O episódio do ministro Enrique Ricardo Lewandowski provocado, em um voo comercial, por um indivíduo que se disse “envergonhado” com a corte suprema brasileira, serve para ilustrar como a ética do coletivismo no âmbito da servidão para com o estado, funciona perfeitamente no imaginário popular.

Em qualquer esquina, imagino, posso encontrar comumente, indivíduos que se dizem “envergonhados”, não apenas com o STF, mas também com outras instituições do estado, assim assumindo sentimentos íntimos relacionados a coisas pelas quais não participaram ativamente, envolvendo atributos que não produziram. Compartilho da mesma visão suscitada pelo professor Adriano Gianturco, no Twitter.

Como posso ter vergonha de algo onde não tenho participação?

Como posso me envergonhar daquilo que não fiz?

Faz sentido ter vergonha de uma coisa que não me pertence?

Posso ter vergonha de qualquer coisa que eu tenha produzido ou que possua algum grau de relação moral ou sentimental comigo. Vergonha é um sentimento que envolve nobreza em meio a um sentido de autocrítica no afloramento de uma consciência de culpa direta ou indireta, participação ou responsabilidade por ato que tenha provocado dano a terceiros ou a si mesmo, promovido por si ou outrem. Sentir vergonha de si mesmo ou dos outros requer um envolvimento profundo com a própria responsabilidade, ou com quem ou o que provocou a situação de desonra. Além de poder me envergonhar de coisas que fiz, também posso ter vergonha de algo cometido por alguém ou por alguma instituição que tenho grande estima, respeito, consideração afetiva. Um pai pode ter vergonha de um filho; posso me envergonhar de um ente querido, um professor pode se envergonhar de um aluno, posso ter vergonha do meu clube do coração, da empresa onde trabalho, da igreja que porventura comungo fé religiosa, ou seja, de alguém ou qualquer coisa que venha a provocar alguma consciência de que eu faço parte e que tenha produzido coisa que considero desonrosa. Isso ocorre porque o coletivismo é um fenômeno natural envolvendo seres humanos, que são emocionais, capazes de desenvolver afeto e promover interação social. A questão maior, a meu ver, está em como o coletivismo é formado e mantido. Há um coletivismo baseado na livre e espontânea vontade de indivíduos que se associam entre si, em busca de interesses comuns ou que mantêm certo grau de afinidade com valores ideológicos, familiares, morais, culturais, enfim, de coisas que possam gerar elos éticos e sentimentais.

O que é o STF? Uma organização do estado. Em termos do que entendo por “justiça”, onde respeito a voluntariedade e moralidade são elementos éticos essenciais, o STF não preenche tais requisitos para que eu possa ceder minha admiração. A suprema corte brasileira não passa de uma aberração produzida pela política estatal; é um arranjo do que se convencionou chamar de “contrato social”, engodo imposto coletivamente, que desdobra na formação de um corporação de ministros indicados e aprovados por políticos que usam o aparato de compulsão e coerção do estado para “legitimá-lo”. Tais políticos são supostamente reconhecidos por uma representatividade advinda do exercício de validação de poder por viés democrático e daí se chega a uma equivocada conclusão de que todos “fazem parte” da coisa institucionalizada. Sentir vergonha disso é algo comprometedor para mim. Ter vergonha de qualquer coisa que se impõe por uma massa relativa, até se chegar na representatividade dos que indicam e aprovam, pelo monopólio do estado, ministros do STF ou de qualquer coisa estatal que, bisonhamente, tem o atributo de julgar os que promovem as indicações de si mesmos.

O STF é um produto jurídico fraudulento onde os maiores criminosos da sociedade podem escolher, unilateralmente, e com toda a legalidade que o estado “democrático de direito” proporciona, quem irá julgá-los. Ter vergonha do STF é assumir intimidade com esse produto; é estar em uma posição que implica – pela representatividade do estado – em pertencer a algo que, na verdade, me enoja. Quanto ao comportamento do ministro Lewandowski em ameaçar o advogado de prisão por manifestar uma insatisfação com a corte suprema, apenas revela a situação em que “autoridades” do estado se encontram; são “deuses” entre mortais cedendo à natureza fascista que rege as coisas baseadas em monopólio e coerção, todos catatônicos sob a camuflagem da democracia, difundida como sinônimo de liberdade para o “homem-massa”. O indivíduo que se disse envergonhado do STF, ao externar esse sentimento, que imagino ser legítimo, assume destarte laços que o tornam, de fato, parte de uma estrutura que, em minha ética libertária, não possui qualquer elemento moral, cultural, afetivo, que eu possa nutrir respeito e admiração.

Ter vergonha do STF não faz o menor sentido.

 

 

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