Nada me parece ser mais irônico do que ser chamado de “fascista” por argumentar favoravelmente à extinção de todo ordenamento regulatório que concentre no estado poder para interferir nas relações econômicas e nos costumes da população. Pude atestar na pele tal conceito do senso comum, inclusive entre acadêmicos, quando externei um entendimento sobre a CLT.

(Fascista! Sinto-me bem sendo chamado assim, quando flagrado na defesa da liberdade, contrariando a coerção do estado.)

Resumindo um entendimento deveras consagrado entre esquerdistas, “fascismo” seria uma “ideologia” de extrema direita, totalitária, antidemocrática (a parte mais ingênua), conservadora (a parte onde reside a maior canalhice) personalista e populista/messiânica (a parte verdadeira) que preserva “capitalistas” (a parte mentirosa de uma meia-verdade).

Obviamente, ninguém nasce sabendo o que é fascismo. No caso brasileiro, o que predomina vem disseminado pelo poderoso sistema de ensino regulado pelo estado que opera de forma eficiente. Eficiente? Discordo de entendimento no sentido de que a “educação” no Brasil não funciona. Funciona muitíssimo bem para formar os “analfabetos funcionais” que mencionei; indivíduos que colecionam diplomas e são incapazes de entender textos relativamente simples. O sistema também produz, em larga escala, incondicionais servos do estado, moldados para promoverem  todo tipo de agressão às liberdades em nome do que entendem por “civilização”, tudo para assim atender aos interesses da classe política. Por isso, a ofensa não me surpreende nem um pouco, dada a obscuridade pela desorientação conceitual com que o termo  é propositalmente abordado no Brasil, levando em conta toda a eficiência do tal sistema que tem no Ministério da Educação, a maior instituição fascista que tenho conhecimento.

Então, seguindo o entendimento dessa turma tão bem instruída por livros devidamente aprovados pelo medonho Ministério, policiada por militantes partidários disfarçados de professores e deslumbrada com lacradores em redes sociais que normalmente têm como “gurus”, “intelectuais” como Leandro Karnal, o xarapim Sakamoto, além da ordem de artistas que vivem nas tetas da Rouanet, fascismo não teria nada a ver com o coletivismo compulsório, com regulações que forjam o capitalismo de “amigos do rei”, com a idiotização da massa nas engenharias e controles sociais, com o socialismo no planejamento central que veda liberdades econômicas e o progressismo positivista que apregoam canalizando tudo para e pelo estado. Para resumir a ópera, o ABC do politicamente correto dessa gente ensina que “fascismo” é tudo que representa ideias oriundas da direita. algo facilmente caricaturado sobre o presidente eleito Jair Bolsonaro.

Se socialismo passa longe do que se entende por “fascismo”, associá-lo ao comunismo então seria o “cúmulo da ignorância” na tábula rasa que forja a ciência política tupiniquim que se ensina nas faculdades. Em outra ocasião, há 20 anos, um professor de história do pensamento econômico sintetizou o termo como uma “anomalia” no estado regido por partidos de direita que, segundo o docente, perde o referencial da democracia “liberal”, um clichê para quem aprecia coisas mais simplistas. O estado? O estado… Com “e” minúsculo, sempre. Este que vos escreve, olhando para o que fora há 20 anos, chamaria de “louco” se alguém descrevesse o estado como um arranjo político coercitivo e compulsivo, de coletivização de patrimônio e, ocasionalmente, de bens de produção. Este conceito se deu depois de ler Ação Humana. Pois bem, este que vos escreve chamaria de “fascista” se ouvisse algo assim. Ficaria revoltado se ouvisse uma síntese da coisa como o socialismo ancorado na economia (entenda-se, em referenciais catalácticos) sendo uma inevitável condição do estado promover ações de ordem intervencionista, todas baseadas na violação de livres trocas. Mandaria “estudar história” se ouvisse que o estado é, essencialmente, uma organização socialista que, em termos pragmáticos, carece de fascismo. Em suma, o meu eu de 1998 chamaria de “fascista” este de 2018 que vos escreve, no dia em que esteve na piazza del Duomo di Milano, e parou para pensar que ali foram dados os mais efusivos discursos fascistas nos anos 1930. O meu eu de 1998 não suportaria o meu eu de 2018; seria como condenar Kogos e Boulos a conviverem em uma ilha deserta para sempre.

