Revisado em 24/02/2019 13h12

Aprendi o significado do “viver o que se ensina” pela dor da indignação, lá pelos idos de 2003-2006 quando notava em alguns professores e alunos do seminário teológico, certas inconsistências. Eram de “mente aberta” abordando com entusiasmo determinados conceitos liberais em sala de aula, mas, tendo oportunidade de vê-los no púlpitos de suas igrejas, se transformavam em exímios pregadores fundamentalistas. Diante de discentes, se faziam passar por promotores da liberdade de expressão, do livre pensamento, mas diante da congregação dominical, viravam extremistas da fé, condenando o mesmo espírito “liberal” que adotavam em sala de aula.

Na terminologia religiosa seria, “você vive o que prega?”. Uma questão ética que vai além do âmbito religioso. Aplica-se ao nosso viver em geral. Quem não “vive o que prega” caiu na “idolatria do abstrato”. Não tem coerência sobre o que teoriza acerca da “realidade”, contrariando os próprios valores conforme conveniências pessoais.

Indo para uma exposição mais abrangente, também penso no conceito de “paralaxe cognitiva” na abordagem de Olavo de Carvalho, como sendo o hiato entre o eixo da experiência pessoal e o da construção teórica, uma reflexão que considero bem mais abrangente sobre o o que pretendo aqui abordar.

Outro elemento íntimo me remete a Leon Festinger: o conceito de “dissonância cognitiva”, como a falta de coerência entre o que se conceitua como “correto” e o que é de fato praticado. Não é necessário fazer muito esforço para notar que o campo da política é um “´prato cheio” para se observar os fenômenos que aqui mencionei, sobretudo o da dissonância. É aquele história de que não adianta discutir com lulistas, bolsonaristas ou quaisquer outros “istas”: sempre apresentarão justificativas para coisas dissonantes e injustificáveis. Então, quem se esforça pela verdade e pela coerência se torna inimigo de quem tem político de estimação.

Voltando à dupla personalidade de professores, alunos e pastores que observei no seminário, o problema também me atingiu. Cheguei a pensar se estava posando de “livre pensador” com toda disposição diante de uma comunidade, enquanto realizava um papel contrário em outra, que tem a inteligência subestimada. O que me ajudou a superar o problema foi o alerta “De Deus não se zomba”, dado por São Paulo aos Gálatas (6:7). Após essa experiência, naturalmente me afastei de dissonantes do mundo corporativo religioso, aqueles  que estão no mesmo time dos que pregam “santidade” à semelhança de livros de auto ajuda naquele bonachão estilo “sete passos para isso ou aquilo”, enquanto gastam o dinheiro dos “dízimos” com a própria ostentação, além de viagens e hospedagens de luxo para fazer “missões” e participar de “conferências” em lugares com forte apelo turístico.

Foi meditando no conceito de “paralaxe cognitiva” que comecei a ter muitas restrições ao ensino superior nas áreas de meu maior interesse: economia, administração, sociologia e contabilidade. Não acredito que sirva para alguma coisa produtiva fazer faculdade nessas áreas. O sistema de ensino foi “sovietizado” pelo Ministério da Educação, que engessa processos disruptivos no aprendizado através das regulações de planejamento central. O tal Ministério é a mais nociva instituição que há no estado brasileiro, sendo especialista em “formar” e proteger quem não “vive o que prega”. Tive um professor de “mercado de capitais” nos anos 1990 que nunca tinha operado em uma mesa, tampouco assumido responsabilidades em uma corretora. dava aulas sobre derivativos onde se declarava “expert” por ter lido várias obras e portar um certificado de pós-graduação, mas se enrolava para responder os questionamentos de um aluno que tinha feito um estágio em uma corretora. Pensei, como este homem pode contribuir em minha formação na área se não tem vivência de como a coisa é na prática?

Cansei de ver professores de “contabilidade de custos” que nunca desenvolveram um trabalho sequer nesta especialidade em alguma organização, se assemelhando ao famigerado “empreendedor de palco”, uma epidemia hoje em dia.  Conheci “administradores” dando aulas, mas que nunca administraram empresas. Mestres e doutores que se apresentam como mentores que nunca viveram as coisas que ensinam. Indivíduos que vivem dissociados da realidade, distantes de um entendimento sobre o mundo volátil diante de desafios concretos sobre a complexa e imponderável dimensão da dispersão de conhecimentos e subjetividades, onde entram no fogo várias certezas.

Economistas que querem melhorar o mundo com intervenções governamentais que metem a mão no bolso alheio e negligenciam questões elementares sobre escassez?

Contadores que não exercem a contabilidade e não sabem sequer aplicar conceitos de “débito” e “crédito”, mas querem inovar em gestão empresarial?

Especialistas em direito que não advogam ou não se comprometem exercendo juízo de algum tribunal?

Fariseus moralistas que defendem um rígido sistema de leis, mas que não as aplicam em si mesmos e muitas vezes cobram dos outros como se fossem exímios aplicadores?

Administradores com ideias revolucionárias, prontos para inspirar um novo unicórnio, mas que não administram empresas e, muitas vezes, sequer a própria vida?

