Vejamos um paralogismo:

Todos os A são G.

Todos os S são G.

Logo, todos os A são S.

Uma falácia pela “falta de quantificação do termo médio” [1], o que também expressa, a meu ver, um silogismo que penso, se tratar também de um problema que envolve “dispersão”. A falta de conhecimento determinado em relação ao “termo médio” G pode levar a conclusões equivocadas sobre a equivalência objetiva de A e S.

Fica melhor assim:

Todos os austrolibertários são opositores do PT.

Todos os bolsonaristas são opositores do PT.

Logo, todos os austrolibertários são bolsonaristas.

Ou:

Todos os católicos são cristãos.

Todos os protestantes são cristãos.

Logo, todos os católicos são protestantes.

O paralogismo evidencia um problema de conhecimento mínimo suficiente para que classificações sintéticas não gerem conclusões inconsistentes enquanto aparentemente lógicas.  Lembro-me da “tábua das categorias” de Kant em relação à quantidade: “a totalidade não é mais do que a pluralidade considerada como unidade” [2]. Então, penso, “considerada”, levando em conta “um ato particular do entendimento” [3],  é preciso ter muita calma para que não se aplique um silogismo falacioso com fatores que precisam ser separados, qualificados, ponderados analiticamente,  para evitar inconsistências de uma conclusão sob respaldo lógico.

Outro elemento que envolve esta questão tão ampla me remete a paralaxe cognitiva, conceito desenvolvido por Olavo de Carvalho. Indivíduos que constroem teorias sob conclusões mal embasadas na observação de fatos, gerando expressões sintéticas costumeiramente falaciosas, distantes de representar o que afirmam conhecer em termos analíticos, não passando de um compêndio de afirmações rasas, superficiais, quando não fraudulentas, tratadas até como “científicas”.

O uso de variáveis sintéticas em dados econômicos como elementos no auxílio da interpretação de fenômenos, também costuma apontar causalidade e/ou silogismos jocosos, normalmente envolvendo conclusões sobre comportamentos (preferências) de agentes econômicos. A estatística é uma nobre ciência que nos possibilita ver um momento (passado) de dados apurados e organizados, que servem para a interpretação de fenômenos e, através de métodos econométricos, podem ajudar na identificação de correlações, no entanto, é preciso ponderar o que de fato se sabe através da  estatística e o resultado de econometrias. Uma história, que mais parece lenda correndo pela internet, usada como ilustração em cursos, diz que um pesquisador teria encontrado uma forte correlação positiva entre vendas de sorvete e ataques de tubarão em uma praia. O que pode haver entre tubarões, sorvetes e banhistas? Muitas vezes, a estatística serve a “interpretações” que mais parecem aquela história do sujeito que atira a flecha primeiro, e depois desenha o alvo. Para outros detalhes, recomendo o artigo “Colocando lenha na fogueira: correlação e causalidade em crescimento econômico” [4], do professor Roberto Ellery.

Com base na última PNAD Contínua do IBGE [5], ouvi de um professor em uma rádio que “12 em cada 100 brasileiros estão desempregados”. Em economia, frases de efeito servem mais como sínteses superficiais, apelativas, generalistas, para o público leigo, sobre resultados que representam apenas um momento passado, sujeitos a especificidades da estimativa adotada, mas tudo soa como se fosse em termos absolutos; não levam a sério uma variável de estoque derivada de um cenário “fotografado” por estimativa, no caso, o trimestre móvel encerrado em janeiro de 2019 em determinadas cidades. A desocupação da PNAD Contínua é um dado muito importante, mas não deixa de ser sujeito a restrições que a volatilidade e a infinita riqueza de conhecimentos dispersos na economia impõe. Em outras palavras, o que se tem é uma ideia limitada sobre o volume de desocupados e não o fato preciso em si.

Salvo os casos de uso por má-fé (algo corriqueiro entre “intelectuais” feitores de política econômica), o tal “ato particular de entendimento” pensado por Kant, quase sempre aparece no pretexto para  um festival de conclusões generalizantes, se apropriando da estatística que mais parece uma pseudociência determinista, de futurologia, quando assim é aplicada. Evidentemente, problemas suscitados em resultados obtidos estatisticamente ou, de forma mais precisa, por contabilidade, podem dar importantes subsídios para projeções com relativa precisão de acerto, quando se tem um modelo determinado. Um exemplo seria a presumível falência da Previdência Social, identificada com os dados atuariais à disposição e os déficits apontados nos balanços da União.

Lembrei-me também de uma pesquisa um tanto inusitada, de 2007, cuja conclusão era de que “mulheres preferem comprar roupas a fazer sexo” [6]. Para uma geração que ler manchetes e se considera inteirada do conteúdo, em tempos de timelines, seria hoje  um “prato cheio” onde passam distantes questões elementares do tipo “como” (qual foi o modelo da pesquisa e o perfil das entrevistadas, idade, preferência sexual, etc), “quando” (momento do levantamento) e “onde” (localidade pesquisada), afinal, 1.000 mulheres em dez cidades americanas, entrevistadas, talvez, por volta de 2006-2007 (a matéria não revela) pensam de forma análoga às de quaisquer idades, em localidades e culturas do mundo…  O uso de pesquisas é um ato que precisa ser sempre franciscano: quanto mais abrangente for a pretensão (mulheres nos EUA, no Brasil ou no mundo, ou seria em Recife, ou em uma tribo ianomâmi), maior será a probabilidade de ocorrer conclusões equivocadas dada a dispersão de conhecimento ou o que se pode entender inadvertidamente por “margem de erro” de uma “fotografia” (pesquisa) de um determinado instante, em um determinado ambiente, em uma determinada circunstância, por um modelo estatístico específico, em uma determinada cultura,  nada garantindo, levando em conta esses “detalhes”, a presunção de eventos mediante aspectos subjetivos que envolvem o ser chamado “humano”.