O problema crucial não está, per si, no fato do estado ser uma organização coletivista ou, no sentido político que vejo, “comunista” (de regulação geral das relações sociais e econômicas) e de partilha comum de recursos, uma “comuna”,  e sim em como se dá o processo de coletivização e de “engenharia social”, em como é feita a transferência de meios produtivos privados para a posse coletiva, eufemisticamente  dita “pública” (no âmbito estatal): por meios de coerção, sobretudo mediante legislação que forja todo o aparato, cujo braço mais bem camuflado é o sistema tributário.

Não deixa de me impressionar como o ideal do estado está impregnado no senso comum, muitas vezes sem que as pessoas percebam o comunismo forçado que evidencia. Isto posto porque pode ser encontrado em qualquer esquina, desde  rincões até mesas do mercado financeiro, um indivíduo bastante comum, defensor de regulações estatais meticulosas, impostos e tudo o mais que seja violador do indivíduo como se fosse coisa decente. Essa visão de estado com liberdade atesta o quanto a cultura socialista está imperando, enquanto é apresentada como coisa superada e que  – garantem com toda retórica hegeliana – até há uma “retomada” do conservadorismo. Nada me faz rir tanto. Indivíduos que dizem defender a liberdade, arrogando para si a condição de “conservadores” nos costumes e “liberais” na economia, crendo, absolutamente, que “dinheiro público” existe ou seja, que, através da violação da propriedade privada, mediante a prática de contributo forçado – impostos – recursos privados se convertem em “públicos” em uma espécie de milagre da transubstanciação monetária.

Indivíduos podem, por livre e espontânea vontade, ceder seus bens para instituir uma organização comum, diria, uma entidade, uma empresa, um partido político, um clube, uma associação, um condomínio fechado, ou o núcleo coletivo mais usual, uma família, não importa, em um  empreendimento baseado na legítima vontade de forjar um meio privado de uso coletivo de recursos delimitados a seus coparticipes. Nada foge da liberdade elementar se o ingresso e a saída forem opções aplicáveis a qualquer momento, mediante contratos tácitos ou não, onde o que foi coletivizado possa ser novamente individualizado, herdado, distribuído na proporção previamente combinada, tudo isso é legítimo na concepção libertária. Como afirmei, o coletivismo em si não é um problema. A diferença, reitero, é que no âmbito estatal, esse processo está baseado sempre na coerção, na agressão, e em via única, que vai do indivíduo ao coletivo; sem reversão. Não é possível romper, desfazer, promover um distrato do que chamam de “contrato social”, sem que se leve o estigma de criminoso, fora-da-lei, obviamente, sobretudo, a sobrar a mais cruel das acusações: sonegador fiscal. Em outras palavras, o estado é um empreendimento abjeto, de pilhagem, cuja “comuna” se baseia em violação de propriedade separada (privada) seja de bens individuais ou coletivos (entidades associativas privadas).

Então, indivíduos que se dizem “liberais” fazem carreira política no estado para reformar as formas de pilhagem, especialmente no tocante ao sistema tributário, uma das coisas mais hilárias que costumo observar, quando, quase sempre, evitam tocar no assunto que os remete a mais simples verdade de que imposto é roubo. Fazem malabarismos retóricos para defender taxação compulsória e terminam sempre na síndrome de Estocolmo.

Nessa cosmovisão de “estado democrático de direito”, vetor da civilização, onde o comunismo não mais existe, o politicamente correto convencionou chama-lo de outra coisa, para o único interesse (político) de comunistas muitíssimo bem camuflados, que usam o aparato estatal como mecanismo de “legitimidade” para dar sequência à “revolução” onde “liberais” em economia são “instrumentos”. Não seria “socialismo”, pois, no entendimento ardiloso dessa gente tão “bem” intencionada, tal conceito se refere a posse coletiva estatal de meios de produção combinada com a ausência de uma economia de mercado, ou seja, a não aplicação de recursos livremente precificados no âmbito privado, e sim por formas de planejamento central. Neste conceito, então não haveria mercado e sim uma economia organizada por burocratas, usualmente estatais. Levando a sério este entendimento, seria difícil encontrar na história da humanidade, excetuando no período primitivo onde nossa espécie não vivia sob o paradigma da família, uma sociedade genuinamente “socialista”, onde a prole pertencia a todos, já que o sexo comunitário e a passividade diante de recursos naturais regrava a lei da selva e das cavernas. Ora, nem mesmo na extinta URSS o “socialismo” seria categórico, pois ainda havia mercado (paralelo) seja tolerado pelos comitês centrais, seja por elementos clandestinos. Quem duvidar disso, sugiro ler notas de rodapé da Perestroika, se tem reticências às fontes não comunistas sobre o mercado soviético. Até mesmo na atual Coreia do Norte, esse “socialismo” seria posto em dúvida como definição, pois também há meios econômicos privados, em pouquíssima escala, mas há. Em Cuba e na Venezuela, tal “socialismo” estaria distante, pelos mercados paralelos e pela tolerância a (pequenos) negócios privados. Em suma, não há país “socialista” no mundo sob este prisma.