Especialistas que não colocam a “mão na massa”? Experts que falam sobre, mas não vivem sob?

Gente que só tem mesmo o diploma que serve para decorar o escritório, fazer lobby na faculdade e massagear o ego. Vivemos em uma era onde há muitos especialistas virtuais dando aulas para futuros especialistas que também serão virtuais. Um tempo difícil onde ser exemplo sobre o que se ensina virou detalhe até mesmo desprezível.

E quanto a economistas, tenho que ser mais específico: os do mainstream, os mais nocivos sujeitos “pensantes” na sociedade.que se juntam a dissonantes da política para criar as maiores máquinas de destruição em massa que se pode ter. Destroçam a Economia como “ciência da escassez” em favor de influências keynesianas e marxistas. Alguns enaltecem (o nada pioneiro) Adam Smith, e até consideram o sábio Mises, mas vivem sob o setup de Marx. São os mais intensos em moral hazard para distorcer tudo o que pretenda levar a sério acerca da cataláxia [1] em favor do sistema gramcista tupiniquim. Prefiro um embate com um comunista autêntico a ter que levar a serio um “liberal”  brasileiro “defensor da liberdade” enquanto militante por regulações estatais; fazendo um tipo de socialista que tem medo de sair do armário.

O problema do viver o que é ensinado em salas de aula me remete a outros mais profundos. Um caso é abordado por Thomas Sowell, chamando de “fatos e falácias acadêmicos” [2], considerando que “os interesses dos professores superam as necessidades educacionais dos alunos” [3]. Tais interesses estão na separação que há no meio acadêmico em relação à lógica de mercado, pelo fato de que a relação de consumo é afetada pelo desconhecimento do aluno (consumidor) sobre o produto vendido (formação), enquanto que, em um mercado, normalmente, atender aos interesses do vendedor e desvalorizar o do comprador pode significar maior risco de perder o cliente, na faculdade o professor (vendedor) está em uma posição onde se é em mais complicado para o aluno (comprador) avaliar se foram bem transmitidos os conteúdos previstos no contrato de ensino. Aqui no Brasil eu diria que o problema se torna bem mais complexo quando se coloca na equação as intervenções do estado por meio do infame Ministério da Educação, fundamentando um corporativismo onde a política se sobrepõe à realidade que vem do mercado e serve de escudo para que professores incompetentes continuem destroçando mentes.

Essa estrutura distanciada da realidade da vida, entenda-se “mercado”, típica da atividade de ensino dito “superior” no Brasil, ajuda professores a construírem uma blindagem contra questionamentos acerca do que estão, de fato, oferecendo a seus alunos em termos de conteúdo e efetividade do saber. Então, usar a avaliação do “viver o que se prega” ajuda a desmascarar quem se porta como doutrinador e não passa de uma charlatão.

O professor tem experiências profissionais diretamente relacionadas com o que ensina em sala de aula? Se tem, quais os resultados obtidos ou seja, qual o conceito que tem no mercado de trabalho do ponto de vista da aplicação das teorias que se dedica?

Quando um professor “não vive o que prega”, não coloca em jogo conceitos que defende, não se submete às aleatoriedades que a assim chamada “ciência” deve se pautar, não testa na própria vivência o que “ensina” em sala de aula, merecerá algum crédito? “Viver o que se prega” é assumir responsabilidades na propagação do conhecimento; significa colocar a própria “pele em jogo” [4], como sugere Taleb. “Viver o que se prega” implica em correr riscos de afetar a própria credibilidade junto com interesses materiais. 

Não se deve dar ouvidos a quem dá opinião e está imune a resultados; a quem não sofrerá com as consequências das coisas que ensina. Quem não tem o que oferecer além das próprias análises “despretensiosas” ou “isentas”, atuando só na base da epistemologia, tratando o conhecimento apenas como algo que se inicia por teoria até a prática, subestimando a ação de experimentar e aprender no processo de teoria e prática, sobretudo, sem assumir ganhos e perdas no exercício do saber, sem reconhecer erros e acertos, não tem genuína autoridade para fazer o saber brotar como “verdade que ensina interiormente”, lembrando Santo Agostinho de Hipona.

Aqui encerro com uma breve síntese de São Tomás de Aquino:

Al ioquin si nudis auctoritatibus magister quaestionem determinet, certificabitur quidem auditor quod ita sit, sed nihil scientiae vel intellectus acquiret , et vacuus abscedet  [5].

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Notas:
1. Teoria da economia de mercado. Bastante difundida na Escola Austríaca de Economia.
2. Fatos e Falácias da Economia. Ed. Record, 2017.
3. Obra da nota 2. Página 128.
4. Ver Antifrágil de Nassim Nicholas Taleb.
5. “Se o professor resolver a questão somente por meio de argumentos de autoridade, quem o escuta ficará, sem dúvida, convencido de que as coisas são assim, mas não adquirirá nada em ciência e intelecto, e irá embora vazio”. (Tomás de Aquino, Quodl. IV a. 18.).  Esta tradução consta na introdução da obra “À escuta do outro”, do teólogo italiano Bruno Forte.

 

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