A dispersão do conhecimento está nas mais diversas dimensões da vida em sociedade. Antes de chegar à economia, penso em pessoas que se comportam como se fossem “centros do universo” quando demandam alguma coisa de algo ou alguém, achando que trazem consigo o único problema urgente da humanidade, demonstrando pouca ou nenhuma evidência de que o que sabem, ou julgam saber, pode ser algo irrelevante dentro de um contexto maior de fatos desconhecidos. Então, exigem sempre respostas imediatas para problemas onde, muitas vezes, não têm a menor noção de como se desenvolveram até então. Quando falta humildade diante da dispersão, acabam atuando como juízes de comportamentos alheios que são especialistas em qualquer coisa, ávidos para exercerem céleres julgamentos de problemas que não compreendem minimamente bem, mas com base em alguns dados e pareceres de “experts” (que também sofrem da moléstia), entendem conhecer o suficiente e assim, estar habilitados para tamanha responsabilidade. Então, compreendo que a negligência com a dispersão do conhecimento se agiganta como a maior epidemia do nosso tempo, através de redes sociais, grandes multiplicadoras de imbecis, e não apenas entre planejadores centrais de governos.

Na economia, Friedrich Hayek foi bastante inconveniente, para os padrões esquizofrênicos do mainstream, quando começou a analisar o problema da dispersão frente ao equivoco socialista em torno do planejamento central. Começando pelo problema do conhecimento factual em função de se observar os efeitos da moralidade, afirma o economista austríaco que “no mercado (como em outras instituições da nossa ordem ampliada), as consequências não premeditadas são soberanas: a distribuição de recursos é efetuada por um processo impessoal no qual os indivíduos, agindo em vista dos próprios fins (com frequência também bastante vagos), literalmente não sabem e não podem saber qual será o resultado geral de suas intenções”. [7]. Então, Hayek desenvolve para chegar a conclusão de que “para os intelectuais em geral, a sensação de ser mero instrumento de forças de mercado ocultas, mesmo que impessoais, parece quase uma humilhação pessoal”, abrindo então para um mergulho mais profundo onde “a maioria dos fins das ações não é consciente nem deliberado” [8].

O conhecimento disperso produzido pelo mercado inviabiliza o planejamento central, pois este último parte da premissa equivocada de que decisões, costumes, juízos de valor, dos agentes econômicos (sobretudo os consumidores) podem ser atendidos com relativa segurança, sem levar em conta fatores subjetivos; e eis que intervenções, feitas por governos, acabam por distorcer mercados, afetando comportamentos de agentes que atuam por estímulos de maneira que compromete a aplicação de recursos de modo racional, maximizado, com maior retorno satisfatório possível dentro das circunstâncias. O que Taleb [9] chama de “intervencionismo ingênuo”, pode ser traduzido na ação do estado sobre a economia de mercado, pela petulância de querer impor à sociedade, padrões de bens e serviços com base na tomada de decisões (regulações) de um punhado de burocratas estatais que pensam saber (ou tentam passar a imagem que sabem) o que é melhor para milhões (ou bilhões) de consumidores produzindo aleatoriedades.

O intervencionismo estatal é o veneno da ignorância vendido como remédio do conhecimento por meio de regulações. É o mercado que nos possibilita saber alguma coisa sobre economia, de forma bastante limitada, em um determinado momento e determinada circunstância. Esse conhecimento, embora sempre limitado, é essencial para que a sociedade se organize minimamente como força econômica. Conforme demonstrado por Ludwig von Mises em 1920, ausência de economia de mercado, como pressupõe o socialismo proposto em sua época, inviabiliza o “cálculo econômico” que é uma questão além da mera tecnicidade (de se partir de cálculos na cadeia de custos), sendo insuficiente para descobrir “o grau de conveniência geral e teleológica” [10]. Mesmo em uma era de “big datas”, colhendo e processando resultados de consumo de bilhões de indivíduos, ainda teremos fotografias de um passado que, por mais nítidas que possam ser, não podem servir, per si, de maior referência apriorística para definir em como tratar a dinâmica de economias (mercado).

O problema da negligência com a dispersão vai além por envolver a subjetividade de cada um dos consumidores, salvo se um dia possa ser criado um big data capaz de prever o comportamento (seria um deus), antecipando resultados sobre tomadas de decisões de cada um dos envolvidos em um determinado ambiente de trocas negociais infinitamente combinadas.

 

 

 

________________________

Notas:
  1. Umberto Eco em “Os Paradoxos”. La Milanesiana, 2010. Ver Aos Ombros de Gigantes, página 214. Ed. Gradiva, 1a. edição. Lisboa.
  2. Immanuel Kant em “Crítica da Razão Pura”. página 110. Ed. Martin Claret, 2002.
  3. Obra da nota 2, página 111.
  4. Colocando lenha na fogueira: correlação e causalidade em crescimento econômico.
  5. PNAD Contínua: taxa de desocupação é de 12,0% e taxa de subutilização é de 24,3% no trimestre encerrado em janeiro de 2019.
  6. Pesquisa revela que mulheres preferem comprar roupas a fazer sexo
  7. F.A Hayek em “Os Erros Fatais do Socialismo”. Faro Editorial. 1a. edição brasileira. 2017. Página 99.
  8. Obra da nota anterior, página 114.
  9. Nassim Nicholas Taleb em “Antifrágil”. Ed. Best Business, 2017. 8a. edição. Capítulo 7, página 147.
  10. Ludwig von Mises em “O Cálculo Econômico em uma Comunidade Socialista”. LVM Editora. 2a. edição revista e ampliada. 2017. Página 125.

Comentar pelo Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *