Uma homenagem a Lopes de Sá

Balanço de abertura: o mistério de uma nova existência faz o primeiro lançamento no livro diário da vida.

Registra-se débito no “ativo circulante” na conta  Κρόνος (“Krónos”) e credito no patrimônio líquido, na conta “existência”. O valor apropriado é intangível aos olhos humanos, incerto e não sabido. Sabe-se apenas que a conta “Krónos” tem o saldo em constante redução e um dia será zerada. Sua contrapartida inicial é a conta  “vita”, outros mistério que não tem momento conhecido para deixar de existir.

Crédito “Krónos”, débito “vita”. Tempos edax rerum [1].

Quão espantosa é esta contabilidade!

No razão humano da conta “Krónos” se registra o tempo que medimos, ou seja, o passado. E o presente? Vira passado imediatamente. Sobre essa relação, Santo Agostinho de Hipona afirma que “o presente não tem duração alguma” [2]. Então, o que chamamos de “futuro” é a parte que estimamos; não temos como garantir que existirá, tampouco mensurar como fazemos com o passado. O futuro é o “saldo misterioso” que resta para zerar a nossa conta na medida que o “Krónos” vai passando.

As aplicações da conta “Krónos” seguem em uma relação de escassez e desigualdade onde cada vida que emerge na existência possui meios diferentes, recursos de Krónos insondáveis, intangíveis, desde o tempo que se terá (o futuro) até o sentido de como são distribuídos. Temos um tempo que passou, que podemos medir, e outro tempo, que chamamos de “futuro”, que está além de nossa capacidade de projeção e controle. O que nos importa? Como o “futuro” é uma grandeza inacessível, ingerenciável, resta-nos o desafio de aproveitarmos bem cada momento ao longo do “Krónos”, para que os acontecimentos da vida posam refletir em boas oportunidades. Aproveitar bem o Krónos para que se tenha o Kαιρός (Kairós), um “tempo oportuno” que, para a fé cristã é o “tempo de Deus”, o tempo certo (maduro) para as coisas acontecerem.

Talvez, questionaremos com certa frequência, as razões de uns disporem de mais “Krónos” que outros, além de nos incomodarmos com outro mistério ainda mais perturbador: Por que uns têm mais oportunidades (Kairós) que outros? Destas indagações, outros ficarão presos a um outro mistério da vida que envolve o fato de sermos diferentes desde a nossa concepção, por inúmeros fatores, embora sejamos semelhantes como espécie.

Quem poderá explicar a natureza com a limitada visão que temos na condição humana, diante de uma contabilidade metafísica que lida com variáveis intangíveis sob perfeita precisão?

Longe de qualquer determinismo, o que será feito com os recursos aplicados na conta “Krónos” e os meios materiais e imateriais, os custos da “vita”  os investimentos, implicarão em um conjunto de fatores determinantes para explicar o “tempo oportuno” que tivemos. Não importa: aproveitando bem ou mal o “Krónos” e os demais recursos que temos, fato é que as coisas se escoam no tempo e a existência segue produzindo resultados, independentemente de termos ou não interesse em conhece-los. Na medida em que o tempo passa e deixamos a primeira fase da existência, a qual chamamos de “infância”, podemos ter ou não as condições presentes para amadurecermos, para a autonomia de transformar a aplicação do “Krónos” em “mutações do nosso patrimônio”, em outros ativos e passivos físicos e imateriais. Herdamos recursos de nossos antepassados, outros oriundos de nossas atividades no processo de maturidade a qual chamamos de “educação” e, por fatores diversos, seguimos fazendo nossa própria história em meio a outros tantos fatores que muitas vezes atribuímos ao acaso. Alguns se tornam, de fato, mais capacitados para produzir melhores resultados, outros não.

De uma coisa tenho certeza: antes de me lamentar com a “falta de oportunidades” ou de ausência do “Kairós”, de tempos em tempos, sei que existe uma sabedoria que me ensina a perguntar a mim mesmo. Perguntas que cabem a todos os que tem auto estima e que agora determino a mim mesmo: O que fiz com o meu Krónos? Ora, queira ou não, o “Krónos” segue, o tempo consome tudo, o tempo devora reduzindo o saldo que nem sei como está, me cobrando na conta “vita”. Jamais devo negligenciar que a cada respiro, há um débito “vita” e um crédito “Krónos” na partida dobrada; e um dia, que não sei, que pode ser a qualquer instante, minha conta do tempo encerrará. O “Krónos” é implacável, inadiável; a natureza segue seu rumo e os resultados virão. Fiz a minha parte?