Junte-se a essa confusão (proposital) de entendimentos, a ideia de que a associação de comunismo marxista com o estado é um absurdo, pois na visão convencional de “comunismo”, não haveria estado, e sim “comunas”, com comitês da única categoria existente (trabalhadores) gerenciando tudo o que for de ordem econômica e social. Para quem pensa assim, o “socialismo” é um instrumento de transição de uma sociedade com a presença burguesa para uma sociedade de trabalhadores, onde o empresário e a propriedade privada dos meios produtivos seriam exterminados. Essa visão de “estado transitório” pode ser conferida na obra O Estado e a Revolução, de Lenin.

Fui educado para acreditar em todas essas coisas, como um estudante típico universitário no Brasil. Não havendo “socialismo”, o que estaria em evidência? Seria a “social-democracia”. Se o estado “comuna” com 100% de posse de meios de produção e economia planificada jamais existiu e jamais existirá, sendo  assim inexequível, e se o socialismo como elemento transitório, de destruição da propriedade privada dos meios de produção, é um caminho que se demonstrou ineficiente sob longo prazo, restam as “teorias da conspiração” de conservadores, onde o “marxismo cultural” é o tema principal. Neste aspecto, compreendo como bastante pedagógico o argumento do socialismo de “meia boca” dado por Olavo de Carvalho, como o que sobrou: economia fascista, ou seja, um sistema de economia com tolerância à propriedade privada de meios de produção, com mercado mantido sob determinadas supervisão e intervenção do aparato estatal, onde residem elementos de um dos principais instrumentos do socialismo: o planejamento central.

Fascismo é um fenômeno político caracterizado por empreendedores e organizações privadas que vivem sob a batuta do poder político estatal, todos sob a “virtude” do estado. Fascismo é um grande negócio entre políticos que querem tão somente poder puro e empresários que querem destruir a livre concorrência para arrogarem para si o domínio de mercados, aliando-se aos projetos de poder; fascismo está no âmago do capitalismo de laços. Sem fascismo, não haveria fenômenos como os irmãos da JBS, os Eikes da vida cortejando políticos como Lula e Dilma. Sem fascismo, não haveria FGTS como meio de subsídios a grandes empreiteiras que, em troca, financiavam campanhas políticas. O fascismo nunca sai de moda.

Tudo o que promove “controle social” de indivíduos e negócios, centrando poder regulatório no estado, é essencialmente fascista. Os controles de Big Brother do fisco, as legislações voltadas para regular indivíduos, definindo quase tudo que vê pela frente, é o fascismo velado de cada dia.

Fascismo é coletivismo para violar o patrimônio alheio bem disfarçado na cultura de “direitos positivos”; é o que sobrou do socialismo operando no imaginário popular sem ser percebido. Fato é que não existe  “economia socialista”. Socialismo é política. Com precisão ainda nos anos 1920, Ludwig von Mises lançou uma luz à questão tratando sobre a falta do “cálculo econômico” com a ausência de mercado que inviabiliza qualquer sociedade que esteja sob a política do socialismo.

Os chineses devem ter entendido muito bem o que Mises quis dizer e o que chamam de “comunismo” hoje é um sistema econômico fascista, com pontual e relativa selvageria em algumas situações, como por exemplo na legislação trabalhista quase inexistente, enquanto promove o indivíduo mais rico do país (CEO da Alibaba), membro do partido comunista, único e totalitário.

Um outro aspecto está na “virtude” a que me referi no parágrafo anterior, entenda-se no uso ostensivo da “democracia” enquanto vetor de promoção de “igualdade” entre seres moralmente desiguais, o maior de todos os eufemismos para o intento comunista se passar por legítimo na sociedade. Mais uma vez, meus amigos liberais servem de “instrumentos” na ofensiva cultural contra o conservadorismo, dada a paixão que têm pelas resoluções democráticas, caindo no binarismo de que, na ausência da democracia, não há nada além da tirania. Neste aspecto, “liberais” são, a meu ver, os maiores negadores do mercado; representam um corpo de descrentes na liberdade até maior que os comunistas da atualidade.

Diria, para finalizar, que “liberais” em economia e “conservadores” nos costumes pautados no corporativismo estatal, são os marxistas mais “bem intencionados” do século XXI.

 

 

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