O que me menciono neste texto como “ambiente acadêmico” se aplica, especificamente, ao âmbito do ensino dito “superior” regulado pelo estado [1] em áreas ligadas às ciências sociaisEsclarecimento importante quando se verifica que o analfabetismo funcional é uma epidemia, sobretudo entre formados no tal “ambiente”.

Antecipo minhas escusas por algo que possa soar ofensivo, pois para muitos, ter uma formação no “ambiente acadêmico” representa uma grande realização pessoal, o que cabe meu respeito, e mesmo com as restrições que tenho, devo mencionar que conheci, no tal “ambiente”, professores extraordinários que me inspiraram a um compromisso com a intelectualidade.

Estudar para mim é um constante impulso primitivo. Penso que a atividade intelectual é um fenômeno de liberdade e sendo assim, perde este sentido nobre quando contida por instituições que arrogam para si algum tipo de controle ou monopólio sobre o que é chamado de “formação”.

Intelectualidade, vertendo o termo mais às “ciências sociais”, carece de estar amalgamada com a sociedade; o termo “sociedade”  aqui no sentido dado por Ludwig von Mises [2]. Evidentemente, “intelectualidade” está longe de se limitar ao que observo em libertários e liberais, quando  não conservadores, dando para a economia, como a principal, senão a única, base de conhecimento para explicar a “sociedade”, e então me lembro do que Hayek sugere, sobre o processo civilizatório, como um fenômeno entre o instinto e a razão [3]; desta leitura, vejo uma critica importante ao que penso sobre “economicismo” e uma referência para uma visão holística da atividade intelectual em meio aos estudos de política e ciências sociais.

Quando alguém diz que é professor no “ambiente acadêmico” isso nada significa para mim. Talvez ficarei interessado se perceber alguma intelectualidade de fato, sem o peso de rótulos ou honrarias atestadas pelo estado. Passarei horas ouvindo ou lendo alguém do “ambiente acadêmico”, não por conta de suas titulações, e sim porque o conhecimento apresentado me fascinou; simples assim.

Tirando a excelência de professores que, raramente tenho contato, vejo o “ambiente acadêmico” com um eficiente produtor de analfabetos funcionais. Percebo-o um tanto isolado da “‘sociedade”, parecendo confinado em uma redoma de vidro eficientemente elaborada por docentes que se formataram em um corporativismo vil sob algum monopólio político partidário. Quase não se vive o que se estuda em sala de aula; é como se o mundo exterior fosse totalmente ignorado a partir do instante em que se adentra aos recintos universitários.É neste sentido que começo a discorrer sob o entendimento pessoal de que não compensa, em minha demandas pessoais,  investir em cursos  convencionais de economia, contabilidade ou administração.

Na dinâmica de aprendizado de uma sociedade cada vez mais dispersa com a disseminação provocada com a internet e de tecnologias que surgiram alheias ao “sistema institucionalizado”, impactando duramente o que se entende por acesso ao conhecimento e a busca da competitividade, docentes do “ambiente acadêmico” perderam a relevância na sociedade e, não raramente, podem ser vistos servindo cafezinho ou “fazendo bicos” com atividades que não possuem relação direta com a formação que receberam. O “sistema institucionalizado”, formal, estatal, se tornou anacrônico, dissociado da realidade, quando se tem que ir para fora das salas de aula, o mundo esquizofrênico docentes

Em suma, ressalvando-se exceções, instituições de ensino superior no Brasil, sejam públicas ou privadas, muitas vezes não conseguem preparar adequadamente seus alunos para uma visão mais realista, concreta, objetiva, digo, produtiva em favor da “sociedade” e, mediante esta questão, docentes costumam reagir agressivamente a críticas proferidas nesse sentido, como se pertencessem a uma ordem superior, uma classe de intocáveis olhando para a “sociedade” de cima para baixo, a mesma que banca suas atividades. Em termos de educação “superior”, na visão doentia dessa gente, todos os incautos que buscam “formação” no “ambiente acadêmico”, juntamente com aqueles que não querem nem saber da coisa, estão condenados a pagar impostos e a manter seus “intelectuais” dando discursos vazios em salas de aula lotadas por indivíduos imbecilizados. Contudo, cabe considerar que “academia” não se restringe a uma atividade em favor do meio produtivo, mas não deve desprezar o fato de que o mesmo “ambiente” só existe porque há um meio produtivo que o sustenta. Não considerar essa relação como de “via dupla”, não me parece ser um posicionamento digno de quem se ufana da “formação” intelectual que tem.