Como apliquei os recursos que me foram dispostos no escoamento do “Krónos”? O que recebi e julguei ser “pouco”,  foi bem aplicado? Produzi bons resultados na proporção dos meios que possuí? Não é uma questão fundamental ter muito ou pouco. Será que estou me vitimizando, digo, lamentando demais por coisas que não fiz por falta de interesse na minha própria vida? O que poderia ter feito e não fiz por acomodação, falta de ousadia? O Krónos é irrecuperável. O que passou, passou, sendo bem aproveitado ou não.

Como me conduzo na abundância e na escassez de determinados recursos? O “Krónos” é o mais misterioso dos recursos escassos, pois quando penso o “futuro” e olho para o passado  se digos “como passou rápido!”, então, foi tão bem aproveitado quanto a minha percepção de rapidez? Saber valorizar o tempo me fará pensar em tomar decisões mais inteligentes diante dos demais recursos econômicos (escassos) tangíveis, ao contrário do tempo, o Krónos, que é intangível e me mostra quão limitando sou quando tenho a imprecisão do futuro.

Fui capaz de multiplicar meios com o que tinha no capital inicial da existência? O que herdei, sendo muito ou pouco conforme minha interpretação dos fatos, foi bem aplicado? Se eu olhar para o passado, como era há 10, 20, anos, serei capaz de reconhecer progressos, evoluções, e terei a coragem de fazer uma autocrítica? Será que me sentirei “parado no tempo” em alguns aspectos? Certamente! Terei disposição para estudar minhas fraquezas sem apelar para desculpas e subterfúgios? Estarei disposto a pagar pelo preço para ser mais “antifrágil”?

No razão da conta “vita”, estão os meus atos, e boa parte das respostas estão friamente registradas; resta-me ter a humildade de bem interpretá-las. Humildade para reconhecer erros e ser discreto nos acertos, para não me perder em uma egolatria. Se eu tiver um mínimo de diligência pessoal, o que pode ser entendido como “amor próprio”, farei  periodicamente uma “demonstração de resultado do exercício” da minha vida ou seja, apurarei as consequências de meus atos ao longo da história que produzi. Analisarei como me conduzi, onde tive “lucro”, onde acumulei mais recursos para atender melhor minhas necessidades, onde tive “prejuízo”, ou seja, onde diminuí meus recursos diante de atitudes ou omissões que culminaram em situações de danos sob minha responsabilidade, ou não, mesmo que por efeitos provocados por terceiros. Cabe a mim avaliar com destemida vontade de conhecer a verdade que me libertará de fantasias que posso criar para justificar meus insucessos, minha falta de zelo com a vida que me foi agraciada, antes de amaldiçoar a terra e os céus, antes de “correr atrás do vento” e me perder nas vaidades, como diz o sábio Coélet.

Na parte mais sofisticada desta contabilidade, encontrarei uma conta por demais importante para explicar minha riqueza ou pobreza: chama-se “capital humano”. Nela se acumulam conhecimentos e capacidades técnicas que acumulei ao longo da existência. Acontece que alguns procuram acumular mais capital humano que outros, por diferentes maneiras e causas. Muitas explicáveis, outras nem tanto, e um tanto de coisas imponderáveis acontecem. Basicamente por isso, de acordo com uma complexa combinação de esforço pessoal, inteligência e aleatoriedades favoráveis e desfavoráveis, angariam-se recursos desta natureza. E como todo ativo, o capital humano é aplicado economicamente. Isso ocorre quando tenho um negócio próprio, quando empreendo, ou quando resolvo emprestá-los a quem empreende. Quem “empresta” seu capital humano comumente é chamado de “empregado”, não importa; neste ponto, os “juros” do “empréstimo” serão traduzidos na forma de “salários” e “honorários” no sistema de resultado. Também é possível doar a aplicação de capital humano; isso ocorre quando cedo minhas aptidões sem receber contrapartida econômica, quando sou voluntário.

A forma como acumulo e aplico capital humano será determinante para compreender o que fiz com o “Krónos” e a “vita” em minhas transações da existência. Jamais devo esquecer que tudo flui pelo tempo, tudo se escoa no “Krónos” rumo ao saldo zero, quando então a conta “vita” deixará de registrar fatos e não haverá mais tempo para nada: o balanço da minha existência terrena será definitivamente encerrado.

Qual o legado que deixarei?

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Un mondo in cui il comportamento umano non esiste più e la casualità della vita non è più tollerata. (trecho revisado de 2057)

Nota:
  1. “O tempo que devora tudo”, do poeta latino Ovídio, em Metamorfoses.
  2. Confissões. Capítulo XXVII.

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