Ultimamente, os “proto-austríacos” representam o desafio de minha jornada intelectual para lidar melhor com a erudição de “Ação Humana”.

Sou libertário porque não tenho o mínimo intento em me conformar com o paradigma do “estado”, e quando o assunto é política no âmbito público, onde entendo não ser necessariamente “estatal”, minha ocupação consiste em pensar sobre possíveis respostas e soluções através da praxeologia, acerca de problemas do cotidiano, derivados entre indivíduos, empresas, associações, que estão ao meu alcance. A priori, tenho mais interesse sobre as possíveis vantagens com pequenos arranjos políticos, sejam coletivos ou não, todos voltados a uma visão pautada em “autogoverno”, o que alguns simploriamente chamariam de uma outra forma de “estado”, fato é que rompe com o padrão de estado em que fui criado. Seria um “neoinstitucionalismo”? Não sei. Rótulos não ajudam, neste caso.

Quando li “Democracia, o Deus que Falhou”, percebi que, apesar de ser uma obra muito importante, não se trata de ser a maior elaboração do que entendo ser o maior ícone contemporâneo da Escola Austríaca (EA), pelo lado heterodoxo, digo, libertário. Lendo o Capítulo X, encontrei elementos que são comuns à minha visão do conservadorismo. Hoppe aponta razões extremamente fundamentais para todo libertário meditar, pois, caso contrário, fatalmente cairá em uma “compreensão superficial da doutrina libertária” (página 241). O que era uma força ideológica “anti-igualitarista”, “aristocrática” e “antiestatista”, teria passado, na visão do autor, a um movimento de “estatistas culturalmente conservadores” (página 225).

A violação da propriedade privada em torno de políticas públicas (tributárias) em prol da (vaga) ideia de “justiça social”, em meio a  práticas invasivas para anular a celebração de valores em torno de instituições tão caras a conservadores, tais como a família e a tradição cristã ocidental,  são questões que se tornaram seriamente prejudicadas na propagação do “estado democrático de direito”, sendo assim algo que cabe maior consideração entre os que são estatistas acerca do papel efetivo do estado nesse processo. Penso que é preciso refletir sobre a relação entre libertarianismo e conservadorismo com base na crença em uma ordem social natural baseada e centrada nas famílias (página 238). Nestes pontos, sou hoppeano.

Entendo que ser libertário é ter uma visão moral do mundo em prol de uma ordem natural de um estado de coisas, reconhecendo o que é antigo, sabendo diferenciar os “ruídos” das anomalias e dos acidentes, e tendo prudência para dar passos adiante, sempre considerando os acúmulos dados por nossos antepassados. Por esta visão de mundo, “libertarianismo” na visão da EA, nada tem a ver com anomia, carência de ordem social com base no respeito à família, falta de governo próprio, ausência de contratualismo, esvaziamento da objetividade moral que sedimenta instituições fundamentais da sociedade, desprezo às leis (naturais e comuns pelas tradições). Por isso, entendo que o elo entre libertarianismo e conservadorismo nunca será desfeito.

Penso que o grande problema que atrapalha a compreensão sobre o libertarianismo está na confusão com o uso de termos “anarquia de mercado” ou “anarquia de propriedade privada” com uma visão amoral da sociedade e então, entendo porque Hoppe é implacável com os que chama de “pervertidos” e “desequilibrados” (página 242): “vulgaridade”, “obscenidade”, “promiscuidade”, “pornografia”, “prostituição”, “poligamia”, “pedofilia”, e eu incluiria, como síntese, uma visão de anomia quando o libertarianismo envolve a liberdade sob a contrapartida da responsabilidade. Hoppe também menciona o “homossexualismo”, ponto que entendo merecedor de uma reflexão à parte, para outra ocasião [1].

Hoppe é um mestre da praxeologia. Um erudito que me serve de inspiração para continuar minha jornada intelectual. Claro que tenho muitas discordâncias e concordâncias; muitas devido à minha imaturidade, imagino. A visão de Hoppe sobre o “nacionalismo social”  (página 229) considerando o conservadorismo estatista cultural da direita americana, com combinações com uma visão econômica intervencionista, é imprescindível em qualquer análise sobre a política contemporânea a partir do ambiente dos EUA. Percebo nele um estilo literário um tanto contundente (alguns diriam “agressivo”) e sua conclusão de que o “conservadorismo moderno, nos Estados Unidos e na Europa, mostra-se confuso e distorcido” (página 225), não me convence sobre uma percepção pessoal (posso estar equivocado, claro) que cabe a libertários a abertura a um constante diálogo com conservadores que incluíram o atual paradigma do estado democrático ou o anterior (monárquico) no rol de valores e tradições. Estou entendendo que chamar estatistas, que se veem como conservadores, de “socialistas” (página 235) é uma provocação pouco construtiva, embora deva ser colocada em discussão. Um bom contraponto a Hoppe pode ser apreciado em “Como ser um conservador” de Roger Scruton, outro referencial em meus esforços intelectuais.

O mais importante é que sendo libertário, me vejo, inevitavelmente, como conservador; libertarianismo sem conservadorismo, para mim, não faz o menor sentido.

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Nota:
  1. Ver Homossexualidade e conservadorismo.
  2. Recomendações de leitura: O Imbecil Coletivo, de Olavo de Carvalho. Democracia, o Deus que Falhou, de Hans-Herman Hoppe. O Ser e o Nada, de Jean Paul Sartre. Cidade de Deus, de Santo Agostinho. Como Ser um Conservador, de Roger Scruton. Anatomia do Estado, de Murray Rothbard. Fundamentos da Liberdade, de F. Hayek. O Desespero Humano, de Soren Kierkegaard. Coragem de Ser, de Paul Tillich.. Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant. Edmund Burke. Redescobrindo um Gênio, da Kirk Russel. Reflexões sobre a Revolução em França, de Edmund Burke.

 

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