Penso agora em algo que sempre me provocou: muitos neste meio vivem cativos à crença de que se algo não for embasado, a priori, por uma epistemologia sistematizada no próprio meio, não deve ser levado a sério, como se a natureza também dependesse de suas convenções institucionais para ser o que é. Dessa visão solipsista da construção do conhecimento, considerar o que diz aqueles que não fazem parte do meio ou simplesmente o que sinalizam fenômenos advindos da cataláxia ou da “economia de mercado” então, é algo quase sempre inaceitável como saber, ou seja a “natureza” manifesta por relações na ordem natural da vida econômica entre agentes é frequentemente vista como algo a ser tratado, corrigido, “regulado”, aliás, o termo “mercado” é um tanto anátema à formação (socialista) do “ambiente acadêmico”.

Vejo então o “ambiente acadêmico” como uma aberração antiacadêmica. Volto-me à mentalidade de planejamento central que forja o pensamento dominante entre seus feitores, exercida pelo crivo do estado mediante a maior instituição fascista da história do brasil: o Ministério da Educação, que promove um empobrecimento planejado do “ambiente acadêmico” como um reflexo, assim entendo,  do que Hayek chama de “dispersão do conhecimento” [4] que afeta toda estrutura estatal regulatória. Por mais bem intencionada que sejam as premissas dos reguladores, nada compensa o entrave sobre a anarquia de coisas, quando o planeja opera impondo “de cima para baixo” diretrizes para o que chama de “educação” que é, nada além de uma intensa grade curricular sob o compromisso de formar “cidadãos, digo, vassalos do estado, enquanto o saber se constrói, comumente, por fenômenos de agentes de baixo para cima, se desenvolvendo muitas vezes no caos, dado a incertezas, aleatoriedades, tentativas e erros, empirismos, refletindo um mundo de espontaneidades e “amadorismos”.

Muitos não param para questionar o “ambiente acadêmico” pela crença de que ele faz parte de uma ordem social superior, estabelecida e garantida por meio de instituições do “estado democrático de direito”, fazendo com que a intelectualidade seja vista como coisa restrito ao meio, moldável, comportável em determinados espaços controlados pelo mesmo corporativismo do estado, e o que se entende por “liberdade de pensamento” seja algo naturalmente refletido em instituições que assim são concebidas. Nesta visão, as regulações do estado sobre o ensino em geral, são vistas como fundamentais, sobretudo pelo viés do valor que se dá a “democracia” que supostamente garante legitimidade ao planejador central da educação, o horrendo Ministério da Educação. Isso ocorre porque a democracia, no imaginário popular, é enganosamente concebida como sinônimo de liberdade. Nem a democracia, tampouco a liberdade são garantias, muito menos princípios, ou seja, não firmam ordem inalterada de valores comuns na sociedade que beneficie a condição humana de ser, pensar e se expressar. A liberdade é uma condição determinada pela “política” que quase sempre é vendida como uma coisa do estado, e é neste aspecto que reside o drama da educação. Evidentemente, o conceito aplicado como “soberania do indivíduo”, aqui penso na visão do professor Walter Williams [5], é uma importante referência na minha concepção, mas ficará apenas no discurso vazio, longe de encerrar o problema da sua relação com a “política”, sobretudo quando se verifica que a democracia, em termos práticos, funciona como um arranjo para legitimar uma “ditadura da maioria” e assim, aleija a liberdade em espaços “democráticos”; o livre pensar se torna então  inimigo de qualquer inovação que não esteja no cabresto da “política” guiada pelo “deus que falhou”: a democracia.

Obviamente, a liberdade é uma condição essencial para se ter uma autêntica educação como fenômeno humano de busca do saber. A democracia, na formação de arranjos políticos, tem também uma importância relativa, que cabe ser discutida por libertários, inclusive os “brutalistas”, e aqui penso em pequenos espaços de poder, quem sabe em “cantões suíços” ou em comunidades acadêmicas com modelos institucionais autônomos, formando o que se pode chamar de “auto governo”. Entretanto, a regra é que a democracia tem se mostrado uma ferramenta estatal para degeneração social na medida em que serve a projetos de elevada concentração de poder, tornando assim subterfúgio para explorar a democracia como “regras da multidão”, canalizadas em corporações estatais que, na medida em que cada vez mais se agigantam, angariando mais processos decisórios, se tornam hostis a “soberania do indivíduo” e sufocam iniciativas de livre pensamento, assim como inovações fora de suas regulações, que são fenômenos de ordem espontânea, onde liberdade e educação estão em plena simbiose. Não me admira então que no “ambiente acadêmico”, policiado pelo estado planificador, ficam em evidência arranjos políticos hostis a movimentos de pensadores e empreendedores autônomos, descentralizados, em parte porque a essência do estado implica em uma configuração incompatível com este tipo de dinâmica, cuja política é feita para anular a tudo que não dependa de intervenções do planejador central, se chocando com relações de saber mais próximas entre agentes, temperados com idiossincrasias que  burocratas do Ministério da Educação não podem sequer imaginar que estão ocorrendo. Por isso, o “ambiente acadêmico” não estará livre o bastante para considerar a mais sublime minoria, apontada pela filósofa-romancista Ayn Rand [6]: o individuo, agente fundamental na “cataláxia” [7]. 

Certa vez, conversando com um doutor em ciências políticas, ele me confessou que só veio a conhecer, com profundidade, as “maravilhosas” (assim se referiu) obras de Hayek, por uma indicação de um amigo fora da universidade. Isso me diz muita coisa sobre a alienação de professores e alunos no “ambiente acadêmico” brasileiro. E quem acha que me refiro apenas a algo doméstico, não é bem assim. Não me admira que grandes disruptores catalácticos, como Bill Gates e Steve Jobs, se desenvolveram à margem do formalismo universitário e que grandes homens de negócio se formaram longe do “ambiente acadêmico”. Voltando ao Brasil, como a educação por aqui é muito mais planificada, se não ocorrer uma mudança profunda nessa condição, passando pela desestatização e extinção do “planejador central”, o Ministério da Educação, o que se entende por “ambiente acadêmico” correrá sério risco de não ser mais levado a sério pela “sociedade”.

Não consigo imaginar atualmente formalizado em um sistema que produz pensadores ancorados com o planejador central e que não costumam colocar a “pele em risco” ou seja, normalmente não sabem o que é exercer a profissão que se relaciona com a área de conhecimento que lecionam, pois não se submetem a pressão de se expor ao mercado; via de regra, nas vezes em que procurei o “ambiente acadêmico”, me deparei com catedráticos que não sabem como lidar com dilemas concretos da vida econômica e ficam em uma posição muito confortável para falar de teorias sobre como ensinar pássaros a voar, com formulações de criticas sociais que não resistem a uma boa volta pela “selva” da cataláxia. Professores universitários de economia, e áreas afins, na maioria, são assim porque espelham a mesma mentalidade de planejamento central do sistema em que foram educados; são competentes para o “sistema” e só para o “sistema”. Atuam como produtos genuínos de um modelo arcaico, falido, obsoleto, rodeado de coisas vencidas, feitas para multiplicar idiotas, assim serão influenciadores de alunos que são castrados de ir além do que o “sistema” costuma determinar. Não me refiro a pobreza de repetir literatura, tomando um religioso cuidado com as normas da ABNT, ficando acima de qualquer outra coisa, além de citar autores consagrados de forma descontextualizada com os objetos de “estudo”; trata-se de algo muito mais dramático. O “ambiente acadêmico” me parece algo devotado a produzir o sujeito  “antiacadêmico” de maneira que possa ser um militante formador de barreiras eficientes contra a livre intelectualidade visando proteger a cultura antiacadêmica ou de estado.

Então, a idiotice é mesmo útil; o analfabeto funcional é fundamental para manter as bases de poder entre docentes, muitos também imbecilizados dentro de uma hierarquia. Discordo quando se diz, então, de que a educação no “ambiente acadêmico”, assim como no Brasil, é ineficiente. A educação no Brasil é eficiente para manter um sistema de poder tão nefasto quanto ao que se observa entre os políticos de vitrine. O “ambiente acadêmico” se consagrou como uma grande ferramenta de educação para a servidão, distribuindo afagos em forma de diploma ao “homem-massa” de Ortega y Gasset.

E eis que a partir do momento em que o tão desejado diploma é obtido e a “vida real” se apresenta além da redoma universitária, muitos saem das faculdades sem o menor preparo para o tão mal afamado mercado, ou quando permanecem para a “carreira acadêmica”, entram de vez em um universo de esquizofrenia. Tornam-se engenheiros de mundos paralelos, fazendo uso indiscriminado de modelos teóricos e métodos quantitativos para “traçar o futuro da sociedade”, em uma estrutura de ensino decadente, doentia, de docência hierarquizada na base de trocas de favores, politizada partidariamente, extremamente boçal, pautada na busca de títulos, honrarias e privilégios em um jogo de tramoias e invejas que supera até o que vejo entre tubarões do mercado financeiro.

Pois bem, onde muitos veem sinal de prestígio (“professor de faculdade”), vejo um seríssimo problema de “custo de oportunidade” em função de projetos e afazeres profissionais que deveriam estar integrados à vida acadêmica, na visão que tenho sobre os estudos. Assim, ter aceito o convite para ser “professor” teria sido um equívoco em vários sentidos, além de que dar aulas requer um nível de qualificação e maturidade com o “sistema” que não tenho (e nem pretendo ter), seria um desperdício de tempo. Aprender “fora do sistema” é fundamental para fomentar  “antifragilidade” no sustento moral e material. No meu cotidiano, vejo muita gente “formada” e sem condições de exercer profissão relacionada ao que diz o diploma. E se mais vale o diploma do que o “saber de fato”, para o mercado, nas áreas onde atuo, o conhecimento atestado tem significados pragmáticos, não importando o diploma na “hora da verdade”, quando problemas precisam ser resolvidos.

Diante do que preciso, o sentido da vida acadêmica para mim depende de uma íntima relação entre o que é estudado em sala de aula com o que se pratica profissionalmente, abrindo espaço para que realidades do “mundo da vida” sejam fontes de alta relevância para a elaboração de teorias.

No mais, passou o tempo em que tinha a ingênua crença de que o “ambiente acadêmico” poderia ser um lugar em paz com a diversidade de ideias. Entendo o heroísmo de poucos que trabalham nessa crença, mas a estrutura em que estão firmados sempre tenderá para vícios onde serão prioritárias determinadas visões de mundo dentro do escopo favorável à natureza política do estado, à cultura de planejamento central. O resultado desse controle pode ser visto em centros de graduação transformados em núcleos de preparação de idiotas úteis, militantes político-partidários, sob uma ordem que pretende revolucionar a sociedade com base na mesma “redoma de vidro” de seus professores também alienados, ávidos para implodir instituições que representam o capital humano acumulado por nossos antepassados. E nessa neura revolucionária, no lugar de um meio que deveria zelar pela intelectualidade e pelo livre pensamento, se estabelece um clima de “seita religiosa”, cuja “confissão de fé“ está em se manter obediente ao que o predomínio político exige. Não é por acaso que universidades estatais, bancadas com o dinheiro tomado dos “contribuintes”, ficam mais evidentes no sentido de serem os maiores centros de formação de positivistas, intervencionistas, progressistas, marxistas, freyrianos, keynesianos, desenvolvimentistas, quase não produzindo pensadores liberais, enquanto privilegia fidalgos, “mauricinhos” e “patricinhas” que estudam bancados tributariamente pelos mais pobres, formando uma elite que se prepara, não por coincidência, para ingressar em outras estruturas parasitas do estado, nos melhores escalões de órgãos públicos e empresas “públicas”, percebendo salários acima da média do mercado.

Aprendi a ter prazer como um informal empreendedor intelectual, o que também me inspira a crer que um dia posso me vincular a alguma instituição que seja verdadeiramente aberta, apta para abraçar estatistas, socialistas, liberais, comunistas, progressistas, positivistas, ateus, religiosos, anarquistas, conservadores, austrolibertários e tantos outros tipos ideológicos dentro de um mínimo suporte moral que a civilização demanda (alguns chamariam isso de “estado”, no entanto, prefiro chamar de “respeito às leis naturais”), livre dos grilhões do nefasto Ministério da Educação, que seja autônoma, de governo privado, singela diante da liberdade e da nobre conquista da educação, destemida diante de qualquer iniciativa coercitiva e compulsiva para monopolizar a atividade intelectual.

Texto revisado da versão produzida em maio de 2016.

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Notas:
  1. Utilizo a grafia estado começando com e minúsculo e não o E maiúsculo. Concordo com o editor do Instituto Ludwig von Mises Basil (IMB), ao se referir ao argumento da revista Veja em 2007: “se povo, sociedade, indivíduo, pessoa, liberdade, instituições, democracia, justiça, são escritas com minúscula, não há razão para escrever estado com maiúscula”. Também acho coerente o argumento austro-libertário de que estado é uma discreta provocação contra a ideia de uma entidade que está acima dos indivíduos;
  2. Cooperação ou “ação concertada” entre indivíduos que se ajudam mutuamente visando seus próprios interesses. A sociedade é “divisão do trabalho e combinação de esforços”. Ação Humana. Ludwig von Mises, página 183. 3.1a. edição;
  3. Os erros fatais do socialismo. Capítulo 1.
  4. Ver “The Use of Knowledge in Society”, de F.A. Hayek. Há uma outra obra recentemente reeditada em português, onde se pode conferir as principais ideias de Hayek: Os erros fatais do socialismo;
  5. Professor honorário de economia da Geroge Mason University
  6. Filósofa nascida da Rússia e que obteve a cidadania norte-americana. Desenvolvedora do objetivismo. Ver a obra “A Nascente”;
  7. Teoria da economia de mercado, acerca das relações de trocas e de processos de formação de preços. Conceito foi amplamente trabalhado por Ludwig von Mises, Friedrich August von Hayek, entre outros pensadores da Escola Austríaca de Economia;

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